Entre dois polos de uma mente perturbada: a mania e a depressão em uma abordagem taromântica

Por Ricardo Pereira
Na História da humanidade há registros sobre inúmeras pesquisas sobre a suposta ligação entre a genialidade e a insanidade. No limiar do século XX, por exemplo, o psicólogo norteamericano, William James e, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, investigavam, a partir da vida e da obra de gênios da arte e da literatura, não só a raíz ou os fatores motivadores que faziam emergir certas idéias ou produtos geniais, mas, também, as suas relações com certos transtornos ou distúrbios da mente. Suspeitavam que existia um forte e dinâmico elo entre a genialidade e a loucura.

Nos âmbitos da arte e da literatura, figuras célebres como Vincent van Gogh, Paul Gauguin, Lord Byron, Liev Tolstói, Serguei Rachmaninov, Piotr Ilitch Tchaikóvski, Robert Schumann, Agatha Christie, Virginia Woolf sofriam de Transtorno Afetivo Bipolar do Humor. Conforme Kraft (2004):

[…] o célebre poder criativo de todos eles caminhava lado a lado com uma instabilidade psíquica claramente dotada de traços patológicos. Variações extremas de humor, manias, fixações, dependência de álcool ou drogas ainda hoje atormentam a vida de muitas mentes criativas.

De acordo com a Classificação Internacional de Doenças – CID-10, da Organização Mundial da Saúde, o Transtorno Afetivo Bipolar se constitui em uma espécie de:

Transtorno caracterizado por dois ou mais episódios nos quais o humor e o nível de atividade do sujeito estão profundamente perturbados, sendo que este distúrbio consiste em algumas ocasiões de uma elevação do humor e aumento da energia e da atividade (hipomania ou mania) e em outras, de um rebaixamento do humor e de redução da energia e da atividade (depressão).

A possibilidade de surgimento de novos subtipos de transtornos afetivos torna a classificação dessa afecção indefinida, fato esse que poderá facilitar diagnósticos mais precisos sobre tais distúrbios da mente.

Anteriormente, essa perturbação da mente era conhecida, erroneamente, como “psicose maníaco-depressiva”, tendo essa nomenclatura que ser modificada pelo simples fato de os seus portadores não apresentarem, necessarimente, sintomas psicóticos. Na verdade, tais sintomas, em sua maioria, nem aparecem nos pacientes com transtorno afetivo bipolar. Assim, o que era antes tratado como um desajuste da mente de ordem psicótica, passou a ser tratado adequadamente como um transtorno afetivo.

A principal característica dessa patologia é alternância do estado de humor, ou seja, o seu portador transita, durante a crise, entre dois polos, ou seja, apresenta episódios alternados de mania (euforia) e de depressão. Segundo Marot (2009) existem dois tipos de transtorno afetivo bipolar, são eles:

[…] o tipo I e o tipo II. O tipo I é a forma clássica em que o paciente apresenta os episódios de mania alternados com os depressivos. As fases maníacas não precisam necessariamente ser seguidas por fases depressivas, nem as depressivas por maníacas. Na prática observa-se muito mais uma tendência dos pacientes a fazerem várias crises de um tipo e poucas do outro, há pacientes bipolares que nunca fizeram fases depressivas e há deprimidos que só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram numerosas. O tipo II caracteriza-se por não apresentar episódios de mania, mas de hipomania com depressão.

Na fase maníaca dessa psicopatologia a mania ou euforia é um fator marcante, o indivíduo apresenta um estado de humor contagiante, é alegre, divertido, podendo se irritar e ficar agressivo. Apresenta autoestima elevada, mania de grandeza, podendo comprar tudo o que ver pela frente, pois acredita ser detentor dos mais variados tipos de poderes. A criatividade aumenta, assim como o vigor físico, fazendo a pessoa passar horas e horas acordada em plena produtividade, podendo, algumas vezes, não concluir o que começa devido as inúmeras idéias e projetos que surgem de sua mente. Passa a ter um interesse demasiado pelo sexo, podendo se comportar de forma promíscua e descuidada. Pode ainda se envolver em atividades perigosas, pois não se dar conta dos limites, perdendo a consciência de seu estado patológico. Essa fase quando não tratada pode durar meses e meses.

