Previsões ou presságios nossos de cada dia: do eterno dilema de se confiar ou não no Tarô

Por Ricardo Pereira
Desde tempos muito remotos, não havendo nos registros da humanidade a precisão da época e do lugar do início do desenvolvimento prático do seu uso, que muitas civilizações se valem do ato da previsão, do acesso aos presságios das divindades, dos oráculos, como um instrumento de orientação extremamente imprescindível às decisões materiais e imateriais pertinentes à existência.

Nas antigas Mesopotâmia, Egito, China e Índia, o ato de divinação esteve sempre articulado às religiões, aos governos, às pessoas, gerido por sábios decodificadores de símbolos, imagens e mensagens, que enunciavam o caos ou a ordem do mundo, do ponto de vista ou do passado, presente e/ou do futuro.

Desse modo, na busca do atendimento de seus desejos e necessidades, o ser humano da Antiguidade quase sempre tomou algum tipo de decisão amparado por valores culturais, preceitos familiares ancestrais, por velhos costumes, pela busca de formas produtivas de garantia de existência e subsistência, por suas crenças, cultos, ritos, tendo nos regimes de governo e atos políticos, na economia, na expansão territorial, na fundação de cidades, na vida em sociedade, na manutenção ou mudança dos estados de conquista ou de ruína, de ordem ou de calamidade, de saúde ou de doença, de amor ou de ódio, de paz ou de guerra os principais objetos de sua preocupação, procurando nos presságios oraculares as respostas para as suas inquietações e incertezas sobre os ciclos da vida, os mistérios da morte.

Nesse contexto, Coulanges (1975) ao fazer uma abordagem sobre a formação da cidade antiga ocidental, ao descrever as suas religiosidades, os seus ritos, cultos e crenças, afirma o que segue:

Acreditavam os gregos, assim como os italianos, que a localização de qualquer cidade devia ser escolhida e revelada pela divindade. Assim, quando queriam fundar uma cidade, consultavam o oráculo de Delfos. Heródoto conta, apontando-o ato de impiedade ou de loucura, ter o espartano Dória ousado construir sua cidade ‘sem consultar o oráculo e sem praticar nenhuma das cerimônias prescritas’; e o piedoso historiador se surpreende quando a cidade, assim construída contra todas as regras, tenha durado apenas três anos.

Na Antiguidade, os oráculos funcionavam ao lado dos sábios, construindo com eles o conhecimento humano. Desse modo, sendo por esses disseminados, permitia aos seus consultantes refletir sobre as suas escolhas, direcionando-lhes as decisões, auxiliando-lhes, também, a entrada em si mesmos, facilitando-lhes o autoconhecimento.

A divinação era, de fato, um conhecimento considerado sagrado e nem por isso distante da ciência, como destaca Guerriero (1998):

A divinação, em algumas culturas como a da antiga Mesopotâmia, era um saber em perfeita harmonia com a racionalidade, articulando-se com outros saberes tais como a medicina e o direito, possuindo status de ciência […] e como tal, portadora de métodos próprios de associação e sistema de análises.

Nesse contexto, o oráculo de Delfos, localizado no monte Parnaso, na antiga Grécia, sede do Templo de Apolo, ficou conhecido no mundo ocidental, como o “umbigo da terra” por representar simbolicamente a fonte de todas as idéias e entendimentos do mundo, contribuindo para a cultura que emergiu de uma religião politeísta antropomórfica, influenciando todos os setores do cotidiano grego.

Apolo, entre outras atribuições, era considerado o deus das previsões, dos presságios, da profecia.

Esse deus falava e orientava os generais gregos sobre estratégias de guerra, aos colonizadores suscitava investimentos em expedições de conquista de longínquos territórios e aos cidadãos comuns abordava sobre atividades agrícolas, relações afetivas, modos de vida, saúde e doenças. Tais desígnios divinos eram ouvidos através da voz da pitonisa ou sacerdotisa de Delfos, que, no ádito, ao inalar uma espécie de gás inebriante, advindo de uma rocha abaixo do templo de Apolo, entrava numa espécie de transe oracular, divinatório, profético. Percebe-se, entretanto, que a prática da divinação era uma das maneiras de se buscar conhecer e entender a relação entre os seres e as coisas, de se compreender os ritmos cíclicos naturais e de se interpretar a evolução humana dentro do cosmo.

