Entrando em acordo com a solidão

Por Ricardo Pereira
Por esses dias, olhando alguns poucos livros que possuo do Osho, deparei-me com um cujo título “Alegria: a felicidade que vem de dentro”, da editora Cultrix, publicado em 2005, incitou-me o desejo de querer folheá-lo, de saborear-lhe algumas linhas.

Em minha ação “leituresca”, foquei-me em umas poucas páginas, da 126 a 129, as quais foram abertas ao acaso. Nelas, o autor empreende uma breve abordagem sobre os temas “solidão” e “solitude”.

Interessante verificar, que do ponto de vista de Osho, em contradição aos dicionários que as considera termos sinônimos, “solidão” e “solitude” não são a mesma coisa!

Para Osho, a solidão beira à mendicância, ela mendiga (assim mesmo, do verbo “mendigar”) a presença do outro, algo como aquela cena do “6 de Ouros” do Tarô Rider/Waite e Pâmela Colman Smith. De outro modo, a solitude é um estado de deliciamento ou de satisfação consigo mesmo, ou seja, o ser humano está ou fica só, mas não é, não sente-se e nem está solitário. Ele por si só, basta-se! Algo, assim, bem ao estilo do arcano maior de número 9, “O Eremita”.

Não sei se por coincidência ou, como diria Jung, por sincronicidade, atrai, para um atendimento com o Tarô, uma pessoa (que me contatou via o meu Blog), a qual me relatou o seu sofrimento após ter decidido na vida, sem nenhum tipo de esfoço ou de surpresa para si mesma, viver só. Sofria, segundo ela, pela imcompreensão alheia, pela maioria não enteder que, por livre e espontânea vontade, decidira viver uma espécie de “solidão crônica.”

Desde tenra idade, os seus pais, empresários da área de comércio exterior, decidiram, que com 12 anos de idade, ela teria condições de sair da cidade do interior, aonde morava com os avós maternos, para morar só. Nesse interim, deveria estudar, fazer uma faculdade e se profissionalizar, ou seja, desde muito cedo teve que aprender a, muito bem, se virar na vida.

Na escola, na faculdade e no bairro em que residia era de “poucos amigos”, aliás, na verdade, nunca teve nenhum, nunca fazendo algum esforço para conquistá-los. Em sala de aula era de pouquíssimas palavras, odiava ter que fazer trabalhos ou atividades em grupo, chegando inclusive a ganhar um apelido, “Carrie: a estranha”, em alusão ao filme da garota que possuia poderes extrassensoriais e que por isso era rejeitada e ridicularizada por todos.

Evidentemente, que, para essa pessoa, a vida não lhe sorriu do mesmo modo como o fez no filme da “Carrie”, mas a estranheza, como ela mesma disse, era-lhe uma espécie de característica, no olhar do outro, significativamente perceptível. Adorava “estranhamente” estudar ou fazer suas atividades, ou as da escola, ou as da faculdade, sozinha! Gostava de sair e de voltar para casa, só e tão somente, só!

Nesse período, dos 12 aos 18 anos, recebia a visita semanal de uma diarista, com esta mal mantendo contato. Ouvia inclusive essa comentar com os seus pais ou parentes, que a considerava um “ser muito estranho”.

Os pais a visitavam nos fins de semana (e quando eles não podiam), ela pegava, nos sábados, um ônibus no terminal rodoviário em direação à casa de seus pais; e como ela mesma me disse, ia “por obrigação”, em viagem, visitar os seus “velhos.” Disse-me, que ficava muito feliz quando essa coisa da habitual visita de fim de semana, por alguma circunstância, não ocorria. Pedia aos céus, em oração, que os seus pais viajassem sempre a trabalho. Adorava ficar só, em casa, nos fins de semana.

Quando completou 18 anos, após ter sobrevivido heroicamente aos mais diversos tipos de assédios, das mais diferentes pessoas, entrou na faculdade de mecatrônica, especializando-se logo em seguida em robôtica. Decidiu por essa área devido ao caráter impessoal das máquinas, dos computadores, dos robôs. Tinha certeza que melhor se relacionaria com esses objetos, do que com gente, embora, das pessoas, não fosse e nem pudesse se tornar ou ficar livre. Perguntei-lhe se se considerava tímida. Ela, disse-me que “tímida, não!”, mas que era um tanto instrospectiva e bastante fiel ao seu jeito de ser solitário e muito feliz com o acordo tácito de parceria que fechara com a sua própria solidão.

Na verdade, queria apenas ratificar uma decisão que já havia tomado desde os tempos de sua infância, escolhendo a profissão que escolhera. O seu hilário lema, como ela mesma afirma com um sorriso largo, é o seguinte: “só, cheguei ao mundo, e só, nele ficarei, e mais só, ainda, voltarei para o lugar de onde eu nuca deveria ter saido.”