Na fase depressiva, o oposto passa a ocorrer. A estima do indivíduo fica baixa. Ele perde o interesse pelas coisas e pessoas, assim como do prazer pelas atividades que desempenhava anteriormente, passando a manifestar uma tristeza, uma melacolia em alto grau. Sente-se cansado, desmotivado. Tudo se torna mais lento, há perda siginificativa de concentração e de assimilação de informações, as idéias não fluem, a criatividade adormece, a frustração e o desespero passam a dominá-lo, sentimentos negativos passam a rondá-lo, inclusive o desejo de morte. Essa fase quando não tratada pode durar, também, um tempo bastante longo.

Marot (2009) destaca um exemplo de como se sente um indivíduo acometido de transtorno afetivo bipolar:

Ele se sente bem, realmente bem …, na verdade quase invencível. Ele se sente como não tendo limites para suas capacidades e energia. Poderia até passar dias sem dormir. Ele está cheio de idéias, planos, conquistas e se sentiria muito frustrado se a incapacidade dos outros não o deixasse ir além. Ele mal consegue acabar de expressar uma idéia e já está falando de outra numa lista interminável de novos assuntos. Em alguns momentos ele se aborrece para valer, não se intimida com qualquer forma de cerceamento ou ameaça, não reconhece qualquer forma de autoridade ou posição superior a sua. Com a mesma rapidez com que se zanga, esquece o ocorrido negativo como se nunca tivesse acontecido nada. As coisas que antes não o interessava mais lhe causam agora prazer; mesmo as pessoas com quem não tinha bom relacionamento são para ele amistosas e bondosas.

Vale salientar, que a causa primordial dessa doença é desconhecida, mas, inúmeras pesquisas destacam a incidência desse distúrbio em antepassados de grande parte dos pacientes ou em parentes seus ainda vivos, sugerindo, por assim dizer, uma herança genética. Alguns fatores como mudanças bruscas de condições afetivas, econômico-sociais, perda de emprego etc podem desencadear uma crise da doença, a qual, com um tratamento psiquiátrico e interdisciplinar adequados, poderá ser controlada, propriciando, aos pacientes acometidos dessa psicopatologia, uma vida normal .

Toda essa abordagem, aqui, sobre essa afecção da mente, emergiu devido a necessecidade de se contextualizar uma consulta ao Tarô, que efetivei recentemente, cujo objeto de indagação ao oráculo constitui alguns aspectos que envolvem o “transtorno afetivo bipolar”.

O caso se configura, sinteticamente no seguinte: a minha cliente possui um irmão, de 56 anos, casado pela quarta vez, com seis filhos desses casamentos. Ele é o filho mais velho de uma família estruturada de pai, mãe e mais três filhos, duas irmãs e um irmão. Ele é um radialista competente, ganhador de vários prêmios na área e assessor político, que há anos vem apresentando, em determinados ciclos de sua vida, os sintomas do transtorno afetivo bipolar, do tipo I.

A sua primeira crise se materializou por volta dos anos 1970, quando ele estava com uns 22 ou 25 anos, período no qual se casou pela primeira vez. Como ainda hoje é comum, as duas famílias, à época trataram de não admitir o problema, não lhe dando muita importância, “isso é apenas uma fase”, dizia a mãe, tratanto de não medicá-lo e de esconder para os de seu convívio essa “coisa vergonhosa” ou a existência de um “louco” na família, fazendo de tudo para que essa informação não se espalhasse pela cidade, embora tivesse existido e existissem pessoas, nas duas famílias, apresentando os mesmos sintomas dessa psicopatologia.

Com o tempo, as crises vieram se manifestando e sempre com mais agravantes, com impactos extremamente negativos, tanto econômico-financeiros, quanto de relações sociais, a um ponto de as duas famílias romperem e a esposa pedir o desquite.

Há oito meses que a crise nele se instalou, após ter participado de um projeto de cunho político que fracassou, tornando, com o passar do tempo, difícil a sua convivência social e, em especial, com a sua família. Nesse período, do desencadear e evolução da crise, ele já pulou da janela do segundo andar do sobrado, no qual reside e ateou fogo nos cabelos, sendo essas atitudes, atos desesperados, de uma mente perturbada, que objetiva algum tipo de encontro com a morte. Hoje, a família cogita a sua internação em clínica de repouso psiquíatrica.

