O pecado da hybris

Por Ricardo Pereira
Em “Fausto”, obra prima da literatura universal escrita em 1808, Goethe, de forma sumária, retrata os traçados de sua própria trajetória humana, mundana, sedenta por conhecimento e experiências.

Nesse âmbito, o personagem mítico “doutor Fausto” não é apenas uma figura alegórica, originada tão somente na transição da Idade Média para Idade Moderna, que por meio de charlatanice, por sua sede por conhecimento e pactuação com o diabo, torna-se um senhor abastado. Esse personagem vai além disso, pois materializa o mito do homem moderno, em sua busca por um sentido à própria vida, pela fórmula que lhe torne presunçosamente absoluto.

Esta pretensão, levaria o douto Fausto, no intuito de ultrapassar, por meio da especulação, os seus limites, a devorar livros e livros de medicina, botânica, direito, filosofia, teosofia, história, teologia, mitologia antiga, alquimia, astrologia, escritos mágicos e místicos, em um período da História, no qual qualquer manifestação de descrença, em relação a certas “verdades absolutas”, caracterizava a falta de obediência e temerosidade a Deus e, por conseguinte, o pacto, por assim dizer, com o espírito maligno.

Desse modo, esse “Fausto” histórico, gerado durante a reforma protestante na Alemanha, Europa, dá origem as primeiras versões de “Fausto”, entre elas uma obra anônima e de cunho popular publicada em 1587 sob o título de “Historia von D. Johann Fausten”, a qual retrata as transformações oriundas da ação do espírito da ciência a desafiar, com constância, as crenças estabelecidas pela Igreja em um diabo meramente cristão.

Fausto se configura nessa época histórica, em um misto de médico, alquimista, charlatão e herege, que por ser considerado pela Igreja um pactário do demo, tornou-se uma figura popular respeitada e, ao mesmo tempo menosprezada, na Alemanha medieval pelo simples fato de se opor, com afinco, à hipótese de uma origem divina do conhecimento humano, espalhando aos quatro cantos alemães, a sua descrença nas verdades da fé não só da Igreja Católica, mas, também daqueles dogmas que edificavam uma emergente Igreja Luterana.

Sobre as diversas versões desse personagem lendário, Heise (2008) destaca o seguinte:

Consta que esse douto levou uma vida errante, passando por várias localidades da Alemanha, o que fez que se tornasse conhecido por toda parte. Estudou magia, medicina, astrologia, alquimia, atividades que lhe permitiram trabalhar com horóscopo e fazer profecias. Unindo a capacidade de curar com a de prever o futuro, ficou famoso e conseguiu amealhar uma boa fortuna. Todas essas aptidões, por sua vez, renderam-lhe a fama de ter vendido sua alma ao diabo.[…] Essa história, de autor anônimo e de cunho popular, narra, ao lado de relatos sobre o Fausto, que eram voz corrente, outras discussões de cunho teológico, astrológico, histórico, científico, provindas das mais diferentes fontes contemporâneas. Essa estrutura, sem unidade estética, acaba por refletir esse tempo de transformação, com a justaposição de crenças diabólicas medievais ao lado do novo espírito das ciências. No livro popular, com suas partes especulativas e enciclopédicas, o pacto entre Fausto e o diabo compreende um período de 24 anos. Nesse contexto, a sede insaciável do protagonista por saber é vista, antes de tudo, como um grande pecado, pois uma tal postura afastaria o homem de Deus e o aproximaria da dúvida. Esse homem incorreria no pecado da hybris, a presunção, por pretender equiparar-se a Deus.

Desse modo, configura-se assim o cenário ideal que serve de base aos escritos de Goethe, que faz surgir a atuar junto a Fausto, em sua sede de “saber tudo”, Mefistófeles, o “demônio moderno”, símbolo da “fonte de presunção”, que o motiva em troca de conhecimento e de prazer a subjugar-se ao pecado da hybris, em sua pretensão em se converter em centro de si mesmo e de seu mundo, tentando igualar-se, em uma tentativa desenfreada, a Deus.

Nesse contexto, a Obra de Goethe foi dividida em duas partes. A primeira aborda o pacto de Fausto com Mefistófeles (“O Diabo”), aprofundando-se em assuntos como o conhecimento e o prazer, destacando em torno destes dois temas questões significativas como o desejo de o homem nunca se satisfazer, apenas, com uma pontual circunstância, buscando, na construção de suas experiências, fomentar as bases de suas novas ações.

Na segunda parte desenrola-se a aposta entre Deus e Mefistófeles sobre o destino de Fausto, ou seja, de salvação ou de condenação. Aqui, vê-se o esforço do autor em reforçar o sentido do poder da ação como mola propulsora de transformação da realidade, mas, só que pela técnica e pela arte, tão somente, alegoria essa que coloca Fausto como um verdadeiro representante do homem moderno, para quem tudo será possível a partir, pelo menos, daquilo que ele deseja ou do que vale a sua alma aquilatada em troca de poder mundano, resultando, tão somente em dúvidas, inquietações, inconformismos e insatisfações, tão comuns naquele momento de ruptura histórica vivenciada e marcada pela libertação das tradicionais crenças religiosas e por sua substituição pelos ideais iluministas e pela ciência intelectualizada.

Importando esses aspectos para o Tarô, encontra-se a figura do arcano maior “O Diabo”, bem ao gosto das concepções cristãs, como uma espécie de demônio externo, a ludibriar o homem, apresentando-lhe cenários encobertos por diversos tipos de aparências enganosas, devendo as suas investidas ser ignoradas, assim como a sua obra ou ação combatida a “ferro e fogo”.

