A Bondade

Por Ricardo Pereira
Falar sobre a bondade requer uma espécie de adentramento no conceito do que é bom.

Em seu sentido amplo, o termo “bom” pode significar muitas coisas ou apresentar vários acepções. Dessa forma, enveredar-se-á, nesse artigo, para o seu sentido próximo daquilo que é considerado magnânimo aos nossos olhos e aos dos outros, aspecto esse que se retrata por meio dos atos de generosidade e de bondade humanos.

No Tarô, o arcano menor “6 de Ouros” expressa muito bem todos esses atributos. No Tarô de Waite, por exemplo, é observada a figura de uma espécie de mercador a segurar uma balança na mão esquerda e com a direita oferece, supostamente, moedas a dois mendigos, como se esse ocultista quisesse enfatizar, com essa simbologia presente nesse menor, que esse gesto de bondade e generosidade pode ser bem marcante em determinadas pessoas, podendo o Tarô denotar, em uma consulta, que tal possibilidade ou foi, ou é ou será vivenciada pelo consulente em dado contexto de sua existência, ou seja, que em dadas circunstâncias ele poderá obter, através de um gesto de bondade de alguém ou de um grupo, o auxílio que tanto vinha almejando.

Com esse mesmo sentido, no Tarô de Barbara Walker, pode-se observar a figura de uma bela jovem e rica cortesã, deitada em uma espécie de divã, do qual, em um ato de bondade ou generosidade, oferece a um humilde tocador de lira uma moeda como retribuição por tê-la oferecido um momento de deleite musical. Walker foi muito feliz em denominar esse menor de “caridade”, pois esse ato é também uma atributo desse arcano menor.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2008), o termo “bondade” significa “qualidade de quem tem alma nobre e generosa, é sensível aos males do próximo e naturalmente inclinado a fazer o bem.”

Possui também o sentido de benevolência, benignidade, magnanimidade ou, ainda, uma atitude amável ou cortês ou delicada de alguém para com o outro, permeando, por assim dizer, algum tipo de providência ou auxílio ou a oferta de algum tipo de favor.

Nesse contexto, tais significados coadunam com os principais atributos desse menor “6 de Ouros”, que, quando acompanhado, por exemplo, do arcano maior “O Sol”, reforça, em dadas situações analisadas, esse sua relação com aquilo ou aquele que é bom, com os atos de bondade e da benevolência providencial ou que é, foi, será oferecida e vivenciada por um indivíduo ou um grupo quaisquer.

Segundo Arendt (1999) a bondade é um ato essencialmente cristão, estando estritamente relacionado à caridade.

Por outro lado, para essa autora, não existe bondade se uma boa obra torna-se pública, pois acaba, sob este aspecto, por perder o seu caráter específico de bondade, “embora possa ainda ser útil como caridade organizada ou como ato de solidariedade.” Ela ainda assevera:

Não dês tuas esmolas perante os homens, para seres visto por eles. A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro da Igreja. Daí: Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.


É exatamente nesse sentido que a bondade difere da caridade e da solidariedade, na simples constatação de sua necessidade de ser apenas um ato imperceptível, que não requer reconhecimento ou honrarias.

De fato, a bondade não almeja gratidão ou algum tipo de recompensa. Cada ato de bondade requer de seu agente que ele se desligue de sua ação, por mais nobre que ela tenha sido.

Desse modo, para que um indivíduo não se frustre, entristeça com a ingratidão alheia, é necessário que elimine qualquer expectativa de reconhecimento por suas ações de bondade, requerendo, tal atitude, o seu efetivo empenho no sentido de ele compreender que, nesse contexto, só importa a prática do bem.

Nesse sentido, a mensagem que nos passa o arcano menor “6 de Ouros” é a de que a bondade verdadeira é aquela que é praticada sem qualquer tipo de interesse, unicamente pelo amor às pessoas ou pelo simples prazer de servir.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

2 comments

  1. Cigano Elson says:

    Oi Ricardo,
    Que belas palavras ilustram este seu post. Além de ensinar também nos apresenta a essencia da palavra bondade. Belo post amigo. Venha ser nosso parceiro em nossa Tenda.

    Abraços de Luz

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