A jornada do O Louco no carnaval e a quarta-feira de cinzas

Por Ricardo Pereira

Após o “O Diabo”, em seu caráter carnal e poder mundanos, incitar o folião festeiro, o “O Louco, a sucumbir às tentações e aos prazeres do carnaval, no melhor da festa, do suor e dos amassos, surge, implacável, ao raiar do sol, ou, de outro modo, ao molhar da chuva, as “cinzas”, ou o arcano maior “A Morte”, simbolizando uma oportunidade de se fazer transformar “O Diabo” que prevaleceu sobre os foliões, “O Louco”, durante os dias que ocorrem o carnaval.

Há um simbolismo interessante na quarta-feira de cinzas, sendo a representação desse dia, de suma importância, para os cristãos, referindo-se ao início dos preparativos, durante quarenta dias ou quaresma, para a festa que marca o ápice do cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, que é comemorada no domingo de páscoa.

Nesse meio tempo, a fim de incutir no “O Louco” sentimentos de culpa, dor e de penitência pelos pecados cometidos durante os festejos carnavalescos, o “A Morte”, ou as “cinzas”, emerge, de algo como o “inferno de Dante”, para fazê-lo cair em si, em uma tentativa de fazê-lo retomar o seu caminho, o seu rumo, de volta à evolução.

Em um cenário meio dantesco, o “A Morte” aborda o “O Louco” em tom inquisidor e lhe diz: “infeliz, saia da balbúrdia, e antes que sejas punido com um raio dos Céus (“A Torre”), volte! O seu caminho, seu desgarrado dos infernos, não é esse!” E, assim, o “O Louco”, como em uma espécie de lampejo, volta-se para dentro de si, reflete sobre os excessos que cometeu durante o carnaval, sofre e arrepende-se, em uma tentativa de retomada do seu caminho.

Desse modo, após a ressaca, ou a um tédio digno de um “4 de Copas”, como conseqüência de sua exposição aos desmandos do carnaval do “O Diabo”, o “O Louco” deverá permitir-se, durante os quarenta dias da denominada “quaresma” cristã, a uma profunda reflexão, a todos os tipos de jejum, à caridade (bem ao estilo de um “6 de Ouros”), e a muita, muita oração, como as pontes que o levarão rumo ao alcance dos objetivos impostos pela o “A Morte”, de absolvição e conversão, à duras penas, pela Fé. Nesse contexto, ainda, cabe-nos, caro leitor, uma indagação: quererá ou não o “O Louco”, nesses quarentas dias, passar por tais desafios?

Liturgicamente, as cinzas possuem origem no Antigo Testamento como um símbolo de dor, morte e penitência, estando, com o advento do cristianismo, forte e amplamente relacionado à idéia de pecado e a punição divina, tendo a penitência, o sacrifício do “O Pendurado”, a dor, de um “3 de Espadas”, e o sofrimento como sinônimos de fé e a saída, por meio da expiação, para a remissão dos pecados. Há algo mais cristão do que a idéia de pecado?


Esse sentido simbólico da quaresma possui fundamento na Bíblia, na qual o número quatro remete ao universo material e os zeros, que vêm depois dele, significam o tempo da vida humana na terra com os seus desígnios, obstáculos e provações. O número quarenta está estritamente relacionado à “provação”, com os sofrimentos muito grandes, que põem à prova a força moral, a fé religiosa, as convicções de indivíduo.

Segundo o historiador francês Jacques Le Goff (1989), na Idade Média, homens e mulheres viviam obcecados pelo pecado, e tinham no corpo e no sexo a origem de todos os males. Os pecados sofriam uma divisão à época, podiam ser caracterizados e classificados ou como pecados mortais ou veniais. Os primeiros são os que permitem e levam à morte, à danação eterna, à condenação Divina e os segundos, não condenam à morte, mas a uma pena de expiação, bem aos moldes de um arcano maior, “O Pendurado”.

Dessa forma, ao fim do carnaval, na quarta-feira de cinzas, caberia ao ressaqueado “O Louco” carnavalesco, uma pena baseada nos princípios do pecado venial, já que ele, temporariamente, ousou desobedecer, apenas, às leis morais (“O Papa”), não sendo-lhe aplicável, no entanto, uma descida implacável ao inferno.

Nesse cenário, até que se cure dessa ressaca sugerida por um “4 de Copas”, vitoriosamente chegando até a páscoa, o “O Mundo” do “O Louco” continuará tomado por tentações e provações.

Na semana santa cristã, entretanto, após as várias tentativas de conversão impostas pelo arcano maior “A Morte, é bem provável que ele retorne à balburdia e aos prazeres do vinho, da carne, como por uma obra tentadora do “O Diabo” e em meio a uma oraçãozinha ali, um donativozinho acolá, um jejunzinho aqui, ele irá, paliativamente, compensando os seus pecados, alcançando mais um e lascivo carnaval, como quem já nasceu fadado a concluir, ciclos e ciclos, como em alusão à “Roda de Samsara”, hindu, ou ao “A Roda da Fortuna”, em sua jornada evolutiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ICONOGRÁFICAS

LE GOFF, Jacques. O homem medieval. Lisboa: Presença, 1989.”

O Cavaleiro, a jovem donzela e a morte”, Hans Baldung (1484-1545).

“Ressurreição”, El Greco (1577-1599).

“Dante e Virgílio no inferno”, William Bouguereau (1825-1905)

“O Pendurado”, New Vision Tarot.

“4 de Copas”, 3° Millennium Tarot.

2 comments

  1. Senhor da Vida says:

    quero parabenizar pelo excelente blog , tenho certeza que veremos muitas pérolas e pra pedir pra me da uma força com seus excelentes comentarios no meu novo blog também do ramo do tarô. http://senhordavidatarot.blogspot.com/
    Parecia que tinhamos a mesma ideia de escrever sobre o louco e a quaresma como um recomeço apos cair literalmente na gandaia. Adorei o texto, rico em relaçao tarologica e cultural. Bjs!

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