No âmbito das orientações oraculares, May (1982) afirma que:

[…] a orientação de Delfos não era conselho no sentido rigoroso da palavra, e sim um estímulo para que o indivíduo e o grupo se analisassem, consultando a sua própria intuição e sabedoria. Os oráculos colocavam o problema sob um novo ponto de vista, num novo contexto onde possibilidades ainda não imaginadas se tornavam evidentes.

Eis o objetivo primordial dos oráculos, que é o de, através de sua decodificação ou interpretação divinatória, orientar as pessoas, estimulando-as a entrarem em si mesmas, para, assim, lançarem novos olhares sobre as questões da vida, no sentido de encontrarem saídas, formas e condições de fazerem, melhor, as suas escolhas, a tomarem as suas decisões.

Assim como na Grécia, na Antiga Roma, a divinação marcou fortemente a sua presença, principalmente, na busca de resposta, por exemplo, junto aos oráculos sibilinos. Esteve durante um bom período a serviço dos governantes e, durante o início da transição da Antiguidade Clássica à Idade Média, com a conversão em 212 d. C. do Imperador Constantino ao cristianismo, alguns dos sistemas divinatórios existentes passam a ser perseguidos pela Igreja, mudando amplamente de perspectiva, sendo substituídos por uma nova forma de se interpretar as mensagens das divindades, resgatando-se a tradição hebraica das profecias como elemento de forte influência nas decisões de poder. Desse modo, não existiam mais divindades, mas, sim um único deus, onisciente e cristão, sendo a sua voz interpretada através da leitura e estudo das escrituras sagradas. A fé era colocada acima de todas as coisas.

Da alta idade média, que decorre do século V ao X, até a baixa Idade Média, que se estende do século XI ao XV, a prática de divinação ficou restrita aos profetas bíblicos, interpretados pelas autoridades eclesiásticas em tom profético, mas, não como uma forma oracular de previsão de futuro ou de presságio, sendo essa prerrogativa implacavelmente descartada pela Igreja. Mesmo assim, a “Idade das trevas” possuiu os seus representantes das artes de divinação, da alquimia, pertencentes muitos deles aos grupos intelectuais e eruditos da época, como foi o caso de Roger Bacon, que no século XIII desenvolveu suas obras filosóficas, paralelamente aos seus estudos alquímicos, sem nunca ter sido perturbado pelos inquisidores católicos.

É fato, que nesse período histórico, até o fim da renascença no século XVI, que algumas das artes mânticas caminharam em paralelo e sem se conflitarem com o cristianismo, como foi o caso do Tarô.

Sobre essa evidência histórica Naiff (2008) assevera:

[…] astrólogos, numerólogos, tarólogos, alquimistas nunca foram perseguidos ou queimados vivos durante a Inquisição nos seus seiscentos anos de escuridão espiritual. Não éramos considerados ‘bruxos’ como se apregoa, não éramos estigmatizados pela sociedade européia; ninguém foi torturado por praticar tais atos, quem afirma isso desconhece a História. Na realidade […] durante a Idade Média e a Renascença, a alquimia e a astrologia eram partes integrantes da sociedade. […]

Por outro lado, sabe-se que um dos expoentes da Igreja Católica à época, considerado um dos pais da Igreja, Santo Agostinho de Hipona (354-430 d.C), em sua obra “Confissões” rechaçou a astrologia, interpretando que essa diminuía a importância do livre arbítrio, tratando, sobremaneira, de diferenciá-la da astronomia, que para ele possuía maior relevância, pelo simples fato de permitir, uma base para uma previsão teórica do futuro movimento dos astros.

