(Des)controle da mente sobre as emoções e os sentimentos

Por Ricardo Pereira
A trajetória humana, do ponto de vista emocional, é muitas vezes marcada por situações inesperadas e desconfortantes, as quais podem tirar as pessoas de caminhos outrora traçados ou impedi-las de seguir em frente com os seus objetivos de vida.

Às vezes, o impacto de uma decepção ou desilusão é tão significativo, que pode limitar potencialidades, reprimir desejos, desmotivando, por assim dizer, a implementação de próximos passos.

Muitos entram no desespero, após terem vivenciado ocorrências dolorosas, as quais fazem-lhes perder o prumo e o sentido de suas próprias existências.

Essa inabilidade em lidar com os sentimentos permite que o ser humano fique a mercê das emoções, incapaz, nesse ínterim, de administrar e equilibrar a própria vida.

Goleman (1996) assevera que o ápice da inteligência emocional é o reconhecimento das emoções no momento em que elas vêm à tona, denominando esse fenômeno de autoconhecimento emocional.

Nesse contexto, a habilidade em lidar com certos sentimentos, ajustando-os à determinadas situações, destaca que um indivíduo possui controle emocional, ao ponto de recuperar-se, com certa facilidade, de situações ou desafios que causam algum tipo de desconforto ou angústia.

Por outro lado, pessoas inábeis no controle de emoções afundam-se na incerteza e no sofrimento gerado por algum tipo de insegurança.

Conforme Ouspensky (1995), todas as emoções possuem origem no instinto. De acordo com o que esse autor acredita, destruir as emoções negativas é um trabalho difícil. Sobre esse aspecto ele afirma:

[…] devemos compreender que, enquanto existirem as emoções negativas, nenhum desenvolvimento será possível, porque o desenvolvimento significa o desenvolvimento de tudo o que há no homem. As emoções negativas não podem se desenvolver; se pudessem seria desastroso. Assim, se estamos tentando criar consciência, devemos, ao mesmo tempo, lutar contra as emoções negativas, porque ou as mantemos ou nos desenvolvemos; não podemos ter as duas ao mesmo tempo.

O (des)controle da mente sobre as emoções e os sentimentos, em sentido amplo, é muito bem representado no Tarô também pelo arcano menor “8 de Espadas”.

Desse menor, por exemplo, emergem aqueles atributos construtivos, os quais são ou estão associados àquelas pessoas que, de forma positiva, são capazes não só de bem lidarem com as suas próprias emoções e sentimentos em ocasiões de revés, mas, também com os de terceiros, gerando empatia.

Por outro lado, a esse arcano é possível relacionar, também, conceitos dissonantes, os quais podem enfatizar que alguém, por determinados motivos, reprime, inibe e controla, de forma tirânica, os próprios sentimentos, revelando, pelo menos aparentemente, que essa pessoa possui, dependendo da perspectiva, um total (des)controle de suas emoções.

Tais atributos estão sustentados no “8 de Espadas”, por exemplo, do Tarô de Waite, em alguns de seus principais símbolos. Nessa lâmina é observada a imagem de uma pessoa de pé, em meio a oito espadas, amarrada por cordas frouxas, sobre uma espécie de lamaçal, significando uma certa situação desconfortante, de revés.

Iconograficamente é possível observar que nem as espadas, nem as cordas e nem a lama conseguem dominá-la ou reprimi-la totalmente, denotando que ela, apesar de tudo, pode livrar-se das amarras de suas próprias emoções e sentimentos, ajustando-os, de forma ampla, conscientemente as suas necessidades individuais e ou as dos outros.

Nesse contexto, a venda, a qual cobre os olhos dessa pessoa fincada nesse menor de Waite, é um outro símbolo pleno de significados, aqui também denotando um vísivel (des)controle de emoções e sentimentos ocasionado pela cegueira diante determinados fatos que a levaram, em dado contexto, a uma situação de desconforto, angústia e insegurança em relação a alguém ou a um grupo. Às vezes, essa realidade, ao indivíduo, causa-lhe tanta dor, que ele prefere, veementemente, não enxergá-la ou encará-la de frente, passando aos demais a impressão de que tem tudo sob controle.

Dessa forma, a pessoa, em meio a uma luta interna, inibe, reprime, camufla e contém sentimentos, aprisonando-se em um manacial de emoções, o qual constiui-se, pela necessidade emergente de defesa, em uma espécie isolada de porto seguro, o qual passa a ancorar certas atitudes mentais confusas, perniciosas, opressivas e tiranas, ou que são direcionadas a si ou ao(s) outro(s).

Observa-se, no entanto, que esse é um artifício utilizado por alguém, muitas vezes mentalmente desesperada, a fim de esconder de si mesma a natureza do desespero que o assombra, utilizando-se de ilusões e defesas que não só obstruem o autoconhecimento, mas, também, a autocompreesão de emoções e sentimentos.

Desse modo, controlar as emoções negativas e as fraquezas, aprendendo como transformá-las antes que se apossem do coração ou dos sentimentos mais nobres e valiosos, passa a ser, nesse “8 de Espadas”, o grande desafio.

Nesse âmbito destaca (Watts, 1983, p. 113), “[…] não se pode começar a controlar as emoções, sem que antes nos permitamos ser livres para usá-las, e a dificuldade de conservá-las dentro dos limites apenas aumenta com o mero controle repressivo.”

Destarte, a saída de uma experiência desfavorável para algo mais promissor e gratificante, nesse arcano menor, sempre é possível a partir do momento em que se passa a reconhecer, em si mesmo, determinadas emoções, bastando um único passo rumo ao solo firme, em busca do autoconhecimento mental-emocional, para que se retome, após a vivência de contextos atribulados, efetivamente, as rédeas da própria vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

OUSPENSKY. Piotr Demianovitch. O quarto caminho. São Paulo: Pensamento, 1995.

WATTS, Alan. O significado da felicidade: a busca da liberdade de espírito na moderna psicologia e na sabedoria oriental. Trad. Luiz Carlos Rocha. São Paulo: Pensamento, 1983.

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