Tarô, sedução e poder

Por Ricardo Pereira

A sensualidade é requisito básico à sedução. Não necessariamente, a beleza, mas, ser sensual, em dados momentos, sim.

Se alguém não se sente bem consigo mesmo, bloqueará, decerto, qualquer estado de graça, a sensualidade e o seu poder de sedução. Para essa pessoa, a sedução será sempre um desafio mais cheio de obstáculos do que para aquelas que se curtem, são alegres e amam a vida incondicionalmente.

Nesse contexto, o riso é um dos instrumentos mais efetivos à sedução. O riso torna o indivíduo jovem, dando-lhe um prazer não somente físico, mas, sobretudo, psiquíco. O riso relaxa, estimula, pode tornar alguém atraente, deixando-o sensual, magnético, poderoso.

Do ponto de vista histórico-psicossocial, a sedução e amor são dois aspectos que se complementam e qualificam o comportamento daquele(a) que seduz e do(a) que é seduzido(a). A história do amor universal, nesse âmbito, sempre traz o exemplo da figura do D. Juan para destacar que toda pessoa que seduz, possivelmente, possui um ou mais pretendentes que, por ela, ficam apaixonados ou que a amam.

De fato, quem ou o que seduz tem poder! Uma pessoa rica tem poder e seduz! A riqueza seduz, portanto, tem poder! Assim como o riso, o dinheiro exerce um poder de sedução indimensionável. O dinheiro e o seu poder de sedução intrigam desde os tempos de Cristo. Quem não lembra da passagem bíblica, não qual é mencionada que Judas Iscariotes vendeu Jesus por 30 denários? Ele (o dinheiro) é uma coisa que dá prazer e compra prazer.

De uma forma ampla, qualquer pessoa pode ser ou se sentir seduzida por qualquer tipo de pessoa ou de coisa. A sedução tanto pode ser por uma pessoa inteligente, rica e poderosa, quanto pelas coisas que a inteligência, a riqueza e o poder podem proporcionar.

Assim, a sedução, por sua característica abrangente, interpenetra e atua, realmente, em dois focos diferentes, ou nas pessoas ou nas coisas.

Nesse contexto, existe uma diferença significativa entre se sentir seduzido por uma pessoa ou pelas coisas que ela possui. Desse modo, ou alguém fica seduzida por uma pessoa ou pelas coisas, ou pelas duas juntas.

No Tarô, cada arcano seduz de formas bem abrangentes ou especificamente diferentes. Claro, há também similaridades ou aproximações entre os símbolos e os atributos arcânicos que traduzem, na taromancia, a sedução.

O arcano maior “O Louco” seduz por seu charme aventureiro, por sua abertura às novidades, ao inconvencional, à quebra de paradigmas, à infração de normas, por propiciar aquelas experiências inconsequentemente prazerosas.

Já o “O Diabo” seduz pela vontade humana de acesso ao poder, e ao que ele pode propiciar, em seu sentido mais amplo, abrangendo um poder demasiada e excessivamente para o bem ou para o mal, seja do homem ou da humanidade. A presunção, o interesse, a manipulação, a exploração e a dependência são os produtos gerados e replicados pelo sentido de poder emanado por esse arcano maior. Nesse caso, o indivíduo é quem escolhe se lançar, ou não, nesse desafio da sedutora presunção do “quem tudo quer, tudo pode”.

O “A Sacerdotisa” seduz pela discrição, pelo moderamento nos gestos, pelo artifício do segredo, pelo poder do mistério.

O atu “O Sol” seduz pela ostentação, pela radiância daquele que exala beleza e aquele brilho natural e especial, que a todos chama a atenção por ter luz própria.

A “Rainha de Espadas” seduz por suas qualidades de perspicácia, determinação, sagacidade e esperteza aliados a um comportamento e atitude frios, charmosamente, cruéis, impassíveis, às vezes. Com toda essa mistura de atributos, esse arcano menor emana o seu poder, seduz e acaba materializando os seus objetivos, alimentando os seus interesses.

Experiencia-se o ponto máximo da evolução da sedução quando, por meio dela, o indivíduo passa a atingir metas e obter resultados satisfatório em vários planos ou ordens da vida em sociedade. Nada é mais sedutor do que o poder de decidir e de influenciar as massas ou grupos de pessoas.

Pela simples simpatia das pessoas por uma outra, esta pode, por exemplo, assumir uma posição de comando, de liderança e de poder. Sobre essa possibilidade Gregório (2009) faz a seguinte observação:

[…] é possível assumir uma posição de comando não com perversidade ou outra artimanha, mas, sim em virtude da recompensa ou pela simpatia das pessoas. Sem dúvida, esta é uma situação muito mais confortável. Para alcançar o poder dessa forma, não há necessidade de grandes mérito nem de muita sorte, mas, de uma certa dose de astúcia equilibrada, um pouco de finura, de malícia, de uma pitada de sagacidade.

