A incrível dança dos símbolos

Por Ricardo Pereira

É bastante comum ao tarólogo, o atendimento de clientes queixosos, os quais reclamam do quão tediosos e sem propósitos se tornaram os seus dias, da estagnação e da falta de perspectivas, as quais insistem em se “perpetuar” em suas trajetórias.

Uma nuvem de pessimismo paira sobre as suas cabeças, suas palavras geralmente são de descontentamento, de preocupação com o porvir, de incertezas, mas, sempre lhes restam um último fio de esperança; ora, o arcano maior “A Estrela”, surge nas tiragens de Tarô, quase sempre, para motivar as pessoas a fazerem por onde mudar de perspectivas e, principalmente, de focos.

Geralmente é observado, nas análises taromânticas, que aquele que experiencia esse tipo de situação tão para baixo está, certamente, sob o comando do atributo da indolência, cuja energia é bem destacada quando surge um “8 de Copas”, caracterizada pela não disposição do indivíduo em assumir responsabilidades.

Desse modo, o descuido sobre a própria vida e a dos outros é a tônica, suas atitudes são inconsequentes, irresponsáveis.

O indivíduo não se importa com aquele ou aquilo que o cerca, abandonando projetos ou obrigações muitas vezes por pura preguiça de assumir compromissos, priorizando, quando esse arcano menor vem acompanhado do maior “O Louco”, por exemplo, os prazeres propiciados nos rápidos instantes de pura diversão regada às ilusórias delícias do álcool e, às vezes, até das drogas, cujas consequências no dia seguinte são a famosa “rebordosa” ou ressaca moral, seguida de leve ou profunda depressão; tanto que para dar ênfase aos amplos sentidos e significados desse arcano menor, Aleister Crowley acabou lhe denominando de “Indolência”, o que é muito coerente, pois tal estado poder ser oriundo dos mais variados fatores, possuindo origem em diversas causas.

Mesmo desentusiasmado, o indivíduo tenta partir para outra ação e segue caminhando, em passos lentos, sobre o lamaçal que mesmo produziu, em busca de novos horizontes, como muito bem sugere a imagem do “8 de Copas” em várias iconografias de Tarôs com base em Waite-Smith, denotando, este arcano menor, que determinada experiência vivida está relacionada a uma situação na qual alguém deu às costas, por exemplo, a um relacionamento, empreendimento, objetivo ou ação, os quais foram abandonados por uma simples questão de perda de interesse, de “magia” ou de desencanto.

Porém, como já destacado aqui por meio do uso de outras palavras, a própria simbólica dos arcanos de número 8, no Tarô, para o alento ou desalento do gênero humano, ratifica ou remete, sempre, o advento de novidades, a chegada ou a caminhada rumo a algo inédito, inovador, distinto. Sempre existe uma saída, quando a pessoa está sob os auspícios desses arcanos menores.

Não muito diferente do “8 de Copas”, o arcano menor “4 de Copas”, denota também a presença da preguiça a se sobressair sobre a atitude, minando os poderes pessoal e de ação individual mas, quase sempre, como consequência da existência de um elemento a mais, o tédio, causando uma sensação de enfado devido a algum tipo de circunstância que gera desprazer, desconforto e, também, desinteresse, os quais acabam levando o indivíduo à indolência e, em casos extremos, às consequentes perdas, frustrações, doenças e à decadência vividos no próximo arcano menor deste mesmo naipe, o “5 de Copas”.

Variados podem ser os fatores que implicam na decadência perene ou momentânea de determinados indivíduos, regiões, grupos; muitos com causas inexplicáveis, desconhecidas, mas, boa parte é passível de mudança, melhoria e, até, eliminação.

Diferentemente desses casos citados anteriormente, surgem os daquelas pessoas plenamente satisfeitas, realizadas, felizes em muitos aspectos que constituem os seus cotidianos.

São seres humanos otimistas, buscando o Tarô apenas no sentido de se orientarem quanto a continuarem a ser pessoas, em amplos sentidos e domínios, equilibradas, destacáveis em seus grupos de convívio e atuação.

Muitas procuram o tarólogo porque vivem momentos de dúvidas, impasses e buscam as orientações taromânticas tão somente para tomarem as melhores decisões ou fazerem escolhas acertadas.

Vale salientar, que o tarólogo, em pleno exercício de sua profissão, é consciente de que tudo que emerge explicitamente do pensamento e da ação humanos possui o seu símbolo representativo, o qual é atraído para a mão do consulente no momento em que ele escolhe os arcanos, os quais deverão responder a sua indagação, durante a análise taromântica, a qual, geralmente, efetiva-se em plena sincronia, pode-se afirmar, à uma dinâmica, flexível e exuberante “dança de símbolos”.

