Perdas e danos: a incerteza nossa de cada dia

Por Ricardo Pereira
O tempo passa e nada é mais perceptível do que a certeza de que não existe nenhuma possibilidade de ganho sem que este implique em algum tipo de perda, nem que seja de tempo ou de oportunidade. Algumas dessas perdas são necessárias e outras nem tanto. Algumas geram danos, outras nem tanto.

É sábio aquele que vive uma perda e não a deixa evoluir para algum dano, ou seja, que sabe fazer a distinção entre o risco de perder ou ganhar e a incerteza de perder ou ganhar, claro, levando em consideração, também, que o dano está quase sempre à espreita. Complicado? Não! Tudo é uma questão de se munir das informações completas, precisas ou bem próximas disso e dos recursos necessários ao impedimento da ocorrência ou à minimização pelo menos da incerteza, a qual é muitas vezes causadora de algum tipo de perda e, em alguns momentos, de danos.

No risco, temos pelo menos a base da experiência ou um dado estatístico ou um cálculo que nos embasa uma decisão. E na incerteza, como uma pessoa deve agir?

Na incerteza as situações não são conhecidas, são imprecisas e , por isso, não é possível aferir a distribuição de probabilidade dos resultados ou do que pode acontecer após uma ação ou ocorrência, ou seja, as consequências de uma ação ou fenômeno podem ser imprivisíveis.

Por outro lado, o risco é uma situação na qual se pode especular e estabelecer os possíveis resultados e suas respectivas probabilidades de ocorrência.

Nesse contexto, toda situação de incerteza requer, no mínimo a gerência de riscos ou uma melhor análise de uma dada situação arriscada, sendo pertinente enfatizar que o risco sempre poder trazer um ganho ou uma perda.

O Tarô sendo usado numa perspectiva de não causar mais perdas ou danos, ao consulente, pode fazer surgir para ele, por meio da previsão, diversas luzes no fim do túnel em situações de incertezas e de riscos.

No Tarô vários arcanos traduzem situações de ganhos, perdas e danos, mas, o interessante é que esses mesmos arcanos podem oferecer saídas positivas, possibilitando, se esse instrumento simbólico for utilizado sem equívocos de interpretação, sendo associado a um método de leitura efetivo, a identificação de informações adequadas àquelas incertezas que necessitam de gerência de riscos e de intervenção para uma futura tomada de decisão com qualidade e, de peferência, satisfatória.

Segundo Steiner Neto (1998), “[…] situações de risco são acontecimentos cotidianos, fazem parte do dia a dia de empresários, gerentes, executivos […]”, médicos, engenheiros, advogados, professores, tarólogos, cartomantes, terapeutas holísticos, religiosos, espiritualistas, desocupados e das pessoas em geral de tal forma que, muitas vezes, passam despercebidas. Mas, a convivência com o risco é algo plenamente natural.

Um bom exemplo de situação de risco é o jogo de fortuna ou de azar. Uma pessoa decide jogar determinado jogo de azar motivado pela possibilidade de ganho, mesmo sabendo que também pode perder.

Em 2008 abri um Tarô para um cliente adepto da jogatina. Ele, estava prestes a perder a residência da família, único bem valioso que lhes restou depois de quase 25 anos de sua atividade intensa em jogo de azar. Era viciado, o cidadão, em jogos de baralho.

Procurou-me, essa pessoa, já em desespero, buscando uma saída para a sua incerteza quanto ao pagamento de uma dívida de mais de R$ 50.000,00 ao dono de uma casa de jogo, camuflada de lanchonete, da cidade do interior do Piauí na qual ele residia. O “credor” estava irredutível quanto a receber toda a quantia no prazo que estabelecera, pois já fazia mais de um ano que o consulente lhe devia.

O pior de tudo isso, era o fato de que a casa que pertencia a sua família nem isso valia, pois fora avaliada por uma valor de R$ 35.000,00 e se tivesse que vendê-la, ainda correria o risco de se desfazer dela por um preço pelo menos uns 15% abaixo do preço de mercado ou do que fora avaliada.

Ao finalizar a contextualização de sua história de vida para mim, passei a explicá-lo a dinâmica da consulta ao Tarô. Depois de tê-lo feito compreender todo o processo, ele lançou-me de supetão a seguinte pergunta: “Ei ai doutor, eu vou conseguir pagar a minha dívida de jogo em 3 (três) meses, como ficou combinado com fulano?”

Não perdi tempo em pensar em um método adequado, fui logo dispondo os arcanos, depois de bem embaralhá-los, no método desenvolvido por mim em 2005 denominado de C. O. R (1- CONDIÇÃO; 2 – OBJEÇÃO; e 3 – RESULTADO).