Evidentemente, que após a conquista de tal posição e do poder que ela proporciona, o desafio futuro ao conquistador é a sua manutenção, a qual depende, na maioria dos casos, da estima, da simpatia e camaradagem alheia, do estabelecimento de aliados e, ao mesmo tempo, da neutralização de invejosos, desafetos ou inimigos, tanto na esfera pessoal, quanto na institucional.

Em sua “Microfísca do Poder”, Michael Foucault, salienta que existem, pelo menos, duas grandes esferas em que se agrupam as diferentes manifestações de poder, com extensões e significados próprios.

Para Foucault (1992), a primeira se constitui pelas relações interpessoais e pelos grupos histórico-sociais que se formam a partir delas com focos ou interesses comuns, e de forma aberta, e a segunda se caracteriza por formas institucionalizadas que atuam, de certa forma, fechadas.

Nesses casos, o poder de um indivíduo sobre outro não prevalece, mas, sim o de um grupo sobre outro. Em cada uma dessas formas de poder, os seus integrantes queiram ou não, ficam presos em seus discursos, na sedução de suas práticas, as quais buscam perpetuar e defender, mesmo que se utilizando, necessariamente, de meios ou mecanismos diversos para a sua legitimação.

Tais relações de poder, as suas esferas e personagens, eficientemente preconizados por esse autor, possuem associações bem objetivas no Tarô, significativamente em seus arcanos maiores, aonde as formas institucionalizadas de poder, por exemplo, são bem representadas pelo arcabouço simbólico contido no arcano maior “O Papa”.

Desse mesmo modo, os diversos e poderosos grupos sociais, em suas mais diversas manifestações de poder contidas, sobretudo, na simbologia a qual expressa os seus status sociais de poder e dominação, são bem denotados, no Tarô, pelos arcanos de 1 a 9, aonde o maior “O Imperador”, por exemplo, representa o poder do Estado, com viés mundano, material e o “A Justiça”, os poderes da lei, com caráter mundano e os do karma, de natureza espiritual.

Por outro lado, os dominados, ou as esferas sociais desprivilegiadas, sem ou com pouco poder ou status, o povo, estão representados por alguns arcanos maiores que se intercalam na sequência do 10 ao 16. Iconograficamente é observado pelas vestimentas das figuras humanas nesses arcanos destacadas, que tanto a do maior “A Força”, quanto a do “O Pendurado”, lembram as dos grupos de artesãos, lenhadores, carvoeiros, marceneiros e camponeses da Idade Média européia.

No contexto das imagens, cada um desses arcanos destacam imagens arquétipas históricas, bem diversificadas e vísiveis nas relações sociais de poder, as quais se exprimem por suas manifestações e expressões retratadas na simbologia do Tarô. Dentre essas imagens arquétipas, podemos citar os 12 principais: 1 ) Destruidor; 2) Bobo; 3) Inocente; 4) Mágico; 5) Mártir; 6) Patriarca; 7) Regente; 8) Servo; 9) Sedutor; 10) Buscador; 11) Guerreiro; e 12) Sábio.

Incrivelmente, o Tarô trafega numa espécie de novela sedutora, a qual retrata exatamente essas duas esferas ou grupos sociais, em suas imagens arquétipas, papéis, valores, padrões, normas, anseios e comportamentos, basicamente com um foco em suas históricas relações de poder e nos conflitos que as permeiam, e é por isso que ele se faz sempre moderno, atual e sedutoramente atraente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GREGÓRIO, Fernando César. Aplicando Maquiavel no dia-a-dia. São Paulo: Madras, 2009.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Org. e trad. de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

3 comments

  1. LISON says:

    Saudações!
    Amigo ARIEROM,
    Um texto Fantástico!
    É uma verdadeira viagem pelas varantes e variáveis da sedução e poder…Gostei muito da simbologia das cartas, suas explanações…
    Para quem envereda por esse caminho, penso se fazer necessário uma pitada de audácia!
    Parabéns pelo magnífico Post!
    Abraços!
    LISON.

  2. Ricardo Pereira says:

    Caro amigo Lison,

    Sinto informá-lo que entrou no BLOG, digamos assim, errado!! rsrs

    Este não é o BLOG de nosso caro amigo ARIEROM!Mas, por outro lado GOSTEI muito em ser associado a esse grande tarólogo, que escreve textos criativos e profundos sobre o Tarô em seu "Blog de Tarô".

    De qualquer forma, Lison, obrigado pelos elogios a este meu artigo. Motiva-me a escrever sempre mais.

    Grande abraço em você e outro em ARIEROM.

    Ricardo Pereira
    Tarólogo/Substractum Tarot

  3. Senhor da Vida says:

    De fato o poder seduz a todos nós, mesmo que enxerguemos nele, o perigo na busca de obte-lo.
    Esse texto veio a calhar hoje em que puxei o arcano da Força, e postei um video traller do filme: Poder e Luxuria.
    Em poucas palavras, vemos o Papa usando o poder da Igreja para seduiz os menos prevalecidos, e assim, conquistar riquezas, terras.
    Bem haver com seu texto.
    Abraços e boa semana!

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