Perguntei a essa pessoa, se ela era ou estava feliz. E, ela respondeu-me: “muito, muito feliz, mesmo!” Percebi, no fundo e estranhamente, que ela falava a verdade! Perguntei-lhe: … então para você, é melhor viver só, do que mal acompanhada, não é mesmo? Ela retorquiu-me: “… não se trata de uma necessidade de estar junto ou de não estar acompanhada de pelo menos uma pessoa, qualquer pessoa. Na verdade, não tenho necessidade alguma da companhia de ninguém, nem de boas e nem de más companhias. Estou muito bem com a minha própria companhia, se é que me endende!”

Indaguei-lhe em seguida: “E por que procura o Tarô?”. Ela: “… para saber o que poderei fazer com uma criatura que trabalha no mesmo prédio que eu, a qual resolveu me importunar, perseguir-me, a enviar-me uns e-mails apaixonados (que não respondo nenhum, de modo algum!) e, inclusive, buquês de flores vermelhas com cartões ridículos, tomado de rídiculas declarações de amor, que me são enviados para o meu trabalho … Isso está me incomodando … deixando-me em maus lençóis, estou sendo alvo de comentários maldosos e de piada no meu trabalho … Não sei, a forma de como lidar com isso! Por isso, lhe procurei para me ajudar a sair dessa situação patética, livrar-me dessa pessoa incoveniente, que tornou-se uma pedra no meu sapato.”

Via-se nitidamente a sua angústia, a sua falta de condição de lidar com o assédio, com as tentativas de invasão de sua privacidade, com a falta de respeito, dos outros, a sua escolha de viver a sua solitude.

O que lhe incomodava não era ser ou estar só. Isso lhe era, até, muito agradável, pois estava perfeitamente bem até, segundo ela, alguém bater-lhe à porta! O que lhe incomodava era a sua incapacidade de reagir, em seu favor, em defesa de suas crenças, valores e decisões pessoais, a esse tipo de situação assediosa ou de insistência do outro em penetrar em um terreno que, à uma outra pessoa, não compunha milímetro de espaço.

Perguntei-lhe à queima roupa: ” … e sexo, você não faz ou sente falta?” Disse-me que nunca fez e que isso não lhe faz falta! Pensei, cá com os meus botões: “… não vou entrar em detalhes, mas estou lidando com uma pessoa que pode possuir tecnicamente uma espécie de ‘desejo sexual hipoativo’, ou seja, não possui fantasia ou desejo de fazer sexo. Que para ela fazer ou não sexo, não cabe nem um tanto faz! E nesse caso, não é aversão a sexo que essa pessoa tem, apenas não quer, não necessita de sexo e ponto final!”

Até ler o livro do Osho, já citado, e a deparar-me com essa pessoa e essa sua situação, nunca pensei que essa estória de “solitude crônica” existisse de fato. Quantas pessoas não escolhem, na vida, viverem só (e sem sexo)?

Para tira-lhe dessa angústia, vi que uma tiragem de conselho, tão somente, poderia ajudá-la com eficácia. Pedi-lhe que se concentrasse numa saída para esse seu problema e lhe puxei o arcano maior “O Mago”, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a precisão de o Tarô buscar mostrar um caminho, uma saída para uma problemática através de um arcano que denota exatamente o poder de algo ou de alguém a incomodar um outro, a afetar, mexer de forma negativa com outra pessoa. Em situações de incômodos é comum a presença de “O Mago”.

Por outro lado, esse arcano maior passa uma providencial mensagem de que, nesses casos, somente a comunicação, a clareza, a forma objetiva de se passar uma mensagem é que pode destacar com segurança e propriedade toda e qualquer intenção ou propósito. Aqui, comunicar-se é fundamental, é preciso!

Desse modo, o maior “O Mago” sugere a essa pessoa (consulente), que esse lhe seria um momento, uma oportunidade de enfrentamento direto e prático dessa situação vivida e para deixar claro ou comunicar para a outra pessoa, que embora ela lhe tivesse boas intenções, que ela simplesmente não estaria interessada, que não era o seu objetivo o estabelecimento de uma relação afetiva com quem quer que fosse, em tempo algum ou em lugar qualquer.

Nesse contexto, afirmei-lhe que não era fugindo dessa condição ou vivência , oferecendo ao outro “o silêncio como resposta”, que essa pessoa deixaria de lhe oportunar ou de lhe mandar flores. Na verdade, ela teria que enfrentar, tudo isso, chamar a pessoa para uma conversa, tratar-lhe com franqueza, falar-lhe, como já o fez com aqueles que mantém certo convívio, de sua decisão de ser e viver só. “Só isso? Para você isso é muito fácil! É realmente tão simples assim?”, questionou-me. Respondi-lhe que o Tarô não nos mostrava, naquele momento, não mais do que essa saída óbvia!