Assim como em “Fausto”, o “O Diabo” do Tarô também oferece, àqueles descontentes com a vanidade ontológica de uma busca pela plenitude, a deliciosa ilusão de “quem tudo quer, tudo pode”, condição essa perfeita às tentações diabólicas e para o cometimento do pecado da hybris, pelos individualistas, insolentes e presunçosos.

Do ponto de vista semântico o termo hybris é de origem grega e significa, segundo Brandão (1991):

[…] peso excessivo, força exagerada, significando o que ultrapassa a medida humana (o métron). É, portanto, o excesso, o descomedimento, a desmesura. Em termos de religião grega, a hybris representa uma violência, pois, ao ultrapassar o métron, o homem estaria cometendo a insolência, um ultraje, na pretensão de competir com a divindade. Daí o sentido metafórico de orgulho, arrebatamento, impetuosidade.

O sentido simbólico em Hybris se afina perfeitamente com os atributos do “O Diabo” do Tarô, o qual vaticina sobre aqueles que são momentaneamente alvo de suas vibrações a possibilidade de domínio sobre os desejos emergentes do ego, da individualidade, de saciedade de sua sede de ser e de conhecer, de acesso a um dado poder “ilusório” como veículo que permita uma sensação só conseguida quando sob a égide de um arcano menor como o “10 de Copas”, de harmonia, completude e plena satisfação.

Por outro lado, a possibilidade de tudo isso se realizar antepõe-se ao abismo no qual se colocam àqueles que não possuem a noção de seus próprios limites, que se encontram escravizados pelos seus intrínsecos “demônios interiores”, que lhes subjugam e lhes desafiam a transgredir valores e crenças comuns à sociedade da qual fazem parte, tornando o preço de suas presunções em obter privilégios “divinos” em seu próprio favor, às vezes, muito alto, resultando em conseqüências muitas vezes desfavoráveis, devendo, do ponto de vista do Tarô, esse custo lhes ser cobrado e os seus efeitos, certamente, fazerem-se realidade no próximo arcano maior, “A Torre”.

Nesse contexto, existe uma coesa semelhança entre o mito de “Fausto e o dos titãs da Antiguidade Clássica, os quais se rebelam contra a situação “inferior” que lhe é determinada pelos deuses, roubando-lhes os seus privilégios e poderes em favor dos homens.

Enquanto os titãs da mitologia grega simbolizam as forças intocadas da terra, assim como os desejos terrenos em revolta contra o espírito ou Zeus, “Fausto”, desse mesmo modo, representa o ser consciente que ousa desafiar uma ordem vigente ou o poder divino, mesmo tendo por isso que pagar tragicamente com a sua alma, a qual ele literalmente renega, para assim poder desfrutar do domínio absoluto de suas escolhas e de seu próprio destino.

O que faz dele um personagem trágico, conforme Innocêncio (2007):

[…] é também o que o redime perante os homens (e na visão de Goethe, também perante Deus), pois se impõe num mundo em que a idéia de um Deus onipotente e absoluto ainda predomina sobre a noção de individualidade, e simboliza o movimento pelo qual a humanidade toma posse de si mesmo.

Desse modo, esse “tomar posse de si mesmo” é no “Fausto” de Goethe originado em sua inquietude diante um conhecimento estéril, vazio e sem vínculo, em seu pensamento, com a realidade.

De fato, o resultado que ele deseja alcançar com o pacto demoníaco é o conhecimento pleno do mundo para, de posse de todo o saber, em sua forma mais ampla, poder transformá-lo, tornando-se o próprio Criador, atribuindo presunçosamente a si e ao conhecimento, e não ao Divino, todo o poder de transformação e, sobretudo, de criação que pode ser gerado a partir do acúmulo de saber, da experiência e da ação humanas. Goethe (2007) postulava que, “[…] a criação é processo permanente, não cíclico, mas ininterrupto.”

Vale salientar, que se bem canalizada e utilizada de forma positiva, sem impactos negativos a terceiros e ao meio ambiente circundante, por aquele que está sob a sua influência, a energia emanada pelo arcano maior “O Diabo” poderá propiciar ocasiões plenamente favoráveis às grandes realizações em prol de si e do outro. Nesse contexto, o grande desafio é a conquista da dosagem dos elementos que leve ao equilíbrio perfeito, onde o erro é, também, a matéria-prima que pode levar a compreensão do propósito e das conseqüências de cada ação e criação.

Desse modo, mesmo cometendo o pecado da hybris, esse personagem goethiano é, a posteriore, privilegiado com a redenção, mas, em contrapartida, é condenado à eterna insatisfação, ruína do homem moderno dinâmico, sempre em movimento, almejando, sempre, transformar a realidade ao seu redor, ansiando, por estar em eterna crise com esse mundo moderno, gerar seu próprio mundo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Junito. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1991.

GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia. Trad. J. K. Segall. 3.ed. São Paulo: Ed. 34, 2007. Partes 1 e 2.

HEISE, Eloá. Fausto: a busca pelo absoluto. Rev. Cult. São Paulo, n. 130, 2008.

INNOCÊNCIO, Francisco Robert Szezech. Um Fausto e seu Mefistófeles: o mito de Fausto na obra “Macário”, de Álvares de Azevedo. Dissertação de Mestrado. Curitiba: UFPR, 2007.