Tarô de Fundo

Por Ricardo Pereira
Denomino de “Tarô de Fundo” a técnica de se criar “cenários interpretativos” para qualquer tipo de modalidade ou expressão artística utilizando-se dos 78 arcanos do Tarô. Esse exercício vem sendo utilizado, não com essa denominação, por alguns tarólogos em cursos, em palestras em várias partes deste nosso planeta.

Películas cinematográficas, peças teatrais, músicas, canções, musicais, novelas, romances literários, poesias, poemas, reclames, documentários, pinturas, imagens diversas, esculturas etc são recursos didáticos significativos que fazem o Tarô surgir, “ao fundo”, correlacionado interpretativamente a uma cena, estrofe, personagem, um ato, capítulo, verso, refrão, uma notícia, propaganda, uma imagem etc retratando, por meio dos atributos ou significados dos arcanos, uma espécie de contexto, história, estória, um tempo ou ambiente revestidos de possíveis previsões de situações no passado, no presente ou no futuro, fazendo emergir, inclusive e em alguns casos, correlações entre mensagens subliminares e os arcanos.

Nesse contexto, as letras de músicas ou de canções são, por exemplo, além de pertinentes recursos didáticos para apreensão simbólica e dos atributos do Tarô, um excelente veículo de expressão de emotividades e sentimentos humanos capaz de promover, ao tarólogo e ao aprendente de Tarô, longos e profundos passeios de decodificações simbólicas a partir das mensagens que elas transmitem, propiciando durante os processos de ensino, da análise do discurso presente nas letras das canções e de aprendizagem, um diálogo entre o que cada palavra na letra transmite, observações sobre o que é percebido pelo ouvinte e as correlações pertinentes àqueles muitos significados de cada arcano.

Através da música, o tarólogo, professor ou ensinante de Tarô poderá explorar, com os seus alunos, estudantes ou aprendentes da arte de interpretação simbólica, as inúmeras correlações entre as imagens dos arcanos, os seus símbolos, significados ou atributos com as letras de determinadas canções em seus mais diversos gêneros ou estilos musicais existentes.

Dessa forma, há a possibilidade tanto de arcanos maiores, quanto de arcanos menores surgirem ao fundo, acompanhando uns ao outros, confirmando e fechando, assim, as previsões ou mensagens dos arcanos no âmbito de cada estrofe a ser analisada e correlacionada pelos tarólogo e aprendente no decorrer de aplicação da técnica de Tarô de Fundo.

Vejamos um exemplo: a canção “Boa sorte/Good Luck”, composição do californiano Ben Harper (2007) e da cantora e compositora matogrossense Vanessa da Mata (2007), a qual pode ser ouvida e apreciada no vídeo abaixo.

Vamos a letra da canção, a qual fora suprimida, aqui, em suas estrofes em inglês, e a aplicação da técnica do “Tarô de Fundo”.

“É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará …”

Observando-se essas duas primeiras estrofes vê-se, de imediato, que o seu contexto trata de uma ruptura afetiva. Percebe-se, nesse âmbito, que uma das partes faz questão de enfatizar que a relação afetiva e os seu sentimentos pelo outro findaram-se, esgotaram-se, mudaram e que, nem com diálogo, com as possíveis palavras emitidas em uma conversa, ele ou ela não voltará atrás em sua decisão de romper a relação e, desse mesmo modo, em sua vontade de se afastar do outro. Assim, um se despede do outro desejando-lhe: uma “boa sorte”!

Aplicando-se a técnica de “Tarô de Fundo” podemos correlacionar os cenários destacados nessas duas estrofes com os seguintes arcanos maiores do Tarô:

a) 6 – Os Enamorados, revelando nas duas estrofes um impasse, uma escolha, uma tomada de decisão e o uso do livre-arbítrio.

“É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará …”

b) 9 – O Eremita, destacando um estudo de fatos, de vantagens e desvantagens de dadas circustâncias, uma despedida e um afastamento.