Nesse contexto, essa minha cliente se dispôs a investigar, através do Tarô, as causas que precipitaram essa nova crise em seu irmão, assim como a evolução atual desse seu distúrbio psiquíco e as perspectivas de seu retorno à vida normal.

O método de tiragem de Tarô que utilizei para o atendimento desse caso é de minha autoria, o qual denominei de “Intus Legere”, termos de origem latina que podem significar, de uma forma ampla, algo como “ler dentro, ler interiormente ou ler a fundo”, ou seja, fazer uma leitura profunda de um dado fenômeno ou contexto.

Não irei me deter na explicação detalhada do método utilizado. Destacarei, no entanto, as casas nele contidas, conjuntamente com a interpretação simbólica dos arcanos que nelas surgiram como resposta para a seguinte indagação de minha cliente: “Essa crise de transtorno afetivo bipolar, manifesta em meu irmão RODOLFO será superada até o fim do mês de julho de 2009?”

O Tarô respondeu como segue:

Na casa 1, da “causa” do problema surgiram os arcanos “O Eremita”, destacando que, realmente, esse distúrbio da mente que assola o rapaz possui origem genética, ou seja, em seus antepassados. Por outro lado, mostra que o último projeto de trabalho, o qual esteve envolvido não vingou no tempo esperado, causando-lhe, possivelmente, um desgosto ao ponto de desencadear a crise, presságio esse que é reforçado pelo arcano menor “7 de Ouros” que o acompanhou nessa casa 1, enfatizando que um insucesso ou expectativa não atendida minou a sua trajetória profissional, o seu seguir adiante, aspecto esse confirmado pelo surgimento, também, nessa casa, do arcano maior “O Pendurado”, a demonstrar que a emergente estagnação ou inércia de seu plano material/profissional, impactou negativamente em seu plano mental, ou seja, conturbou-lhe o estado de humor, precipitando mais uma crise de transtorno afetivo bipolar.

Na casa 2, das “características” da doença, surge o maior “A Imperatriz”, salientando a fase maníaca do transtorno afetivo bipolar, que se caracteriza pelos acessos de euforia, elevada autoestima, amplo exercício da criatividade, efetiva produtividade e mania de poder, atributos esses que são reforçados pelo seu interrelacionamento, e ligação no método de tiragem, com o “bipolar” arcano menor “Ás de Espadas, a destacar a instabilidade psíquica e a atução extrema da mente de RODOLFO, a qual passou a oscilar entre pensamentos e ideais grandiosos, megalomaníacos, fazendo uma espécie de elo com aqueles sentimentos confusos, emoções descomedidas, acompanhados de comportamentos agressivos, perturbadores e , por demais, perigosos, características essas da doença, que se confirmam com o aparecimento do arcano maior “A Morte”, a evidenciar a fase depressiva e igualmente problemática e perigosa dessa psicopatologia, que pode levar a um indivíduo com uma mente prejudicialmente calculista e perturbada a cometer o suicídio, atitude esta que surge com frequencia como indicador de causa mortis de pacientes com transtornos afetivos.

Na casa 3, do “estágio” em que se encontra a doença, emerge o maior “A Roda da Fortuna”, a denotar que RODOLFO passa por um ciclo de “altos e baixos” do ponto de vista de sua saúde mental. A instabilidade emocional é uma constante, tornando-o uma pessoa hiperativa, agressiva e potencialmente perigosa. Mudanças de humor repentinos tem afetado os seus hábitos e comportamentos. Ele, de vez em quando, é pego andando desnudo pelos compartimentos da casa aonde mora. Quando em euforia, passa as madrugadas acordado, perambulando pelos cômodos de sua residência. Quando transita pelo polo depressivo da doença, vive momentos insones, de tristeza profunda, de sentimentos de ruína, fracasso, derrota, fantasias perversas, alucinações e de puro desespero, aspecto esse destacado, pelo arcano menor “9 de Espadas”, que aparece a fim de fortalecer o sentido desse arcano maior que o precede nessa casa. Embora venha sendo medicado diariamente, parece que as doses “cavalares” dos remédios controlados não vêm ocasionando efeito, causando-lhe um desgaste significativo e, também, em sua família, que em vão vem travando uma luta para mantê-lo no controle de suas emoções, atitudes e comportamentos, aspectos esses destacados pelo arcano maior “A Força”, que aponta que o desafio, hoje, de RODOLFO é o de encontrar a força e, também, a resistência que precisa no sentido de retomar o seu autocontrole e o controle amplo e total de sua própria vida.