No germinar do século XVIII, com o advento do iluminismo, todas as práticas consideradas esotéricas (a magia, as artes divinatórias, entre outros) antagonizaram com os princípios da razão iluminista, sendo relacionada, uma por uma, aos âmbitos do erro, da ignorância, da superstição, da crendice e do primitivismo intelectual, sendo categorizadas de práticas ocultistas.

Até o início do século XX, a astrologia, a alquimia, a quiromancia, a vidência e demais mancias, foram privadas do debate científico racional, sendo ainda hoje combatidas pela ciência cartesiana, embora de forma paradoxal, sirvam de objeto de investigação em diversas áreas das ciências humanas e sociais e esporadicamente surgem estudos sobre o assunto fora desse eixo acadêmico.

Nesse contexto, é importante destacar que no decorrer da história, por volta do ano de 1900, houve quem refutasse cientificamente, por exemplo, os escritos clássicos ou tradicionais do ensaísta, biógrafo grego e sacerdote de Apolo, Plutarco (46-120 d.C.), que descreveu com detalhes sobre o funcionamento do oráculo de Delfos, a sua localização geográfica, destacando, também, a existência de uma fenda, que por ela passava uma espécie de pneuma ou de um gás, o qual era inalado por uma pitonisa, que no ádito, sentada em um trípode, entrava em uma espécie de transe e profetizava sobre o que lhe era consultado.

O antagonista das idéias de Plutarco foi um especialista inglês em temas do mundo clássico, Adolphe Paul Oppé, que no início do século XX passado, visitou as escavações conduzidas por arqueólogos franceses em Delfos, enfatizando, em relatório, que nenhuma fenda fora encontrada no local e que nenhum indício de emissão natural de qualquer tipo de gás, que causasse alguma possessão espiritual, fora descoberto, asseverando que tudo o que os estudiosos da Antiguidade afirmaram sobre o oráculo de Delfos, inclusive Plutarco, não passava de mito, fruto de crendice e da ignorância. Oppé teve essa sua teoria reforçada em 1950, segundo Halle et al (2003) “[…] quando o arqueólogo francês Pierre Amandry acrescentou que apenas uma área vulcânica, algo que Delfos não era, poderia ter produzido um gás como aquele descrito pelos autores clássicos.”

O que foi descrito por Plutarco e categorizado como mito no século passado por Oppé e Amandry, tomou outro redirecionamento científico a partir das investigações de John Hale, arqueólogo da University of Louisville, Jelle de Boer, professor de geologia da Wesleyan University, Jeff Chanton, químico e professor no departamento de oceanografia da Florida State University e Henry Spiller toxicólogo e dirigente do Kentucky Regional Poison Center, que formaram, no ano de 1996, uma equipe interdisciplinar para pesquisar com significativa profundidade o oráculo de Delfos.

Esses cientistas visitaram o local com bastante freqüência e lá fizeram muitas experiências nos âmbito geológico, geográfico, químico e histórico, obtendo as confirmações dos discursos enunciados pelo conhecimento antigo, clássico ou tradicional, asseverando que a explicação de Plutarco a respeito das fendas existentes abaixo do templo de Apolo, pelas quais eram percebidas emissões gasosas, era, de uma precisão incontestável. Observaram que havia duas falhas geológicas que se cruzavam de forma exata sob o local em que estava fincado o oráculo.

Ainda identificaram, esses pesquisadores, que camadas petroquímicas nas formações calcárias da região produziam etileno, gás que pode levar um indivíduo a um estado de transe, podendo até ser letal, havendo a possibilidade de tal gás, ser aquele, o qual Plutarco afirmou que ascendia, levemente perfumado, por meio das fissuras criadas pelas falhas rochosas encontradas.

Vale salientar, que esses cientistas, através de suas investigações, identificaram que não havia nenhuma razão, principalmente, geológica para rejeitar a antiga tradição, ou seja, os fatos históricos detalhadamente explicados por Plutarco sobre o oráculo de Delfos.