Esse método é para obtenção de respostas rápidas sobre as possibilidades de realização ou não de algo que se aspira, que se quer materializar numa perspectiva econômica, profissional, social, afetiva, espiritual, de saúde, entre outros, observando-se os riscos de se perder ou se ganhar e os possíveis danos em situações de incerteza.

De regra, utiliza-se todo o Tarô, embaralha-o, escolhem-se e distribuem-se os 6 (seis) arcanos sorteados nas suas casas pelo método europeu (um arcano maior e um menor por casa).

As casas do C. O. R possuem os seguintes enunciados ou finalidades de leitura:

CASA 1 – CONDIÇÃO – Analisar pelos atributos gerais dos arcanos como se encontra, o estado ou a condição de algo

CASA 2 – OBJEÇÃO – Analisar pelos atributos gerais dos “arcanos negados ou reversos” as oposições, divergências, dificuldades que se apresentam em relação a um objetivo, uma proposta, a uma pretensão.

CASA 3 – RESULTADO – Analisar pelos atributos gerais dos arcanos os possíveis resultados, as possibilidades ou não de realização de algo.

Na mesa de taromancia os arcanos são dispostos do seguinte modo:

Nesse contexto, sairam para a interpretação da tiragem do tal jogador azarado, os seguintes arcanos:

Casa 1 – CONDIÇÃO

Roda da Fortuna + 5 de Ouros, denotando que a situação financeira desse senhor era penosa, devido as inúmeras perdas consequentes do seu vício. Era evidente a sua malfadada sorte.

Interessante, que simbolicamente o arcano maior “Roda da Fortuna” é um exímio representante arcânico da jogatina, dos alto e baixos envolvidos no fator sorte e desse mesmo modo, o menor “5 de Ouros” evidencia alguns dos possíveis resultados advindos dos atos irresponsáveis daqueles que buscam contar com a sorte no sentido de se darem bem na vida, entre eles: as perdas!

Observa-se, que devido ao vício do jogo, a situação vivida pelo consulente era de perda, de total prejuízo e de falta de sorte.

Na casa 2, da OBJEÇÃO

O SOL + Rei de Ouros, destacando que ele estava nas mãos do dono da casa de jogo, correndo realmente o risco de ter que passar a casa de sua família para ele, com fins de “saudar” parte da dívida.

O “O Sol”, negado, deixa o consulente, sem perspectiva, sem uma forma eficiente para cair fora do beco sem saída que atraiu para si mesmo.

Já o menor da corte, “Rei de Ouros”, negado, faz alusão ao “credor”, que não iria abrir mão de um centavo que lhe era devido e no tempo combinado.

Nota-se que a falta de dinheiro e a não relevação da dívida por parte do credor foram as principais objeções que impediam o consulente, à época, de saudar a quantia devida e de quase entrar em pleno desespero.

Na casa 3, do RESULTADO

A Morte + 5 de Espadas, passando a mensagem de total impossibilidade do consulente saldar a dívida em 3 (três) meses, podendo ele ter que se desfazer da casa e de outros pertences e mesmo assim não conseguir ter o dinheiro suficiente para saldar tudo. Esse fato seria a sua derrocada, a sua ruína e a dos seus.

O arcano maior “A Morte”, em questões objetivas cujo teor é o alcance positivo de um resultado, nega toda e qualquer possibilidade de realização do que fora planejado; e o “5 de Espadas”, denota o estado frustrante do não alcance de um objetivo, de uma perda, de uma derrota.

Assim, o Tarô negou veementemente qualquer chance de sucesso almejada pelo consulente. Mas, por outro lado, o arcano maior “A Morte” sinalizou que algum tipo de mudança “positiva” estava, também nesse caso, prestes a ocorrer.

Após ter ouvido toda a minha interpretação dos arcanos, o consulente ficou completamente desolado, querendo ver saídas, uma luz no fim do túnel para toda essa situação.

Como esse método na possui “casa de conselho”, fiz ele retirar dos montes dos arcanos maiores e dos menores mais dois arcanos.

Esses dois arcanos serviriam para mostrar uma saída que fosse um tantinho sequer positiva para que o consulente pelo menos minimizasse o risco de perder a casa de sua família.

Como ele tinha consciência que a falta de dinheiro era o seu grande problema e que a incerteza do porvir estava presente, e como estava certo que a sua situação estava prestes a se complicar cada vez mais, resolveu buscar com o Tarô uma forma que o ajudasse a reduzir ou eliminar o risco de perder a sua casa e de ele chegar às vias da loucura. Com esse fim, fez a seguinte pergunta ao oráculo: “como poderei convencer fulano da minha necessidade de parcelar a dívida de jogo?”

Como um conselho sairam os arcanos A Justiça + 6 de Ouros.

