A Festa dos Loucos

Por Ricardo Pereira

Foi assim que se denominou o Carnaval na Idade Média, de “A Festa dos Loucos”, na qual todo um apego Cristão era substituído por uma espécie de apelo momentâneo ao resgate dos costumes, ritos e cultos pagãos.

Nesse “Carnaval Medieval”, segundo Bakntin (1999) , pensador russo do século XX, de linha marximiana e profundo pesquisador desse festejo profano, “o mundo parecia ficar de cabeça para baixo”, tudo era liberado, desde o expressar-se, assim como o toque e o movimento, tudo se constituindo, conforme esse pensador em “[…] uma grandiosa cosmovisão universalmente popular de milênios passados, é, portanto, o mundo às avessas”. (BAKHTIN, 1999) .

Por outro lado, o Carnaval, enquanto fenômeno social, antecede a Era Cristã, possuindo origem nas bacanais greco-romanas, com o culto a Dionísio/Baco, tendo sido praticado em diversas civilizações antigas, incluindo-se, aqui, também, a egípcia.

Era comum os medievos, à época, aglutinarem-se nas praças portando máscaras, roupas enfeitadas a fim de desfilarem, beberem vinho, dançarem, cantarem e se entregarem aos mais diversos prazeres carnais, no verdadeiro sentido da diversão pura.

Na Antiguidade, essa festa era uma prática religiosa relacionada à fertilidade do solo. Era uma espécie de culto agrário em que os foliões comemoravam a boa colheita, o retorno da primavera e a benevolência dos deuses, bem ao gosto de alguns dos significados simbólicos de um 3 de Copas do Tarô, de inspiração de Pamela Colman Smith, no Tarô Universal de Edward Waite.

No contexto da cultura egípcia, os ritos de Carnaval constituiam-se, também, de oferendas ao deus Osíris, devido ao recuamento das águas do rio Nilo.

Os gregos aproveitavam, o momento para homenagear, Dionísio, deus do vinho e da loucura e, também, Momo, o deus da zombaria.

Em Roma, na “Festa dos Loucos”, vários representantes do panteão mitológico romano eram homenageados e adorados, entre eles Júpiter (senhor do Universo e do dia), perpassando tal deferência por Saturno (deus da agricultura) e finalizando-se os festejos na adoração e culto a Baco, deus do vinho e da orgia.

Com a passagem do período medieval para o moderno, o Carnaval ou a “Festa dos Loucos” se espalhou por todo o mundo Ocidental, chegando por aqui em pleno século XVIII trazido pelos portugueses, que o denominavam de ENTRUDO.

O Carnaval moderno, organizado, constituído de desfiles e fantasias, é um produto importado da sociedade vitoriana do século XIX.

Paris consagrou-se, na História do Carnaval, como o principal modelo exportador de um tipo de festa carnavalesca que hoje, em pleno século XXI, perpetua-se como o maior festejo mundial de manifestação popular destinado não só ao culto e à adoração aos “deuses pagãos” da atualidade e aos antigos, mas, também à uma divertida orgia pública em massa, que apesar dos pesares, ainda possui, para muitos, os seus encantos e serventias.

Por outro lado, alguns poucos, assim como eu, correm léguas de distância de tal evento, como numa espécie de regozijo profano, consequência de uma privação racionalmente auto-imposta e, sem dúvida alguma, significativamente prazerosa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ICONOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1999.

“3 de Copas”, Radiant Rider Waite Tarot.

“O Louco”, Lunatic Tarot.