A liberdade é um desafio no tempo

Por Ricardo Pereira
A liberdade é algo alcançável. Esforçando-se, o ser humano poderá conquistá-la. Se é preciso lutar por ela, é porque, a sua volta, pode haver inúmeros obstáculos, os quais a fazem se constituir em um desafio no tempo.

Vale inferir, que onde há escolha, há liberdade, sendo, a primeira um impecilho para a segunda, por constituir-se em um produto resultante da dúvida ou da indecisão.

Por outro lado, a solução de toda dúvida é um desafio que requer coragem, e tempo. Sem coragem não é possível vencer os desafios, do amor ou da dor, e nem tampouco se obter liberdade.

Vale salientar, que o tempo dispendido para a sua conquista pode ser diferente para cada um de nós, da mesma forma em que tanto a trajetória percorrida, no tempo, assim como as experiências vividas até o alcance de sua conquista são ou podem ser diferentes para os indivíduos.

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) observa a liberdade de uma maneira bem ampla, mas, como algo que pode ser dividido, segundo Paiva (1998) em quatro dimensões:

A primeira relaciona a liberdade com o fato de o ser humano “poder-ser”. Nesse universo, ele, o homem ou “O Louco”, é pleno de possibilidades, ou seja, poderá ser, em seu processo de autoconstrução, o que ele se dispuser e quiser ser. Só que essa liberdade de escolha, bem denotada, por exemplo, no Tarô pelo arcano maior “Os Enamorados”, revela-se com a certeza de que essa é uma espécie de liberdade para o fim, representando, desta forma, “A Morte”, a última possibilidade na sua existência. Essa combinação arcânica no Tarô significaria algo como “ser livre é poder-ser e morrer”.

A segunda dimensão seria a liberdade associada a algo como “deixar-ser”. Aqui, é necessário se confiar plenamente em tudo o que é real e acontece no tempo, buscando se conhecer cada coisa, relacionando-a ao sentido do que é este ser-no-mundo. É a realidade, portanto, como ela é. No Tarô, essa abordagem é bem representada pelos arcanos maiores “O Mago”, representando o início do primeiro contato com o que é real, com o primeiro esforço na busca do aprendizado e, desse mesmo modo, pelo “O Eremita”, denotando o tempo o qual se leva para o alcance do entendimento do que , de fato, constitui-se esse “ser-no-mundo”, ou seja, o seu autoconhecimento. Essa combinação arcânica no Tarô significaria algo como “ser livre é deixar-ser para se autoconhecer.”

A terceira dimensão está associada à liberdade com o sentido de o homem “fazer-valer-o-mundo”. Observa-se, aqui, o profundo teor espiritual nesse conceito de mundo, de Heidegger.

Esse fazer valer-o-mundo é o mesmo que “fazer-valer-algo”, ou seja, o ser humano em suas experiências mundanas busca fazer-valer-algo que lhe dê algum sentido na vida.

Esse conceito é complexo e bastante amplo e se traduz no Tarô no caminho ou trajetória do “O Louco”, o qual segue solitário, rumo ao horizonte de si mesmo, até percorrer todo o seu caminho, finalizando-o no arcano maior “O Mundo”.

Essa combinação arcânica no Tarô significaria algo como “ser livre é fazer-valer-o-mundo, é dar cada passo rumo a algo, o qual ao seu próprio ser faça sentido”, ou seja, em direção a um horizonte que lhe permita ver e entender que cada passo seu, no mundo, tenha valido à pena, fazendo-lhe evoluir na realidade do seu próprio universo individual, ou do seu próprio ser.

A quarta e última dimensão é a liberdade como “abandono”. Nesse ponto, faz-se necessária, nessa trajetória efetivada pelo ser humano ou “O Louco”, a compreensão da liberdade como uma importante e simples ação humana. O abandono seria algo como o alcance do ápice dessa atividade diante o mistério da existência em relação ao “ser-no-mundo”, ou seja, o homem descobre e compreende que é, está livre e sozinho no mundo.

Do ponto de vista simbólico, essa dimensão é expressa no Tarô na própria imagética simbólica da carta do “O Louco”, a qual reflete esse “ser-no-mundo” em pleno exercício do abandono, ou seja, representaria o homem que se dispôs de si, por suas escolhas, reflexões e princípios, para atuar no tempo e no espaço, aceitando ser solitário, mas, tendo a real soberania sobre o ser-livre que é, aceitando a solidão como o preço de sua própria liberdade. Dessa forma, essa simbólica no Tarô, parafraseando o pensamento de Heidegger, significaria algo como “ser livre é abandonar, é estar e se sentir só, esse é o preço da liberdade.”

Nesse contexto, observa-se que essa idéia de liberdade, nesse filófoso alemão, perpassa o entendimento de que o homem só pode ser considerado autêntico na sua aceitabilidade de que a solidão é o preço que paga por sua liberdade, assumindo, principalmente, a responsabilidade por suas escolhas, decisões e ações.

Por outro lado, inautêntico ele se torna, quando interpreta a solidão como o abandono do Divino em relação a ele, como se tivesse sido, por Ele, relegado, permitindo-lhe o equivocado entendimento, com isso, de que não é responsável por suas escolhas e atitudes. Agindo assim, ele não se permite o risco rumo a um propósito, e nem responsável por sua existência se sente, buscando o amparo e a segurança, que por ventura, necessite, naqueles que lhe rodeiam.

Ao anular-se em si mesmo, abre mão, no tempo e no espaço, de sua própria existência e liberdade, pondo-se, muitas vezes, sem ao menos se dar conta, em segundo plano ou estado servil, no filme de sua própria vida ou existência. Observa-se, nesse caso, do ponto de vista simbólico e dos atributos do Tarô, um lado sombra do arcano maior “O Louco”.

Por outro lado, somente nos momentos em que exercita a própria liberdade é que o ser humano torna-se plenamente ele mesmo, sendo, por assim dizer, um indivíduo autêntico, autônomo, autodeterminado e, acima de qualquer ato, responsável, no tempo e no espaço dos limites, por cada ação que efetive para si, ou para o outro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PAIVA, Márcio Antônio de. A liberdade como horizonte da verdade segundo M. Heidegger. Roma: PUG, 1998.

2 comments

  1. Arierom Salik says:

    Ricardo,
    a excelência de como desenvolveu este complexo tema (como outros) via a estrutura dos Arcanos, já é sua marca registrada e ímpar:
    "Por outro lado, somente nos momentos em que exercita a própria liberdade é que o ser humano torna-se plenamente ele mesmo"

    Praticar o que somos é o nosso melhor.

    Abraços do Ari.

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