Não nego que fiquei impressionado, à época, com o surgimento desses dois arcanos a lhe apontarem uma luz significativamente óbvia: ele teria que buscar na justiça dos homens, ou com algum bom conhecedor dela, a saída para essa sua problemática, pois só assim poderia entrar em outro tipo de negociação ou em um acordo com o dono da casa de jogo.

Para ele, embora essa fosse a saída, aos seus olhos a coisa se configurava como mais uma espécie de problema, principalmente pelo fato de estar lidando com pessoa de natureza bastante perigosa, a qual deveria enfrentar ou desafiar. Na verdade, ele estava era diante do desafio de enfrentar o medo de ter que enfrentar uma pessoa que além de tirar-lhe, todas as noites, o sono, poderia ainda lhe tirar o pouco da dignidade e dos sonhos que ainda lhes restavam.

Ora, ele sabia que o Artigo 50 da Lei de Contravenções Penais, de 1941, da época dos “contos de reís”, que trata dos jogos de azar, destaca que “[…] estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao público, mediante o pagamento de entrada ou sem ele pode render prisão simples, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa […]. (BRASIL, 1941). E sabia ainda que esse mesmo normativo jurídico, ainda em vigor no Brasil, diz que para efeito penal se enquadra ainda nessa norma qualquer lugar utilizado para a prática de jogos de azar, ou seja “[…] d) o estabelecimento destinado à exploração de jogo de azar, ainda que se dissimule esse destino.” (BRASIL, 1941).

Dessa forma, com base no conselho do Tarô e da referida lei, restava-lhe agora buscar um bom advogado para assessorá-lo, apoiá-lo, como bem aconselhado pelo arcano menor “6 de Ouros“, na busca de uma negociação do tipo “ganha-ganha”, sem grandes riscos de danos para as duas partes.

Foi exatamente isso que foi feito pelo consulente. Soube bem depois e também que, de fato, ele conseguiu, sem precisar denunciar o outro às instituições policiais ou levar o caso de fato à justiça, obter o perdão de parte da dívida, pois a mesma teve que ser recalculada em um “acordo de cavalheiros”, sendo reduzida em quase 40%.

Ele não perdeu a casa, mas perdeu parte do terreno pertencente à área na qual ela foi edificada, tendo que desmembrá-lo e vendê-lo para saldar a dívida, referendando a idéia de que realmente não há nenhuma possibilidade de ganho (material ou mental) sem que este implique, em meio às situações de incertezas, no risco do surgimento de algum tipo de perda.

Viorst (2005) diz sobre as perdas: “[…] olhar para as perdas é ver como estão definitivamente ligadas ao crescimento, ao auspicioso Ganhar Perdendo, ao começo de uma vida com sabedoria.”

Não sei que tipo de lição esse consulente tirou de tudo isso, mas, através de tal perda, dos danos causados por ela, alguma mudança em seu interior pode ter lhe levado a algum tipo de amadurecimento, de evolução. Livrou-se do vício da jogatina? Não sei! Pode ser que sim, ou pode ser que não!

Nesse caso, é certo afirmar, o Tarô cumpriu a sua parte como um efetivo instrumento de orientação durante aqueles momentos de incerteza, desafiadores na vida de muitos, nos quais ainda se encontram presentes alguns poucos resquícios de fios de esperança da constituição de momentos melhores, mais positivos na vida de um indivíduo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto-lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941. Trata-se da lei das contraveções penais. Diário Oficial da União, Brasília. 30 out. de 1941

STEINER NETO, P. J. A percepção dos resultados esperados pelos beneficiários como fator de influência no processo decisório. São Paulo: USP/Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. 1998. (Tese de doutorado).

VIORST, Judith. Perdas necessárias. São Paulo: Melhoramentos, 2005.

3 comments

  1. Arierom says:

    Ricardo,
    excelente narrativa! Por mais perturbador que seja um presságio, o Tarô sempre traz aquilo que para mim é o melhor numa orientação taromântica: o Conselho!
    Parabéns!

    Ari.

  2. Ricardo Pereira says:

    Oi Ari,

    Concordo com você! A taromancia com um enfoque no aconselhamento sempre mostra ao consulente boas saídas para as suas problemáticas cotidianas. Se ele se despir do ego e levar à risca, colocando em prática as mensagens abordadas pelos arcanos em casas de CONSELHO, ele tem 99,8% de chances de se sair bem das muitas encruzilhadas em que se encontra. Podem ter certeza, que sim!

    Obrigado amigo por sua pertinente participação e contribuição.

    Abraço,

    Ricardo

  3. Maria Elisa Fernandes says:

    Achei o jôgo espetacular e quando eu já me sentia completamente sem fôlego com o resultado, a carta do Conselho me deu um tremendo alívio …se esse cidadão não aprendeu com esta lição só mesmo uma Torre para colocá-lo na linha…
    Jôgo simples e maravilhoso!!!!parabéns! Abç

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