Tarô Clássico

Por Ricardo Pereira

Embora sem data ou local certos de sua origem, os primeiros modelos do Tarô, como sugerem significativa parte da literatura universal sobre o tema, assim como os tarólogos quase em geral, possuem as suas bases estética e iconográfica nos antigos naibis, que segundo Hargrave (1966), eram as antigas “cartas de jogar” que foram introduzidas no sul da Itália, e, também, da Espanha, no século XIV, por soldados sarracenos, árabes nômades, de origem pré-islâmica, com a simples finalidade de diversão, não sendo definido, até hoje, o lugar, o qual eles obtiveram o acesso a tais cartas pela primeira vez.

Por essa mesma época, o termo latino ludus cartarum, citado pelo monge alemão Johannes por volta de 1377, também servia para designar “cartas de diversão” e, ainda por essa época, a autoria da invenção do baralho passa a ser disputada por espanhóis, italianos, franceses e alemães.

Quanto ao termo naibi, este, em árabe, possui conotação de “governante”; em hebreu, significa “feitiçaria, bruxaria, predição, leitura de sorte” e em italiano, o mesmo sentido que no idioma hebreu.

Existe ainda, em árabe, o termo nabi, que significa, “profeta” e esse termo (e não naibi), conforme Tomas (2004), provavelmente originou a palavra “naipe”, em português e em espanhol. Esse autor infere, ainda, que esse termo, possivelmente, reporta-se ao caráter profético instituído às cartas de jogar em um período histórico, o qual não se faz idéia.

Kaplan (2003) assinala, que o antigo jogo de tabuleiro indiano denominado de chaturange, ou chaturanga, possui semelhanças significativas com os quatro naipes das cartas de jogar comum.

O chaturanga data do século VI d. C e pode ter originado o atual jogo de xadrez. Os componentes desse jogo constituem-se de dois grupos de peças, um preto e outro branco, são eles: Ratha (Torre), Ashva (Cavalo), Gaja (Elefante), Mantri (Conselheiro), Ràja (Rei) e Padàti/Bhata (Peões).

Gandra (2003) afirma que anteriormente aos sarracenos, os hindus, por meio do dashavatara, “[…] dez séries, compostas de doze cartas cada, correspon­dentes às dez encarnações ou Avataras de Vishnu e ilustradas com os seus símbolos […]”, forneceram as bases plásticas não só do baralho ocidental mas, também, do baralho chinês, que por sua vez resulta dos seus xadrez e dominó. O baralho islâmico pode também ser uma resultante dessas antigas cartas de jogar indianas.

Há inúmeras versões sobre a origem das cartas de jogar ou do baralho. Alguns autores modernos baseados em diversas pesquisas ou escritos sobre o tema, dizem que ele, o baralho, pode ter surgido a partir, inclusive, do Livro egípcio, de Thoth, salvo das ruínas dos templos do Antigo Egito; ou originou-se das flechas divinatórias ouriundas da coréia, as quais segundo Kaplan (2003) podem ter servido de base para a confecção das cartas de jogar coreanas.

Um outra versão sobre a origem do baralho enfatiza que as primeiras cartas foram aquelas inventadas, em 1392, pelo miniaturista e pintor francês Jacquemin Gringonneur, sob encomenda do rei Carlos VI, o louco (1368-1422), de França, que vislumbrava formas de se divertir com as cartas.

Gringonneur, esforçou-se em construir as cartas, talvez, retratando a sociedade francesa da época, nas quais o naipe de copas representaria o clero, o de ouros os comerciantes, o de espadas as forças militares e o de paus, os camponeses. De todo o baralho, que, supostamente, tenha sido criado por esse miniaturista, restaram apenas 17 cartas, as quais fazem parte do acervo iconográfico da Biblioteca Nacional de Paris. Infere, Kaplan (2003), que é provável que esse baralho possua origem em Veneza, Itália, sendo datado do século XV e não do século XIV, como se supôs.

Sobre a origem das cartas de jogar, Gandra (2003) destaca:

As cartas entraram na Europa pela Península Ibérica, nos séculos VII-VIII, por intermédio dos muçulmanos, que dispunham de um baralho não figurativo, constituído por dois naipes: espadas e cálices. Não obstante as inúmeras e, por vezes, contraditórias, teses a res­peito do foco de irradiação das cartas de jogar no Ocidente, a primeira referência expressa a elas (kartenspiel), remonta a 1367, ocorrendo num do­cumento proibindo a sua utilização no cantão de Berna (actual Suiça). Em 1387, Afonso IX de Castela determinava que os cavaleiros da Orden de la Banda não jogassem cartas, enquanto, em França, Jacquemin Gringonneur pintava para Carlos VI, em 1392, três jogos de cartas em ouro e diversas cores e vários símbolos, assistindo-se, ainda, à regulamen­tação do jogo de naipes, no ano de 1398. No século XV os baralhos estariam de tal modo disseminados que São Bernardino de Siena, em 1423, pregava na Igreja de São Petrónio, em Bolonha (Itália), contra o seu uso como jogo de fortuna e azar, enquanto Eduardo IV de Inglaterra havia de interditar, em 1464, a sua importação.

Muitos historiadores do Tarô, atribuem ao “baralho de Carlos VI” ou ao “Tarô Gringonneur”, a base original dos 22 arcanos (termo este que surge por volta de 1850) maiores do Tarô, ou atouts, em francês ou triunfi, em italiano, devido a similaridade que é expressa na maioria dos seus símbolos, aos Tarôs confeccionados a partir de mais ou menos 1600, da Renascença européia, período esse aonde está, também, inserida a categoria dos tarôs ditos clássicos (1400 e 1900), os quais possuem um padrão simbólico e ilustrativo bem próximo, por exemplo, dos Tarôs Visconti-Sforza (Milão, Itália – 1435/1440?) e o de Marselha (França – 1650?), o primeiro do século XV, de autoria do pintor e miniaturista italiano, Bonifacio Bembo, e o segundo de início de meados do século XVII, cuja autoria é dedicada ao maître-cartier, francês, Jean Noblet.

