A dor há tanto sentida e uma outra inesperada

Por Ricardo Pereira
Há quem afirme que o amor é um sentimento tão poderoso que, para muitos, admitir que ele findou pode durar toda uma vida. É dura a perda do amor e esta, perdura. A esperança de um resgate provável, desse amor, é quem alimenta as expectativas, que, dela, nascem, vivem e doem.

A dor do amor findado geralmente está associada a uma expectativa frustrada, a uma ilusão há tempos acalentada, as quais se configuraram em um verdeiro fracasso. A este respeito, bem ao estilo de uma combinção arcânica entre o arcano maior “A Morte” mais um “3 de Espadas”, Távola (1996) faz a seguinte consideração:

O que dói no amor que termina não é o fato de ter acabado. Nesse sentido é até alívio. Dói o fracasso do que poderia ter sido; os cacos do que, mal ou bem, foi construído em comum; é a contemplação da morte através da verificação da existência de uma pessoa em nós e no outro que já não existe, que mudou, transformou-se ou cresceu, apodreceu ou piorou, mas já é outra.

Nesse contexto, a esperança nunca permite, ao indivíduo que ama, sucumbir a dor de um coração partido. Se a esperança vive, então, enquanto há vida, ela existe, persiste e nunca desiste. Se divorciar dessa dor para que, se ela, com a permissão do indivíduo, quer se fazer crônica? Que seja feita, então, a vontade dela e a dele, pois sem ela, falta-lhe o combustível que o energiza, a couraça que o protege e dá sentido a sua vida! Só ele conhece e compreende, melhor do que ninguém, a sua dor de amor e ela, também, a ele.

A dor da separação, por razões inesperadas, incertas, imprecisas ou inexatas, daquela pessoa que se respeita, admira, quase ao ponto de venerá-la de tanto amor e ternura que se sente por ela, é uma das piores dores, por alguns, experienciadas. Um turbilhão de sentimentos, das mais diversas ordens, nesse caso, misturam-se com tamanha força, conflitando-se a “certeza” de que nada ocorreu, que viesse, a decretar, por assim dizer, a sua a “morte”.

Desse modo, quase sempre, durante a interrupção de um relacionamento afetivo, nunca se sabe, objetivamente, pelo menos pelo lado de umas das partes, as razões ou se tem a certeza do que culminara tal estado ou vivência. Pelo menos um dos envolvidos no corte afetivo, reflete que nenhum motivo é o bastante para tal ocorrência, não compreendendo, mesmo com o passar do tempo, que essa ou aquela razão tivesse sido a “gota d’água” para que tudo se tornasse indiferença e viesse a se acabar, deixando, em frangalhos um pobre coração, que tanto amou o outro e que, obviamente, por ele ainda sente ternura.

Nesses casos, os da dor de um coração partido, o tempo é um torturante aliado, pois sempre existem tempo e muitas circunstâncias para se sentir a dor de amor, não importando se em dez anos, ou menos, ou mais não se vê o rosto, beija-se os lábios ou olha-se nos olhos do ser tão amado.

Assim, em meio a uma saga de reminiscências, encontra-se tempo para ler as cartas, os e-mails, ouvir as músicas prediletas, sentir os cheiros dos perfumes, assistir aos filmes, ver as fotos e para se fazer tantas outras coisas marcantes, as quais propiciam lembrar, sentir saudade do outro.

Ora, uma boa dor de amor sem aquela saudade dolorida, chorosa e inconformada, não é uma verdadeira dor de amor! E, esta sempre vem acompanhada, claro, de esperança e de fé, da crença que tudo ainda poderá ser como outrora, sobrando, ainda, espaço e tempo (mesmo, estando-se separados há mais de dez, vinte, trinta, quarenta anos) para que, a relação seja retomada, vivida de forma bem melhor…

Esse é ou era, o sonho, acalentado de Maria de Fátima, que, há mais ou menos trinta anos atrás, conheceu Venceslau, com quem vivenciou um romântico caso de amor, que por, algum tempo, como ela mesma diz: “prometia muito”, mas, que de uma hora para outra, sem um motivo convincente, pelo menos para ela, desandou e findou-se.