“É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte …”

c) 10 – A Roda da Fortuna, denotando uma fase, uma transição, uma mudança inevitável ocasionada pelo destino, pela sorte dos envolvidos, pela manifestação da lei do carma ou da “lei da causa e do efeito.”

“É só isso
Não tem mais jeito …
… E o que eu sinto
Não mudará …”

d) 12 – O Pendurado, enfatizando a estagnação do relacionamento, a imutabilidade da decisão tomada, a falta de perspectiva ou obstáculo imposto à continuidade da relação.

“… Não tem mais jeito …
E o que eu sinto
Não mudará …”

e) 13 – A Morte, revelando, nas duas estrofes abaixo, o desgaste do relacionamento, uma ruptura, um término, cujo desfecho partiu do uso do livre-arbítrio, de uma tomada consciente de decisão geradora de conflitos, agressividades e dores, muitas dores.

“É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará …”

f) 16 – A Torre, demonstrando, também nas mesmas duas estrofes, a aniquilação dos sentimentos, a desestruturação afetiva, o rompimento, a consumação do término do relacionamento, cujas causas estão ou na interferência de terceiros ou do destino, trazendo como consequências a mudança de estado afetivo e a recusa a esse estado e, também, prováveis sensações de perda, de inconformismo e de dor, as quais podem ser duradoras, cujas feridas podem passar anos e anos para cicatrizarem e , quase sempre, uma das partes segue ainda nutrindo as esperanças de uma reconciliação ou de que um dia tudo poderá dar certo. Tudo ilusão, pois nem acontece uma coisa, e nem outra, quando uma relação é coroada, feliz ou infelizmente, por este arcano maior.

“É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará …”

g) 20 – O Julgamento, denotando a transformação dos sentimentos, cujas causas estão ou no plano espiritual ou no destino, jamais possuem origem na interferência de outros seres humanos, gerando um fim, trazendo renovação, conformação, perdão e possível superação sem quase nenhum tipo de sofrimento. Possivelmente sobrevive a amizade quando uma relação termina sob a égide desse maior, o que pode ser, ou não, o caso dessas estrofes analisadas.

” … Acabou, boa sorte
… E o que eu sinto
Não mudará …”

h) 21 – O Mundo – revelando que a relação “já deu o que tinha que dar”, finalizando-se. O casal rompe, de certa forma, de modo diplomático, com ambos seguindo em paz, rumo à superação de cada fato gerador da ruptura para viverem como bem quiserem os seus novos ciclos afetivos.

“É só isso …
Acabou, boa sorte …”

Outras análises dos discursos apresentados nas demais estrofes da letra dessa mesma canção poderão ser efetivadas a partir da simbólica dos arcanos menores, vejam:

a) 10 de Paus – denotando, na estrofe a seguir, que a relação e o manter-se ao lado do outro tornou-se um fardo, um peso, algo desarmônico que mina as energias, que reduz os ânimos extinguindo a paz entre o casal, fazendo com que o relacionamento chegue ao seu fim, causando uma ruptura e, essa, vem, com esse menor, recheada de sofrimento e de pesar.

Do ponto de vista dos atributos do Tarô, os 4 ( quatro) arcanos menores de números “dez” remetem, de uma forma geral, um fim de ciclo, de uma etapa ou de um processo.

” … Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz…”

b) 10 de Copas – destacando que algo na relação passou dos limites, transbordou ao ponto de não se poder mais controlar por conta do excesso, fazendo uma das partes chegar ao seu ponto crítico e máximo de suportabilidade, propiciando-lhe decidir por uma ruptura, a cortar o laço afetivo.

Importante observar, que esse arcano menor, para os que se amam harmoniosa e reciprocamente, denota o auge do amor, mas, para um relacionamento em crise perene ou crônica muitas vezes prenuncia, mais cedo ou mais tarde, o seu fim.

” … Tudo o que quer me dar
É demais …”

c) 5 de Paus – enfatizando uma crise, um conflito de interesses, discórdias, discussões ou brigas violentas e uma consequente separação.

