Afinidades eletivas

Por Ricardo Pereira
A afinidade é algo mágico! Não importa o tempo, o espaço, a distância, às vezes, até as rusgas, quando há afinidade, basta o reencontro, uma conversa para que se elimine todo e qualquer afastamento, desavença e demais obstáculos em um relacionamento.

A afinidade é assim mesmo, um sentimento sutil, penetrante e possui amplos alcances. Até por quem nunca falamos, ou tivemos algum contato pessoal, sentimos algum tipo de afinidade.

O ex senador, jornalista e pensador, Artur da Távola, em um texto, no qual aborda as sutilezas desse tema, cujo título não poderia deixar de ser outro, “Afinidade”, coloca uns conceitos, nos quais resume esse sentimento:

[…] Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavra. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento. Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. […] Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar. […] A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa do tempo para existir. Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade! No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou. Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm. Por rescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.[…] (TÁVOLA, 1985).

Desse modo, ter afinidade é estar em sintonia com as visões de mundo, interesses e sentimentos do outro e a partir disso criar vínculos poderosos de relacionamentos, os quais resultam, para os seres afínicos, em ganhos.

A história do ocultismo, e porque não dizer do Tarô, registra um belo exemplo de relação de afinidade: o tríplice relacionamento entre Aleister Crowley, Lady Frieda Harris e Israel Regardie.

No arcano menor “9 de Ouros”, do Tarô de Thoth, ou de Crowley, Frieda Harris destacou com veemência não só as afinidades, mas, a relação de amor instituída e experienciada entre ela, Crowley e Regardie, embora se saiba que houveram tensões e, naturalmente, alguns conflitos intelectuais ou de várias outras ordens, entre os três.

Sobre esse “9 de Ouros” do Tarô de Crowley, o qual foi denominado de “Ganho”, Ziegler (1993) faz uma interessante abordagem sobre os significados simbólicos desse arcano menor:

O rosto de Crowley aparece em Saturno e Júpiter. Saturno, o planeta do carma, influenciou fortemente sua vida, levando-o a realizar seus planos integralmente, passo a passo. Regardie dava-lhe o apelido de “O Rei”, e você notará que, no símbolo de Júpiter, Crowley tem uma coroa na cabeça. A cabeça de Regardie aparece em Marte e em Mercúrio, alusões a sua ambição e capacidade de comunicação. Estes dois atributos se combinavam para fazer dele um talentoso administrador. Harris pintou o seu próprio rosto na Lua e em Vênus. Em Vênus ela expressa total devoção a arte, bem como seu profundo amor por Crowley. Este amor a conduziu às profundezas de seu próprio ser (Lua). Apesar da tensão inerente a este triângulo, os três realizaram o seu sonho comum, e para os três a relação foi um grande ganho.

Observa-se, que esse relacionamento de afins tão bem destacado, de modo simbólico, por Gerd Ziegler, leva o leitor a refletir sobre as vantagens intrínsecas aos relacionamentos sustentados pela afinidade, a qual, resumidamente, traduz-se na coincidência de valores, visões, percepções, idéias, mentalidades, sonhos, objetivos ou interesses comuns àqueles envolvidos em uma relação interpessoal, unindo-lhes, mesmo que eles se encontrem distantes, ou não mais presentes, nesse plano da matéria.
Em “Redenção e utopia”, Michael Löwy menciona a obra “As afinidades eletivas”, de Johaan Wolfgang Goethe, publicada em 1809, no sentido destacar um conceito mais amplo sobre o termo, “afinidade”, que é o de “afinidade eletiva”. Ele trata desse tema a partir de uma idéia judia de esperança, articulando-a aos pensamentos e movimentos políticos alemães do século XIX, tendo esse termo sido introduzido nesse contexto a partir de um caminho, o qual ele denomina de curioso, pois ele percebe que esse termo surge primeiramente no esoterismo, ou em especial, na alquimia, chegando à sociologia, passando pela literatura romanesca e encontrando sua maior expressividade e entendimento por meio do olhar desse romancista alemão. Nesse contexto Löwy (1989), enfatiza: “[…] afinidade eletiva para Goethe, existe quando dois seres ou elementos ‘buscam-se um ao outro, atraem-se, ligam-se um ao outro e a seguir ressurgem dessa união íntima numa forma renovada e imprevista.”

Vale salientar, que essa terminologia “afinidade eletiva” foi utilizada cientificamente pela primeira vez pelo químico sueco Torbern Olof Bergman (nascido em 1735, em Katrineberg, Suécia; falecido em 1784, em Medevi, Suécia), contemporâneo de Goethe e de quem foi tomado emprestado para intitular a sua obra literária. Bergman utilizou essa nomenclatura para destacar a possibilidade química de atração e ligação de determinados elementos devido à qualidades afins.

Nesse contexto, esse pensamento de Goethe, motiva o adetramento no arcano maior “A Temperança”, o qual foi denominado por Crowley de “Arte”.