Durante todos esses anos, Fátima nunca conseguiu tirar o guapo Venceslau, grande e único amor, de sua mente, de suas lembranças e de sua vida, mesmo, tendo vivido casada, há vinte e seis anos, com Agenor, que falecera no ano passado, e tenha constituído, com ele, uma família numerosa, de mais seis filhos, aonde, Eduardo, o mais velho tem vinte e cinco anos e os gêmeos Maria da Salete e Agenor Júnior, os mais novos, têm catorze anos.

Hoje, Fátima tem cinquenta e oito anos, uma vida ajustada, estável ao lado dos seus filhos caçulas. É filósofa aposentada. Fora professora de uma das universidades de Filosofia mais renomadas do País. Tinha vinte e seis anos quando, à época, conheceu Venceslau, que tinha trinta anos, em aniversário de uma prima, dele, Maria de Lourdes, com quem Maria de Fátima vinha construindo, na faculdade, que cursava, de Filosofia, uma boa amizade. A partir desse período se apegaram, um ao outro, em um namoro que já fazia onze meses. Em vésperas de comemorarem o aniversário de um ano de namoro, o destino, em mil novecentos e setenta e oito, abruptamente, os separou ou melhor, Venceslau decidiu acabar tudo, sem uma razão óbvia, saindo de sua vida, sem olhar para trás e sem nem dizer, “até logo”!

Os anos se passaram. Nesse ínterim, sob os auspícios do arcano maior “A Estrela”, aliado ao arcano menor “3 de Espadas, e ao “6 de Copas”, Maria de Fátima, mesmo seguindo a sua trajetória de vida, continuou, discretamente, alimentando esse amor, vivendo a sua dor de amor, secreta, sempre na esperança de um reencontro, de uma reconciliação e da oportunidade de viver, plenamente, o que não vivera com Venceslau, na ansiosa expectativa de se recobrar o tempo, o qual, em suas idéias, ambos haviam perdido.

Fato recente fez com que, tal situação nessa história, para Maria de Fátima, tomasse uma nova dinâmica. Ela e ele se reencontraram no aniversário de sessenta anos de sua amiga Maria de Lourdes, de quem ela, também, perdera o contato nesses últimos trinta anos, mas, que por força do destino, reencontrara no aeroporto a caminho da Europa. Uma estava de passagens compradas para Madrid e a outra, para Paris.

A expectativa do reencontro e a esperança não se despiram ou despediram da dor há tantos anos nutrida e preservada, por Maria de Fátima, mesmo não obtendo, ela, a certeza de que veria Venceslau em tal festa de aniversário. “Estaria ele vivo?”, perguntou ela à Maria de Lourdes, assim, que desta, recebera o convite, em plena sala vip do aeroporto, a qual lhe afirmou que, dele, também não sabia roteiro, mas, que tinha enviado um convite a um parente seu, estendendo o mesmo convite, também, a Venceslau.

Eis que no dia da festa, todos bailavam, amigos de faculdade de longas datas; e nada de Venceslau aparecer. Maria de Fátima, mesmo com cinquenta e oito anos ainda demonstrava exuberância. Sentada, em plena duas horas da madrugada, rodeada de amigos, via-se que as marcas do tempo não atingiram a sua face, nem o seu colo e nem as suas mãos. Por outro lado, Maria de Lourdes, na mesa vizinha com o seu esposo e outros familiares e uns poucos amigos, parecia um tanto envelhecida, sinal este que tentava disfarçar com o uso de uma pesada maquiagem.

Bem no furor dos ânimos da festa, eis que surge, meio que de relance aos olhos de Maria de Fátima, próximo aos primeiros arbustos do jardim da mansão da aniversariante, um vulto. Tal figura pouco nítida, possuia uma corpatura que lhe parecia bastante familiar. Seria a de Venceslau? Ao mesmo tempo em que via tal semblante vindo do escuro, uma nova dor, transpassava-lhe, rasgando-lhe, mais uma vez, o seu coração já partido.

A flecha das possibilidades sonhadas, expectativas fracassadas e convivências perdidas perfurava-lhe os crônicos sentimentos, deles fazendo surgir novos fragmentos, sofrimentos e lamentos. “Resistirá, esta pobre viúva, a esse reencontro?”, pensou Maria de Lourdes, ao olhar Maria de Fátima, na mesa ao lado, com os olhos já marejados de lágrimas.

