O incrível ofício ou a magnífica arte de se interpretar símbolos

Por Ricardo Pereira

A escrita e a fala são alguns dos principais meios que temos de nos fazer expressar no mundo. Essas formas de comunicação trazem em seus bojos imagens, sinais e símbolos que refletem as várias significações das experiências ou momentos vividos pelo ser humano.

Conceitualmente, de forma ampla, pode-se dizer que um símbolo é um nome, uma palavra, um termo ou imagem que nos é familiar, possuindo conotações específicas ou genéricas, ou seja, é um elemento de comunicação que possui os mais diversos significados, os quais podem ser concretos, discerníveis, outros vagos, indiscerníveis e muitos ocultos ou não precisamente explicados.

Um dos objetivos da existência de símbolos, é o fato de a razão e a compreensão humanas possuirem certos limites, fazendo com que as pessoas busquem no âmbito simbólico representações conceituais que lhes são indefinidas.

Por outro lado, o significado de um símbolo está distante de ser óbvio, pois devido as suas naturezas bipolar, pluridimensional, indefinível e viva, possui alcances, aos mesmo tempo, individuais e universais, exprimindo vínculos entre o céu e a terra, o bem e o mal, o espaço e o tempo, o claro e o escuro, o dentro e o fora, o alto e o baixo, o igual e o contrário, o imanente e o transcendente.

De acordo com Jung (1977):

[…] os símbolos têm por finalidade fazer um intercâmbio entre dois mundos: inconsciente e consciente, sendo portanto, além de um elo de ligação entre esses dois sistemas, o elemento principal para a compreensão do modo de comunicação entre eles.

Dessa forma, é por meio dos símbolos que a mediação entre esses dois mundos é realizada.

Em seu “Dicionário de Símbolos”, Chevalier e Gueerbrant (2005), afirmam que “[…] um símbolo difere de um signo ou sinal, transcedendo-os”. Um signo ou um sinal na concepção desses autores não ultrapassa o limite do significado, enquanto o símbolo a esse transcende, caracterizando-se como algo dinâmico, repleto de movimento, de significações, dependendo de interpretação e de predisposição para a sua decodificação, afetando, por assim dizer, as estruturas mentais humanas.

Os símbolos contêm em si, também, uma espécie de viés espiritual. Para o desenvolvimento da consciência humana, o lado espiritual dos símbolos é fator decisivo, sendo produtos criativos do inconsciente e, também, manifestações dos aspectos espirituais existentes na alma do ser humano. Nesse contexto, Neumann (1991) enfatiza: “[…] em meditação ou contemplação, a consciência sempre se volta aos símbolos, dando origem a muitas espécies de ritos, de cultos.” Nesse sentido, o símbolo, decerto, guia a imaginação para o sagrado.

Do ponto de vista histórico, cada cultura, povos e sociedades, modernos ou antigos, são dominados pelos símbolos que as pessoas criam e projetam com fins de darem forma e sentido as suas próprias naturezas e existências. Desde o princípio da criação do homem e do seu meio, sob os mais diversos pontos de vista, há sempre um símbolo e um arquétipo a ele relacionado, contemplando-o, sempre, com múltiplos sentidos.

Dessa forma, estudar e interpretar a história construída por meio da vivência cotidiana do indivíduo humano é, também, ao mesmo tempo, o estudo e a interpretação dos símbolos e das figuras simbólicas que os dominam ou a eles estão associados. Compreender os símbolos é compreender também a nossa cultura, o que nela consideramos de valor ou o que não.

Interpretar símbolos é como aprender um novo idioma, é algo curioso que pode fazer emergir informações sobre vários tipos de situações. O mundo dos sonhos, por exemplo, é como um depósito repleto de mensagens desorganizadas, muitas vezes, que carece de organização e, que, ao mesmo tempo, necessita de uma interpretação que leve a um sentido prático, objetivo, com o fim de se descobrir o motivo onírico e a que parte da vida do indivíduo o sonho se refere, para a partir dessa descoberta se buscar algum tipo de intervenção que auxilie, possivelmente, na ajuda de uma problemática individual ou coletiva.