É exatamente esse poder da dança sincronizada dos símbolos que vai formando as imagens simbólicas, as quais vão revelando a verdadeira dimensão de todo e qualquer estado de espírito. O Tarô, nesse sentido, nunca deixa de fornecer, a todos que lhe procuram, as devidas respostas.

Dessa forma, durante uma consulta ao Tarô é certo que o consulente ao escolher, aleatoriamente, as cartas que servirão de recursos informacionais para a análise de seus momentos vividos, possivelmente terá em sua mão os símbolos os quais representem as suas frustrações, insatisfações, tristezas, ruínas e quedas, e com o mesmo peso e medida, aquelas satisfações, alegrias, conquistas, sucessos e ascensões. Nesse caso, um mundo de possibilidades vem à tona, assim como as necessárias intervenções de melhorias e mudanças positivas para cada caso.

Destarte, tal estado de espírito é constituído de pensamentos, sensações e experiências, quase sempre habituais, essenciais ao dinamismo mental, estando a mente humana sempre aberta a apreciar o novo, o diferente e por isso sempre é passível às mutações, o que permite inferir que nenhum estado de espírito é igual ao outro.

Para fazer valer e atender, confluentemente, tal dinamicidade é intrínseco ao homem simbolizar as idéias que emergem de seus curtos ou longos processo mentais, frutos de seus pensamentos e, claro, também de seus sentimentos, sendo os símbolos construídos, utilizados na intenção de se fazer anunciar, universalmente, a realidade, a trajetória histórica de cada povo, cultura e, especialmente, as experiências de um indivíduo ou de um grupo.

De acordo com Bomfim (2008),

[…] pelo continuado uso, os símbolos naturais se fizeram clássicos e foi assim que se tornaram universais […] No conceito de VIVER, a suprema exaltação da consciência vem como aspiração de subir, ascender, em glória, poder e virtude. E a escada será, para todos nós, como para o patriarca o símbolo dessa eterna repetição de anseios e aspirações.

Nesse âmbito, o ser humano incorpora, consciente e inconscientemente, cada situação vivida no passado ou no presente, cada motivo pessoal, valores, crenças numa imagem-símbolo, onde a imagem, segundo Burgos (1988) constitui-se na metade visível do símbolo, enquanto a outra metade é o simbolizado.

Nesse sentido, as duas partes juntas, imagem simbólica e o simbolizado, formam a significação, que se constitui na expressão essencial facilitadora de um melhor entendimento de um fenômeno, de um fato ou de uma experiência representada e comunicada pelos símbolos em termos universais, aplicados aos diferentes contextos.

Trazendo esse aspecto para o fazer taromântico, observa-se que o poder do símbolo se destaca exatamente no momento em que ele surge como que atraído pela mente do consulente para lhe emitir as mensagens necessárias as suas ansiosas indagações ou demandas, onde as imagens simbólicas vinculam-se, sincronisticamente, ao seu estado de espírito, ao seu pensar e sentir, fazendo-lhe enxergar a fórmula para a sua efetiva sensiblidade e ajuste ao mundo, ao contexto em que vive.

A partir do encontro do ser humano com imagens-símbolos, ao apreender as suas mensagens associadas ao contexto vivido, caberá, a ele, lançar mão de seu poder pessoal a fim de caminhar seguramente sobre a ponte que lhe conduzirá à efetivação de mudanças, as quais poderão ser resultantes de novas ações, devendo ser empreendidas sob diferentes perspectivas, à luz de novos e positivos padrões mentais.

Decerto, não querer mudar também pode fazer parte do processo, já que o livre-arbítrio é um recurso sempre presente em toda e qualquer jornada e isso também pode ser captado pelos símbolos do Tarô, os quais são tão poderosos e surpreendentes que também fazem emergir, em suas danças, mensagens de imutabilidade.

Nesse caso, eles surgem para afirmar ao indivíduo que a situação pela qual está passando não sofrerá mudanças, concorrendo à permanência, ficando tudo como está. O que às vezes é bom, mas, também pode ser ruim.

Nesse contexto, quando surge em uma tiragem, por exemplo, o arcano maior “A Sacerdotisa”, em seu poder simbólico unidimensional, em 98% dos casos denota que algo vivido ou objetivado pelo consulente carece de impulso, de movimento, ficando tudo inalterado, ou seja, no mesmo estado em que se encontra.

Isso ocorre porque a força de ação do indivíduo é unilateral, não sendo suficiente devido, às vezes, a sua própria resitência em empreender qualquer esforço à realização, à mudança. De outro modo, simplesmente podem lhe faltar recursos ou, ainda, o tempo não lhe é favorável à conclusão do seu desejo.