Em seguida ela pergunta ao Tarô: “… e se essa pessoa não se mancar e continuar me importunando, o que faço?” Puxei-lhe o maior “A Força” e um menor “Rei de Espadas”, a orientar que essa pessoa deveria seguir em frente com as suas convicções, buscando manter o controle sobre a situação e que, se necessário fosse, teria que ser dura, sem ser rude, mas firme no sentido de não lhe despertar qualquer pensamento de possibilidade de investida, de esperanças quanto a qualquer tipo de aproximação e de relacionamento. De fato, deveria vencer-lhe pelas atitudes inteligentes e pelo cansaço, até a outra pessoa perder o interesse.

“É tudo tão óbvio no Tarô!”, redarguiu-me novamente. Realmente, disse-lhe eu, ele retrata a realidade! “Sim, mas vai demorar muito, para eu poder me ver livre disso tudo?” Tirei-lhe os arcanos “2 de Ouros + Rainha de Copas + 3 de Espadas + Ás de Ouros”.


Nesse sentido, disse-lhe que em algumas semanas esse seu dilema poderia se findar, provavelmente em umas 5 semanas (1 mês e 7 dias), podendo se estender, dependendo da forma como fosse tratado esse assunto, ainda por mais ou menos umas 41 semanas, ou melhor, muita coisa poderia ocorrer, nesse contexto, por uns 10 meses pela frente, após a data da consulta. “Tudo isso?”, replicou de forma atônita! Respondi-lhe: pois é, tudo dependerá de você, de suas atitudes daqui pra frente!

Depois de me ouvir, ainda perguntou ao Tarô: “… como estarei ou ficarei depois de todo esse tempo? Depois de vencer esse meu desafio?” Puxei-lhe “O Eremita”, a coroar-lhe a consulta ao Tarô, ratificando-lhe que a SOLITUDE seria a sua sorte, a sua eterna e fiel companheira ainda por alguns anos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ATANASSOV, Atanas Alexander. Bosh Tarot: A Força e Rei de Espadas. Disponível em: http://www.albideuter.de. Acesso em: 30 maio 2010.

CASTELLI, Antonela. The Sorcerers Tarot: O Eremita e O Mago. Disponível em: http://www.albideuter.de. Acesso em: 30 maio 2010.

OSHO. Alegria: a felicidade que vem de dentro. São Paulo: Cultrix, 2005.

POSHKUS, Virginijus. Radiant Rider-Waite Tarot: 6 de Ouros, 2 Ouros, Rainha de Copas, 3 de Espadas, Às de Ouros, O Eremita. Disponível em: http://www.albideuter.de. Acesso em: 30 maio 2010. (Baralho e ilustrações reproduzidos com a permissão do U.S. Games Systems, Inc.,Stamford, CT 06902 USA).

3 comments

  1. ESTRATÉGIA & AÇÃO says:

    Ricardo, muito interessante esse seu texto sobre solitude e solidão. Nunca pensei que alguém pudesse sentir-se bem sozinho… Mas esse seu consulente provou que sim. O tarot foi certeiro, como sempre.

  2. Ricardo Pereira says:

    Sem dúvida! Optar, decidir viver só por toda uma vida é algo não tão comum, tanto que achamos esquisito esse tipo de situação e muitas vezes não acreditamos naqueles que afirmam categoricamente que estão muito bem consigo mesmos, que não querem relacionamento estreito com ninguém. Sempre temos uma opinião sobre isso, sobre essas pessoas, apontando-as ou como gente que vive um farsa ou como seres dados á hipocrisia, ou sei lá mais o que. Acho que foi para pessoas que vivem e assumem as suas solitudes, que Osho escreveu tão profundas palavras no livro citado nesse meu artigo, acima. Por conhecê-las, saber de suas reais existências, decidiu abordar algo nesse sentido, a fim de oportunizar ao leitor uma reflexão sobre tal possibilidade. E quanto ao Tarô, sem palavras! Ele retrata mesmo a realidade, não importa em que circustância e nem os envolvidos.

    Obrigado por sua participação,

    Ricardo

  3. Milene R. F. S. says:

    Nossa muito interessante mesmo o texto e o assunto! E pra te falar a verdade me identifico um pouco com ele… não que eu tenha escolhido ficar sozinha para sempre… não isso, ou que não converse nunca também com ninguém, mas a verdade é: eu adoro ficar sozinha! Adoro e quando fico muito tempo no meio de gente, sinto falta de ficar só e "recarregar" as baterias. Adorei o seu blog, adoro tarô, embora ainda seja uma iniciante nessa prática. Voltarei para ler mais posts seus, já vi que posso apreender muito aqui, até.

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