O atributo da “afinidade” nesse maior resulta exatamente de sua simbologia de integração, da união alquímica perfeita entre o fogo e a água, da fusão ou afinação possível entre os opostos, a qual resulta no pleno processo de transformação dos seres. A afinidade, aqui, denota o ajuste e o equilíbrio das diversas forças, da harmonização de opostos com um interesse comum: o alcance de um novo estado de consciência por meio dos movimentos de atração, combinação e interação.

Desse mesmo modo, a afinidade entre o trabalhador, o trabalho e os seus companheiros de ofício também pode ser contemplada no Tarô através do acesso ao arcano menor “3 de Ouros”.

No Tarô de Edward Waite, o “3 de Ouros” é iconograficamente ilustrado por três figuras humanas sob a abóbada de um espaço, que tanto pode ser de um templo ou de um castelo medieval. Sobre um banco de madeira temos a imagem de um escultor medievo com os seus instrumentos de trabalho, portando na mão esquerda um chisel, cinzel ou talhadeira e na direita um mallet, marreta ou martelo. No chão, observa-se a figura de um religioso ou de um frade. A sua esquerda, vê-se uma espécie de perito ou fiscal, trazendo em suas mãos um papiro aberto, cujo anverso traz desenhos de um “projeto” supostamente arquitetônico, vestido com uma túnica larga, solta e com a cabeça coberta com um capuz de ponta comprida (liripipe), os quais, segundo Laver (1989,) compunham o traje e indumentária masculina comuns dos séculos XII até meados do século XIV na Europa medieval.

Tais imagens ressaltam uma situação harmoniosa de labor, aonde algo é oralmente comunicado, planejado, analisado, aferido e colocado em prática com a finalidade de se atingir um objetivo comum. As afinidades entre os trabalhadores e o trabalho refletidas nesse “3 de Ouros” de Waite são o resultado de uma combinação de interesses, os quais geram um sentido simbólico de formalidade, dever, pontualidade, organização, atividades ordenadas, empreendedorismo, disciplina, cooperação e competência, atributos, esses, bem complexos e, também, comuns nas relações capital e trabalho. Aleister Crowley denominou esse menor de “Trabalho”.

Outro bom exemplo da presença do sentimento de afinidade entre opostos no Tarô está destacado no arcano menor, “2 de Copas”. Tal afinidade, coaduna-se ao afeto em seu sentido mais amplo, englobando-se outros sentimentos como os de amor, paixão, amizade.
Edward Waite, nesse arcano menor, também, soube enfatizar bem esses elementos afetivos na apresentação iconográfica de seus símbolos. Na carta encontra-se um casal (homem e mulher), vestidos com trajes greco-romanos, segurando cada um deles uma copa, sendo observado que a figura masculina toca levemente a mão esquerda da figura feminina, simbolizando tal gesto a afinidade, o afeto e a união dos opostos. Entre as copas emerge o caduceu de Mercúrio, espécie de haste vertical com duas serpentes enroscadas, trazendo em sua parte superior a cabeça alada de um leão ou de um ser mitológico.

Segundo Chevalier & Gueerbrant (2005) o caduceu representa “[…] o equilíbrio pela integração de forças contrárias. […] ele evoca o equilíbrio dinâmico de forças opostas que se harmonizam”. Retrata, portanto, a transição, a mudança de um estado a outro, formas essas peculiarmente representadas nos símbolos de Mercúrio.

Nesse sentido, os atributos desse “2 de Copas” retratam a atração, a combinação, a associação e a união de contrários, elementos esses que compõem o sentimento de afinidade em seu significado mais amplo.

Observa-se, portanto, que esses e outros arcanos do Tarô são exatos ao expressarem que qualquer coisa flui, de modo perfeito, quando existem afinidades entre as pessoas envolvidas em certas experiências ou contextos.

Nas relações afetivas, sejam elas amorosas, fraternais, entre amigos, profissionais, quando as pessoas são afins não há espaço para formalidades, pois a afinidade mútua une os indivíduos ao ponto de dispensá-las.

Por outro lado, quando não existem afinidades, o esforço empreendido no alcance de um objetivo é muito maior. Muitos são os artifícios, as artimanhas e estratégias no sentido de se alcançar metas ou conseguir o que se deseja. Tudo se torna muito desgastante e cansativo, nesse contexto, para se manter o que se conquistou com o auxílio de tantos estrategemas. Será que vale à pena investir e insistir? Saiba, caro leitor, que nenhuma afinidade é unilateral, mas, sim, eletiva!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHEVALIER, Jean; GUEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

LAVER, James. A roupa e a moda: um história concisa. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

LÖWY, Michael. Redenção e utopia: o judaísmo libertário na Europa Central – um estudo de afinidade eletiva. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

TÁVOLA, Artur da. Alguém que já não fui: crônicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

ZIEGLER, Gerd. Tarô, o espelho da alma: manual para o tarô de Aleister Crowley. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.