Segundo esses pesquisadores, a impressão que tiveram ao investigarem com profundidade tais descrições, ao visitarem o local onde se encontram as ruínas do antigo oráculo, foi a de que, Plutarco, sacerdote de Apolo, esforçou-se, em seu tempo, em aproximar a razão humana, da religião, tentando compreender, também, a segunda através da investigação meticulosa de cada elemento (químico, humano, natural, político, social) envolvido no processo de consulta ao oráculo de Delfos, demonstrando através de seus discursos a importância das consultas oraculares influenciando nas decisões não só de poder do povo grego, mas, nas questões triviais de seu cotidiano.

Saindo do mundo greco-romano e adentrando nos confins da América, exatamente no lugar em que hoje se encontra o México, encontramos a civilização asteca, que fora destruída durante as expedições lideradas pelo espanhol Fernão Cortez.

A história dos astecas é profundamente relacionada a algum tipo de profecia anterior, ou seja, qualquer acontecimento continha um prévio aviso de sua futura realização.

Durante a investida da expedição espanhola contra os astecas, a chegada dos invasores é prevista oracularmente por seus líderes religiosos, e a vitória deles é uma certeza absoluta, para a inquietação e medo do seu imperador Montezuma, que não se privava de pedir conselhos aos deuses sobre o modo que deveria se comportar diante os inimigos, o que, de fato, não adiantou, pois todas as previsões nefastas sobre o fim do império asteca se realizaram.

Os astecas eram índios mesoamericanos, que viveram na América pré-colombiana, por volta dos séculos XIV e XVI, que além de outros afazeres, dedicavam-se à interpretação de mensagens, possuindo alguns sistemas divinatórios, os quais estavam atrelados as suas práticas e crenças religiosas. Era através da consulta a esses sistemas, no dizer de Todorov (1996), extremamente elaborados, que os grandes chefes astecas, sentiam-se seguros durante a tomada de suas importantes decisões, elaborando estratégias de comunicação e de defesa intrincadas e nunca imaginadas pelo invasor espanhol.

Dentre esses sistemas divinatórios utilizados no império asteca pode-se citar a adivinhação cíclica realizada pelo sacerdote local, possuindo este sistema os seus fundamentos no calendário religioso de treze meses, cada um com vinte dias, que destacava alguns atributos próprios para cada dia, pressagiando um futuro próspero ou nefasto de acordo com as predestinações do dia do nascimento de um indivíduo.

A segunda forma de adivinhação era a pontual e visava o controle dos acontecimentos. Se alguma coisa fugisse à ordem, pressagiava-se que algo de mau augúrio estaria para acontecer, dando-lhes uma indicação evidente de que nada estaria acontecendo por acaso.

Os astecas “acreditavam em mil augúrios e presságios” e muitos deles recorriam aos adivinhos profissionais que lançavam mão de muitos sistemas de divinação ou pela água, ou pela interpretação de grãos de milho e, também, de fios de algodão.

Observa-se, no entanto, que tanto no mundo greco-romano, na Europa medieval, quanto nos confins da América, quase sempre em um mesmo tempo histórico, a prática de se fazer previsões de acontecimentos futuros foi marcantemente encontrada em diferentes civilizações, culturas e sociedades, influenciando aspectos importantes de cada governo, governantes e governados.

Vale lembrar, que por volta do fim do século XIV e início do século XV, talvez em seus primeiros cinqüenta anos, pode ter surgido o Tarô ou como um objeto lúdico voltado aos jogos de carteado, servindo de diversão às cortes reais da época ou, também, com uma função oracular.

Sabe-se que os primeiros tipos de cartas de jogar e as primeiras cartas de tarô foram denominadas nesse período, simplesmente, de “naibis” ou de “ludus cartarum” (termo de origem latina), que se traduzindo seria algo como “cartas lúdicas ou cartas de jogar”. O termo “naibi” possui origem árabe, significando bruxaria, predição, adivinhação.

Um aspecto fundamental nos estudos e práticas do Tarô, desde os tempos remotos de sua existência, é a previsão, produto da leitura ou interpretação de casos ou eventos por meio da simbólica do oráculo, ou seja, da prática do que denominamos, recentemente, de taromancia, processo esse que envolve o Tarô, o tarólogo e o consulente.