Na casa 4, da “intervenção” mais adequada à solução de um problema, constaram o arcano maior “A Estrela”, a apontar que o melhor caminho a ser trilhado nesse momento é aquele mais próximo da realidade dos fatos possível, ou seja, a esperança de um controle efetivo de tal problemática, encontra-se na evidente necessidade de a família conscientizar-se da gravidade do problema, buscando para ele intervenções práticas e efetivas, especialmente aquelas que permitam trazer RODOLFO de volta ao seu eixo psíquico, mesmo que tal intervenção, como a que é anunciada pelo arcano menor da corte “Rainha de Espadas”, que acompanha esse maior, cogite uma tomada de decisão racionalmente radical, isto é, a internação do rapaz em uma clínica de repouso psiquiátrica, na qual ele poderá receber todo o tratamento adequado, conforme denotado pelo arcano maior “O Papa”, que surge nessa tiragem fortalecendo o elo e o sentido do conjunto simbólico dos demais arcanos nessa casa. Como se pode perceber, a INTERNAÇÃO, constitui-se na saída ou intervenção mais apropriada para esse caso atualmente.

Na casa 5, do “prognóstico” ou do desenrolar desse caso no futuro próximo surgiu o resplandecente arcano maior “O Sol” para confirmar que, até a data ansiada pela consulente, RODOLFO retornará ao seu juízo ou equilíbrio mental, podendo atingir uma maior ou significativa conscientização de que, realmente, necessita de tratamento e acompanhamento psiquiátrico contínuo. O fim da crise e o controle sobre a doença é anunciada também pelo arcano menor “10 de Ouros”, que denota o fim desse ciclo, com o retorno do irmão da consulente ao seu pleno estado de equilíbrio emocional/mental, assim, como a reconquista de sua sociabilidade, retomando a sua vida normal, harmoniosa ao lado de sua família, com a doença voltando ao seu estado passivo, sob pleno controle como é destacado, aqui nessa casa 5 pelo arcano maior “A Sacerdotisa”, que também pressagia que esse momento surge para RODOLFO como uma oportunidade para que ele preste bem atenção em cada mensagem do seu “eu interior”, sintonizando-se necessariamente com o seu “eu mais profundo” a fim de uma tomada de consciência para as suas limitações de ordem psiquícas, ou seja, que o preço do seu equilíbrio está associado ao enfrentamento dessa sua dura realidade, alertando-se, por conseguinte, para o fato de que essa doença precisa ser vigiada e mantida sob controle fármaco-químico permamente, até o fim de seus dias, caso ele deseje ter uma vida normal como a de qualquer cidadão comum.

É importante frisar que uma consulta ao Tarô, em casos de problemas de saúde, não substitui a intervenção médica e o uso de medicamentos pelos médicos prescritos. Desse modo, procure o especialista médico sempre que você ou alguém de sua família apresentar qualquer tipo de desequilíbrio, seja ele físico-orgânico ou mental-emocional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KRAFT, Ulrich. Sobre gênios e loucos. Rev. Mente & Cérebro, n. 143, dez. 2004.

MAROT, Rodrigo. Bipolar. Disponível em: http://www.psicosite.com.br/tra/hum/bipolar.htm. Acesso em: 09 maio 2009.

2 comments

  1. Senhor da Vida says:

    Adorei ver como nosso taro bem avaliado pode nos fornecer tudo, a nivel de orientação de procedimentos fisicos como psquicos , para complementar reajustes de ordem mental.
    Junto com as outras profissoes ele se sobressae quase que poeticamente. Belo texto..

  2. Raquel says:

    Excelente sua abordagem! Excelente seu texto! Muito esclarecedor! É importante mostrar o quanto o Tarot tem a nos ajudar, em termos de orientação e afins. Claro, como você bem disse, em caso de saúde não substitui uma consulta médica. Mas ainda assim, é inegável o valor do oráculo!
    Abraços.

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