Outra teoria destaca que o Tarô, tal e qual se configura hoje, tem origem nas cinquentas cartas do Tarô de Mantegna ou Carte di Baldini, surgido por volta de 1465 e dividido, conforme Waite (2004), em cinco séries de dez cartas, estando cada uma delas dedicada a um tema: A – Sistemas celestiais; B – Princípios cósmicos; C- Artes liberais; D – Apolo e as musas; E ou S – Ocupações dos homens.

Nesse Tarô de Mantegna, embora com uma estrutura diferenciada, pode-se observar em algumas de suas séries alguns temas comuns ou relacionados ao Tarô Clássico, por exemplo:

Na série A:

– A-41 Luna – “A Lua”
– A-43 Venus – “A Estrela”
– A-44 Sol – “O Sol”
– A-45 Marte – “O Carro”
– A-46 Jupiter – “O Mundo”
– A-47 Saturno – “O Eremita”
– A-50 Prima Causa – “O Mundo”

Na série B:

– B-34 Temperancia – “A Temperança”
– B-36 Forteza – “A Força”
– B-37 Justicia – “A Justiça”

Na série E ou S:
– E-1 Misero (Mendigo) – “O Louco”
– E-2 Fameio (Servidor) – “Pajem”
– E-6 Chavalier – “Cavaleiro”
– E-8 Re – “Rei”
– E-9 Imperator – “O Imperador”
– E-10 Papa – “O Papa”.

Vale salientar, que não existe em nenhuma civilização nenhum jogo de cartas ou outro jogo qualquer que, em essência ou em sua matriz, retrate todos os 22 arcanos maiores clássicos ou tradicionais. Desse mesmo modo, não se sabe, na linha do tempo, se essas lâminas maiores surgiram primeiro ou depois que as cartas dos arcanos menores.

Inúmeras são as especulações e versões a respeito da origem dos 78 arcanos do Tarô, as quais perpassam desde às idéias do teólogo Court de Gebelin (1725, Nimes, França – 1725, Paris), o qual afirmou que eles surgiram no Egito antigo, até a inferência de uma possível origem cigana, além, claro, de uma suposição de que as suas bases se sustentam na Cabala, nas 22 letras hebraícas e em sua Árvore da Vida ou, ainda, num outra versão, a qual sugere que a gênese estaria no baralho mamlûk ou mameluco, – datado dos séculos XII e XIV, de origem turco-egípicia ou dos turcos criados nas artes da guerras -, que possui algumas cartas bem semelhantes a de alguns arcanos menores do Tarô de Marselha.

Por outro lado, a própria origem da palavra “Tarô”, tem gerado muitas controvérsias e alimentado suposições diversas e antagonismos, tanto em escolas de pensamento, quanto em sociedades iniciáticas, no decorrer dos séculos, sobre a fonte primeira desse antigo oráculo.

Nesse contexto, a única certeza que se tem é que a História da origem do Tarô continua em brumas, suscitando ainda muitas idéias, alimentando pesquisas profundas e diversas abordagens.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GANDRA, Manuel J. Cartas de jogar e tarô. Bol. Cultural da Câmara Municipal de Mafra. Mafra, Portugal, 2003, pp. 121-190.

HARGRAVE, Catherine Perry. A history of play cards. New York: [s. n.], 1966.

KAPLAN, Stuart R. O tarô clássico. São Paulo: Pensamento, 2003.

TOMAS, Adrew. A barreira do tempo. São Paulo: Hemus, 2004.

WAITE, Edith. O tarô universal de Waite. São Paulo: Isis, 2004.

5 comments

  1. Arierom Salik says:

    Amigo:

    O melhor artigo que já li sobre a origem do Tarô, com citações, cronologia e agregada de informações novas para mim. ADOREI!
    Se me permite uma sugestão; algo do porte deste contexto (sei que és historiador e pesquisador), para a possível origem do uso Taromântico das cartas.

    Abraços Reikiados,

  2. Safira says:

    Artigo muito interessante! Embora as origens do tarô permaneçam envoltas em brumas, o artigo do é claro e objetivo e Muito bem escrito, como é de praxe do Ricardo ;)! Parabéns, Ric.

    Beijos.

  3. Ricardo Pereira says:

    Arieron, amigo!

    Agora, que dei-me conta de sua sugestão! Aliás bastante pertinente e bem desafiadora. Se levarmos em conta que São Bernardino de Siena, em 1423, fazia pregações contra o baralho de jogar por conta dele ser utilizado também para a análise da "fortuna" (sorte) das pessoas, podemos ter nesse período um dos registros, o qual destaca que a "cartomancia", de forma ampla, já era colocada em prática, embora esse termo só tenha surgido por volta de 1836.

    Por outro lado, vale salientar, que esse termo "taromancia" é bem recente e nem existe nos dicionários em português.

    Abraços,

    Ricardo

  4. Arierom says:

    Ricardo,
    lancei recentemente outro blog: tarosfera.wordpress.com que é uma espécie de agregador de blogs/sites sobre Tarô as avessas… 😀
    Ousei linkar/publicar este seu belo artigo.
    Caso você considere inadequado eu atirar 1º para depois perguntar, me informe por gentileza!

    Abraços.

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