Por outro lado, o termo “previsão” é bastante amplo, sendo historicamente verificado o uso dessa palavra em diversos tipos de saberes e experiências, tanto naqueles originados na cultura popular, no fazer cotidiano urbano e rural, quanto em muitas áreas das ciências formais e de suas profissões derivadas. Os seus diversos significados, conferem-lhe um caráter polissêmico.

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2008), essa terminologia significa:

1 ato ou efeito de prever; antevisão, presciência;
2 m.q. presságio;
3 antecipação, na base de suposições, do que ainda não aconteceu; conjectura;
4 cálculo do que é necessário, e do seu custo, para a consecução de um projeto, um programa de governo etc., feito antecipadamente; orçamento, estimativa.

Por esses significados destacados pelo Houaiss, observa-se que o alcance e a abrangência desse termo compreendem às diversas situações objetivas da vida comum, também, não fugindo de aspectos transcendentes ao mundo da matéria, sendo isso confirmado quando nesse dicionário é destacado que esse termo quer dizer o “mesmo que – m.q.”, presságio.

Desse mesmo modo, esse mesmo dicionário destaca que o termo “presságio” significa:

1 fato ou sinal pelo qual se julga adivinhar o futuro; prenúncio, agouro;
2 indício de algo que está para acontecer;
3 m.q. pressentimento (‘ato de sentir’);
4 m.q. intuição (‘ato de perceber‘).

Nesse sentido, a palavra “presságio” pode também ser entendida como sendo o “mesmo que”, intuição, faculdade humana, esta, que também é instrumental do tarólogo em seu fazer taromântico. A intuição, nada mais é que o próprio ato de percepção, objetiva e subjetiva, do que está à volta do indivíduo, do seu mundo e, também, do que está porvir.

Do ponto de vista da atuação do Tarô, observa-se que as suas searas mística e divinatória, desde o seu surgimento na Europa Medieval, sempre despertaram, como até hoje, a curiosidade humana, sendo o tarólogo, em seu ato de decodificação e transmissão de mensagens simbólicas, muitas vezes confundido com uma pessoa detentora de super-poderes, da arte de prever um futuro feliz ou nefasto, espécie de “tábua de salvação” para quem vem buscando, realizar sonhos, desejos, ou a tão almejada felicidade.

Vale salientar, que nesse contexto há um detalhe deveras importante: o Tarô em seu dinamismo não se adéqua somente ao princípio determinista ou ao fatalismo, ou ao livre-arbítrio ou ao poder humano de mudar a trajetória por ele prevista.

O Tarô não determina, claro! Mas, por outro lado, nem sempre o que planejamos ou desejamos emergem de suas mensagens em plena sintonia com os nossos interesses.

Percebe-se, pela experiência taromântica, que os arcanos trazem em si previsões para diversas condições, sendo algumas passíveis de controle, de implementação de mudança e outras, não!

Quando o Tarô diz não, a sua negativa é categórica, principalmente em questões que dependem de terceiros, de suas vontades, de seus valores, de suas formas de lidar com os acontecimentos, com as pessoas e com o mundo. Isso acontece, exatamente, porque o olhar do outro, na grande maioria das circunstâncias, literalmente, não é o mesmo que o do consulente.

Há também aquelas questões em que o próprio destino não favorece, não permite que os desejos, nem os do consulente e nem os de terceiros, se realizem. E, ai, isso é possível de ser contornado, reajustado? Em alguns casos, sim, pois as pessoas mudam, as coisas mudam, o mundo muda a cada dia! Em outros, diria que, não!

Esse eterno dilema entre se optar em ouvir o sim , ou o não nas previsões ou presságios, acreditando-se ou não neles, motivou-me a passear no mito de Édipo, escrito pelo dramaturgo grego, Sófocles por volta de 427 a. C.

Édipo, filho do rei, Laio e de sua esposa Jocasta, nasceu em Tebas. Consta, que ao consultar oráculo por três vezes, Laio obteve a previsão de que seria morto por seu filho, mas, a isso, fez “ouvido de mercador”, concebendo um filho com Jocasta. Com medo desse presságio, entregou Édipo a um pastor do Monte Citéron, que não conseguindo matar ou abandonar a criança, entregou-lhe a outro pastor, que acabou por levar Édipo a Pólibo, rei de Corinto, que criou o menino como sendo seu filho.