Observa-se, que nesse incrível ofício e magnífica arte de se interpretar símbolos é possível deparar-se com um aspecto interessante desse ofício, o qual Ricoeur (1978) chamou a atenção, que é a dicotomia “explicação-compreensão” inserida no processo de interpretação ou no estudo das expressões simbólicas, em que, na prática, os símbolos “mostram ocultando”, neles havendo uma semântica de “duplo sentido” (literal e secundário), devendo o indivíduo, por isso, em seu ato de interpretar e explicar os significados dos símbolos, “[…] lançar mão dos modos de compreensão disponíveis em uma determinada época tais como o mito, a elegoria, a metáfora e a analogia. A compreensão, por sua vez, necessita da mediação da interpretação.” (RICOEUR, 1978).

Dessa forma, a interpretação de símbolos é um processo semânticocriativo, de busca de sentidos. Não se configura em uma tradução propriamente dita, mas, sim em um processo realmente inacabável de exposição de sentidos, no qual os símbolos se mostram numa batalha em que são desafiados constantemente a se auto-superarem, a fim de exprimirem, explicarem e fazerem compreender, de fato, cada experiência humana vivida em níveis históricos, antropológicos e ontológicos ou, em outras palavras, para que, realmente, expliquem a relação existente entre o homem, o ser e as suas ações no mundo.

É nessa perspectiva que muitos oráculos funcionam, buscando os sentidos do ser na existência, tentando, em interação com o homem, em um trabalho de deciframento, respostas para alguns de seus conflitos.

Em seu ofício, o interpretador de símbolos possui, como instrumento indispensável à efetividade de seu trabalho, pelo menos um bom dicionário de símbolos. Dessa forma, a obtenção de vários deles, seria o ideal, pois permitirá o confronto de vários pontos de vista ou significações sobre um ou muitos símbolos, auxiliando-lhe no alcance do objetivo de tornar, à medida em que as suas associações e análises simbólicas ganhem sentido, o ato de interpretação autêntico, ou seja, fiel ao símbolo enquanto fonte inata, geradora e doadora de sentidos.

Ao interpretador de símbolos, nesse caso, cabe não só fazer uso de sua intuição, mas, também, explorar e fazer uso de seu sentido inato de analogia para juntar ou reajuntar elementos antes separados, fazendo as associações entre eles, tirando-lhes de uma certa obscuridade, dando-lhes lógicos sentidos e resultados.

Nesse contexto, interpretação e reflexão caminham sobre pontes paralelas que, em certo ponto, se encontram. Nelas, o homem fala, ouve, fala, ouve, pensa, reflete e toma decisões. Esse pensar e agir criticamente é consequente do seu ato, numa consulta oracular, de nutrir-se do sentido que vem dos símbolos.

Vale salientar, que a interpretação de símbolos jamais os subtitui, mas, fornece-lhes espécies de “decodificadores” que revelam, através de suas análises, o que se passa na consciência e na história de vida de cada um, ou de forma mais ampla, na história passada, presente e futura da humanidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHEVALIER, Jean; GUEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

JUNG, Carl Gustave. O homem e os seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

NEUMANN, Erich. História da origem da consciência. São Paulo: Cultrix, 1991.

RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações. Rio de Janeiro: Imago, 1978.

4 comments

  1. Arierom Salik says:

    Olá Ricardo!

    Sempre uma delícia seus escritos.
    E numa madrugada como essa, quando vi via Feed que havia um novo post, vim refrescar meus pensamentos.

    Parabéns pelas colocações que já são dignas de uma publicação merecida num livro, a meu ver.

    Abraço Reikiado
    22 de Abril de 2009 05:06

  2. Maria Elisa Fernandes says:

    Já estou começando a "fazer a lição de casa", conforme você recomendou antes de enviar a primeira aula. Super bem escrita a matéria, clara e de muito fácil compreensão.
    Obrigadaaaaaa….

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