“… É pesado
Não há paz…”

d) 7 de Copas – revelando a possível tentativa de uma das partes de contra-argumento à decisão de ruptura tomada. A fim de buscar outras alternativas à continuidade da relação tenta impressionar o outro com promessas fantasiosas, incultiváveis, os quais, contra-argumentos e promessas são, evidentemente, rechaçados e mal percebidos pela parte que perdeu o interesse no outro.

“… Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais …”

e) 7 de Paus – denotando, em meio a um clima tenso, a definição e a segurança do desinteressado na outra parte frente a decisão que tomou, resistindo, veementemente, a todos os contra-argumentos lançados a sua determinação em romper a relação. Observa-se, também, o seu firme desejo de que outro se cure do “sentimento doentio” que lhe direciona, aconselhando-o, convictamente, a controlar os ânimos, a animosidade e a aceitar o fim da relação e a buscar superá-la.

” … Mesmo se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha …”

f) 2 de Espadas – destacando uma dessintonia entre o casal e uma não aceitação da realidade, fazendo com que o desinterassado na outra parte busque fazê-lo enxergar o desacerto que se tornou o convívo entre eles, convencendo-o a aceitar a situação de ruptura a fim de que ele parta, para outra, em busca de outra pessoa interessante, entre as muitas que existem por ai, deixando-a em paz.

“… Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais…”

Como vimos, a técnica de Tarô de Fundo é um excelente exercício para quem deseja aprender e apreender os significados dos arcanos do Tarô. Desse modo, destaca-se como uma técnica bastante simples, viável e aplicável em processos de ensino e de aprendizagem da ação taromântica.

Objetividade e subjetividade se complementam conforme a sensibilidade e visão do tarólogo e do aprendente, no sentido de observar nas mensagens transmitidas por um veículo de manifestação artística qualquer elementos que podem ser correlacionados, como em uma espécie de captação da realidade, aos diversos atributos e símbolos peculiares ao Tarô.

Nesse processo, cada elemento, por exemplo, contido na estrofe de uma canção, são analisados e descritos conforme seus coerentes correspondentes presentes nas diversas figuras simbólicas, as quais compõem o conjunto de 78 lâminas do Tarô, podendo tornar, realmente, as ações de ensino e de aprendizagem da atividade de taromancia algo efetivamente agradável, criativo, dinâmico, rico e, principalmente, eficaz do ponto de vista da compreensão da dinâmica do Tarô sob diversos ângulos e perspectivas de análises.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MATA, Vanessa da; HARPER, Ben. Boa sorte/good luck. In: Sim (CD Zero). Rio de Janeiro: SonyBMG, 2007.

______. Boa sorte/good luck. (Vídeo On line). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=35H4-AR010k&feature=channel. Acesso em: 11 mar. 2010.

______. Boa sorte/good luck. (Letra da canção). Disponível em: http://letras.terra.com.br/vanessa-da-mata/978899. Acesso em: 11 mar. 2010.

2 comments

  1. Senhor da Vida says:

    Excelente texto, e acho que a nivel de aprendizado com certeza a eficacia quando nos que ensinamos utilizamos a arte como recurso ao aprendizado do taro, o curso alem de ganhar vida, fica bem mais completo e acessivel,principalmente para o totalmete leigo.
    Vou te twittar tb, bjs.

  2. Ricardo Pereira says:

    Oi Senhor da Vida,

    Sem dúvida que o ensino do Tarô, utilizando-se da arte em processos de associações, só tem a enriquecer e a facilitar o seu aprendizado.

    A criatividade aflora e as mensagens dos arcanos se vinculam aos aspectos do que se está explorando de uma música, de uma escultura, de uma cena de filme etc, deixando o entendimento dos atributos dos arcanos bem efetivos e compreensíveis. É muito legal essa técnica de do Tarô de Fundo!

    Bjão,

    Ricardo

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