Édipo crescia e, sempre, deparava-se com alguém a afirmá-lo que não era filho legítimo de Pólibo; apesar de o rei ter lhe garantido que o era. (DETHLEFSEN, 1993).

Não satisfeito, pois duvidava das palavras de seu pai, Édipo seguiu em viagem para Delfos a fim de consultar o famoso oráculo. Quando perguntou se Pólibo e Mérope eram seus pais verdadeiros, o oráculo não lhe respondeu nem que sim, nem que não, mas, pressagiou-lhe que estava destinado a matar seu pai e a casar-se com sua mãe. Édipo horrorizado com as respostas do oráculo, nele acreditou piamente, tomando a decisão de nunca mais retornar a Corinto, cidade-estado na qual residia com o seu pai, Pólibo, e com a sua mãe, Mérope. O resto desse mítico relato todos nós já conhecemos …

O que precisamos nos atentar com esse mito, é que no âmbito das previsões que emergem do Tarô ou de qualquer outro oráculo, o fator confiança é bilateralmente fundamental. Ou se confia, ou não se confia em suas previsões.

Observa-se, nesse mito de Édipo, a evidência dessas duas possíveis circunstâncias. Laio consultou o oráculo e não lhe deu confiança, nele não acreditou. Por outro lado, Édipo, ao resolver trilhar o caminho do autoconhecimento, diferentemente, de seu verdadeiro pai, Laio, confiou sobremaneira em seus presságios, afastando-se, ao tentar fugir de sua sina, de Pólipo e Mérope, seus pais adotivos, mas, esse ato seu não foi suficiente para fazê-lo escapar, e nem poupar Laio e nem Jocasta, de seus previsíveis destinos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Hemus, 1975.

DETHLEFSEN, Thorwald. Édipo: o solucionador de enigmas. São Paulo: Cultrix, 1993.

DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesa, 2008.

GUERRIERO, Silas. Encontro de magia, mito e ciência na consulta aos oráculos: o espaço da feira mística. In: JORNADAS SOBRE ALTERNATIVAS RELIGIOSAS NA AMÉRICA LATINA, 8. São Paulo: PUC. 1998. São Paulo, 22 a 25 de setembro de 1998

HALE, John et al. A fonte do poder, no oráculo de Delfos. Rev. Cientific American, Rio de Janeiro, n. 16, set. 2003.

MAY, Rollo. A Coragem de criar. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

NAIFF, Nei. Curso completo de tarô. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Era, 2008.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro: São Paulo: Martins Fontes, 1996.

REFERÊNCIAS ICONOGRÁFICAS

– Consulting the Oracle. John William Waterhouse (1849-1917). Oil on canvas, c. 1882. Tate Gallery, London.

– Ruínas do oráculo de Delfos, em Monte Parnaso, Grécia.

– Santo Agostinho de Hipona. Vieira Lusitano (1699-1783). c. 1773. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal.

The Delphic Oracle. John William Godward (1861-1922). Oil on canvas, 1899. Fine Art Society, London.

– Pitonisa de Delfos. Cena mitológica que mostra o rei Egeu de Atenas consultando a primeira pitonisa, Têmis. A peça foi feita por um oleiro ateniense em torno de 440 a.C. Rev. Cientific American, Rio de Janeiro, n. 16, set. 2003.

– The Encounter Between Hernando Cortes and Montezuma II. Gallo Gallina, [s. d].

– A Força. Tarô de “Charles VI” ou Gringonneur. Norte da Itália. Final do século XIV.

– Oedipus and the Sphinx. François-Xavier Fabré (1766-1837). Oil on canvas, [s. d]. Dahesh Museum, New York City.

– Laio consulta o oráculo. Bernard van Orley (1491-1541). Peça de tapeçaria que conta o Mito de Édipo. [s. d].

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