Para Venceslau, hoje com sessenta e dois anos, o tempo parecia que lhe fora cruel, deixando-lhe marcas profundas no rosto, as quais, aos olhos de Maria de Fátima, refletiam um certo charme contagiante. Via nele, mesmo com o passar das horas, uma beleza monumental. Era assim, que em sua mocidade ela se referia a ele: o meu “monumento”. Pensou ela: “realmente, ele continua um príncipe!”

Fortes lembranças, como em “Amarcord”, de Fellini, percorreram a mente, descendo pela espinha de Venceslau ao mesmo tempo em que fixava o seu olhar ao de Maria de Fátima. Suas mãos esfriaram, um formigamento tomou conta de seu corpo. Conteve o nervosimo e manteve a mesma aparente frieza que, por ele, fora utilizada quando do rompimento, com ela, há trinta anos atrás.

“Boa noite a todos!” Elegante e deferentemente disse ele em direção dos muitos olhares absortos daqueles que faziam companhia e compartilhavam à mesa de Maria de Fátima, chamando a atenção, também, dos convivas sentados à mesa de Maria de Lourdes, a qual, embora fosse tão tarde, parecia, ainda, tão encantadora, estando mais alegre e animada, claro, por consequência das muitas doses, que ingerira, de Royal Salute.

“Que presença vultosa, em minha festa! Venceslau, meu lindo, seja muito bem vindo!” Emitiu em alto e bom som a anfitriã e aniversariante sexagenária , ao caminhar, pouco cambaleante, de encontro, ao saudoso amigo, para, em mil sorrisos, gentilmente abraçá-lo.

Maria de Fátima suava frio, tamanha a sua dor. Percebera, no entanto, que a dor do reencontro era mais poderosa, muito mais do que a dor da despedida, da ruptura e perda do amor, que experienciara há mais de trinta anos.

Conversaram muito, Venceslau e Maria de Fátima, durante as poucas horas restantes até o fim da festa. O sol começou a despontar, em meio às árvores; o casal colocava, ansiosamente, em dia, cada momento vivido durante os últimos trinta anos, expondo Venceslau, meio que em vão, os muitos motivos que poderiam ter levado, ao fracasso, o ideal de amor por eles, à época, construído.

Não era somente a dor do reencontro que afligia Maria de Fátima naquele momento, mas também o seu encontro com uma nova espécie de dor, aquela que, de forma paradoxal e inesperada, incomodava-lhe as idéias a cada palavra, por Venceslau, pronunciada: a dor do inconformismo, de um pesar por si mesma.

Percebera, assim, Maria de Fátima, que perdera um longo e precioso tempo de sua vida, alimentando e contemplando algo que, realmente, morrera, desde a sua partida. Inconformada, arrependera-se profundamente por cada lágrima que derramara por tal “morto-vivo”.

A partir desse reencontro, entendeu ela, então, que tal homem, o qual ela amou em épocas da faculdade, e que, sem motivo algum, a abandonara, já não mais existira, existindo, sim, um fantasma que há muito necessita ser afugentado, inclusive dos escombros restantes, e há tantos anos preservados, de sua torre há tanto tempo fulminada, a qual proporcionou-lhe uma parede de destroços que, por muitos anos, a impedira de perceber que a oportunidade que tivera, de viver, talvez, o verdeiro amor, agora jaz, também ficou para trás, descendo, junto com o finado Agenor, os sete palmos abaixo de seu chão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TÁVOLA, Artur da. Diário doido tempo: crônicas, reflexões, memória. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

3 comments

  1. Arierom Salik says:

    Dores de amores… do que partiu, do que brotou e não foi visto a luz do sol nem da lua – Os Platônicos
    Os amores perdidos para a morte e para vida… dores… conheço talvez a mais cruel das dores de amores, muito mais até que amar não ser amado e esquecido: a dor de ser incapaz de amar!

    Parabéns pelo belo post! Bom domingo.

    João.

  2. Ricardo Pereira says:

    Oi Arierom,

    Muito legal este seu comentário! Você enxergou o espírito da mensagem que quis passar com esse artigo. É isso mesmo!

    Obrigado pela participação.

    Abraços,

    Ricardo

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