Entre as figuras do “O Diabo” e do “O Louco”, no Carnaval tem de tudo um pouco

Por Ricardo Pereira

E, por falar em Carnaval, nada mais instigante que uma abordagem sintética sobre a mitologia romana e do deus Baco, o seu representante da folia, da embriaguez e da libertinagem.

Não é à toa que o seu nome latino é Líber, que, entre outros significados, denota “o ser livre,” gozando de sua ampla e total liberdade.

Baco era filho de Júpiter e da linda e exuberante mortal Sémele. E, do seu nascimento, até a chegada de sua fase adulta, na qual torna-se condenado a vagar Louco pelo Mundo, por obra da inveja de Juno, esposa de seu pai, sendo curado, após algum tempo, na Frígia pela deusa Cibeli, dos mortos e da fertilidade, muito pode ser contado sobre esse intrigante e curioso deus, do vinho, do panteão romano.

Um fato maracante sobre Baco, é que quando torna-se adulto, vem a conceber e apaixonar-se pela cultura da vinha, esbaldando-se na arte do cultivo de videiras, extraindo o melhor de suas suculentas uvas, para o deleite dos “bebuns”, para a produção do sagrado e embriagador vinho romano. Esse fato mitológico é quase sempre relacionado às ações que, por volta de 186 a. C. , em Roma, incitavam o desejo, o sexo e à orgia, e que por consequência, deu origem às bacanais, festa romana que possuia a finalidade de se cultuar, adorar e prestar honrarias ao deus Baco.

Consta de detalhado relato do historiador romano Tito Lívio (Pádua, 59 a. C. – Pádua, 17 d. C.), que no Senatus Consultum de Bacchanalibus, édito do Senado romano, datado de 180 a. C., continha as regras para a realização de festividades e ritos (Brandão, 1993), e que se referia ao culto a Baco como um rito que era celebrado, sempre, no período noturno, admitindo-se homens e mulheres indistintamente, em um clima de promiscuidade, unida ao furor báquico de consumo do vinho, dando origem a todos os excessos de libertinagem e, que por seu caráter nocivo, foi proíbido de ser promovido em torrões de Roma.

Historicamente, as bacanais foram a origem e a influência marcante dos festejos do Carnaval no mundo Ocidental, tanto na Antiguidade, quanto nos dias de hoje.

Trazendo para a atualidade, temos uma grande festa popular onde de tudo ocorre um pouco ou muito, onde todos são gloriosamente livres para expressarem sentimentos, desejos e materializarem as suas fantasias mais instintivas, ou seja, em um cenário onde “tudo acontece do jeito, que ‘O Diabo’ e ‘O Louco’ gostam”.

Nesse contexto, encontramos no Tarô, a figura do arcano maior “O Diabo”, que nos remete a um adentramento profundo nos elementos que compõem os instintos humanos, naquilo que leva ao excitamento diante aos desejos e prazeres da carne, ao que estimula a uma fome de poder, a cobiça e a ambição e, desse mesmo modo, a gula pela prática luxuriosa de um sexo desmedido, desregrado, que pode transformar a alguns meros dependentes de um comportamento lascivo, que pode fazer emergir verdadeiros escravos e algozes em meio aos mais diversos tipos de tormentos, atormentados e de atormentadores.

Não se pode, nesse âmbito, deixar-se de fora a emblemática figura do arcano maior “O Louco”, que em analogia, representa o sentido ingênuo, brincalhão, divertido, inconsequente, irresponsável e um tanto romântico dos antigos entrudos (Oliveira, 1997), que deram origem aos atuais “mela-mela” , referência em cidades do interior brasileiro, famosas por seus animados Carnavais regados a banhos de farinha com água, pela presença de pessoas “melecadas” de ovos e mil e um outros condimentos e iguarias de nossa culinária tupiniquim, que, graças a Baco, aos poucos estão sendo substituídos pelas espumas perfumadas.

Parece-nos, desse modo, que o Carnaval é um ambiente bem propício à observação dos atributos referentes às essas duas lâminas ou arcanos do Tarô, onde tudo acontece em um clima de festa, de lambança e de gozo da plena liberdade, cujos resultados promissores, ou não, de tão aclamado e esperado festejo, só são ou serão bem mais vísiveis no auge da quarta-feira de cinzas. E viva o carnaval!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ICONOGRÁFICAS

BRANDÃO, J. Dicionário mítico-etimológico da mitologia e da religião romana. Petrópolis: Vozes, 1993. Cap 2: “Baco e as Bacanais”.

OLIVEIRA, Caterina Maria de Saboya. Fortaleza: velhos carnavais. Fortaleza: UFC, 1997.

“Baco”, de Caravaggio (1593-94)

“O Bloco das Virgens”, Crato-CE, Carnaval 2008

“O Diabo”, Erótico Tarot

“O Louco”, Northern Shadows