Dependendo do caso, esse fenômeno característico e anunciado pelo poder da dança dos símbolos permite revelar, ao consulente, pelo impulso de sua força simbólica, se determinada ocorrência lhe é favorável , mas, em determinados contextos, alerta sobre os impactos negativos que se aproximam em consequência de determinadas ações.

O que faz funcionar esse mecanismo de atração da mente ao símbolo em voga, o qual é necessário a emissão de uma mensagem durante o processo taromântico ou na consulta a um outro oráculo, constitui-se em um mistério que até hoje, em meio a tantas explicações subjetivas fundamentadas em pressupostos de diferentes áreas do conhecimento humano, insiste em continuar escondido sob as vestes de algum deus ou deusa dos tantos panteões míticos universais.

Tarólogos ou oraculistas são, muitos deles, exímios em fazer as conexões de símbolos àquilo a que eles estão associados em cada contexto, ao que eles representam ou emitem; fazem isso como se tivessem contando uma estorinha aos consulentes, fazendo com que a presença e poder do símbolo penetre profundamente em suas existências.

Por outro lado, nem eles e nem a ciência até hoje conseguiram descobrir, o que permite o efetivo funcionamento, por exemplo, do Tarô, quando faz emergir arcanos e símbolos específicos vinculados à determinadas pessoas e as suas experiências de vida.

O mecanismo que permite ao Tarô efetiva e eficaz função, por analogia ou interpretação, de provedor de respostas concretas, factíveis e, sobretudo, impulsionadoras de transformação, elevação e evolução não pode ainda ser explicado de modo causal.

O ocultamento evidente do fator concreto que fornece o poder de movimento, o qual permite, objetivamente, os símbolos do Tarô, como em uma poderosa e incrível dança flexível e exuberante, surgirem durante o fazer taromântico representando os diversos estados de espírito humanos é um fenômeno deveras intrigante, carente e passível ainda de profundos fundamentos.

Nesse contexto, tal fenômeno se faz intrigante exatamente porque, como os demais oráculos, tudo a todos os símbolos do Tarô revelam, menos o cerne de sua bem sucedida dimensão oracular, na qual possivelmente pode estar contido todo o manual explicativo sobre a ação do dispositivo, o qual permite que os símbolos dancem e que, certamente, fazem e tornam real o seu pleno e eficaz funcionamento.

Enquanto essa informação permanece escondida sob a custódia dos deuses e deusas, continuam o Tarô e os seus afins, bem ou mal, com o status de ramo do saber humano pertencente ao ocultismo ou às ciências ocultas, o qual lhe foi atribuído pelos cientistas nos antigos “códigos de classificação do conhecimento”, os quais se constituem em instrumentos para a organização de livros e documentos em geral e à recuperação da informação nas prateleiras das bibliotecas convencionais ou virtuais. Relevante, ou não, essa informação é verdadeira!

Nesse âmbito, o número de classificação do Tarô, por exemplo, na “Classificação Decimal de Dewey – CDD” é 133.32424; onde “133” é a classe de assuntos “Ocultismo, Astrologia, Parapsicologia”, a qual também pertencem todos os oráculos e os outros assuntos a eles referentes; e “32424” se refere especificamente ao tema “Tarô”.

Se observarem algum livro sobre o Tarô perceberão que nele existe, no verso de sua folha de rosto, um importante e interessante elemento denominado de “ficha catalográfica”, no qual consta, entre outras informações, o número de classificação (CDD ou CDU) do assunto abordado em suas páginas bem no rodapé da ficha, do lado direito da visão do leitor.

Um aspecto interessante observado nesse número 133.32424, de classificação da CDD para o Tarô, é que a sua redução numerológica (1 + 3 + 3 + 3 + 2 + 4 + 2 + 4) é igual a 22. Supostamente, qualquer semelhança dessa incrível dança dos símbolos com a vida real não passa de mera coincidência. Será?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOMFIM, Manoel. Pensar e dizer. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

BURGOS, Jean. Pour une poétique de l’imaginaire. Paris: Seuil,1988.

CLASSIFICAÇÃO DECIMAL DE DEWEY – CDD. Disponível em: http://bib.unics.edu.br/biblioteca. Acesso em 19 jan. 2010.

One comment

  1. Senhor da Vida says:

    excelente texto, quem nunca experienciou esse 8 de copas, o interessante que depois do episodio, a gente cresce muito, ele se faz necessario de certa forma.
    Mas o abandono é fogo, pra quem sofre a ação, a tristeza é muito grande.
    Beijos e bom findi.

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