Amor-paixão mal resolvido

Por Ricardo Pereira

Nesses últimos três ou quatro anos de minha participação nas comunidades orkutianas de Tarô tenho deparado-me e, também, analisado taromanticamente as mais diversas questões de cunho afetivo. Essas contemplam desde as simples paqueras, “ficas” e um inúmero de potenciais amores e relacionamentos.

Nesse âmbito a maioria quer saber do Tarô as perspectivas do romance, ou seja, se “fulano” vai procurar ou ligar novamente para “beltrana” e vice-versa; ou se a dita relação superará o gosto da aventura e se estabelecerá em um possível namoro e, como não poderia deixar de ser, para os mais apressados ou afoitos, até em um casamento.

Um outro tipo de consulta, que mais chama a atenção por se constituir na maioria dos tópicos criados em minha comunidade “Tarô: Símbolos & Análises” é um que versa sobre o “amor-paixão mal resolvido”.

São tópicos e muitos posts sobre aqueles casamentos, noivados ou namoros em crise, recheados de traições, incompreensões, egoísmos, ansiedades, angústias, decepções, dores e rupturas.

Quase todos esses casos são analisados com bastante propriedade pelos participantes ativos na comunidade, os quais são quase unânimes em seus pareceres sobre essas relações preocupantemente falidas, desgastadas, à beira do fim e em suas orientações sobre a necessidade de mudanças de posturas conjuntas, compartilhadas e acordadas entre os casais em questão. Todos afirmam em coro: “se o casal não refletir junto, não aparar todas as arestas e firmarem interesses em comum, a relação chegará a um FIM.”

Um outro aspecto por mim percebido, e acredito que também por muitos, é a maneira, às vezes, um tanto incrédula, por parte de alguns consulentes, sobre tais prognósticos. Ora, se uma pessoa não acredita nas respostas do Tarô, então por que busca nele a satisfação de um desejo? A resposta é simples: é por conta, quase sempre, da esperança e da crença há tempos nutridas de se viver um grande e verdadeiro amor. E o Tarô, pode-lhes fornecer uma resposta positiva nesse sentido.

Por mais que há tempos se experiencie um relacionamento desgastado, malogrado, sempre existe aquele resquício de esperança de uma convivência melhor ou mais positiva com o ser amado, esperança essa típica daquela emanada pelo arcano maior “A Estrela”.

Sim, o “A Estrela” sugere esperança em tempos melhores, mas esses não nos vêm assim do nada, como em um passe de mágica, temos, sim, que batalhar por eles, fazer por merecê-los. É ai que entra a nossa parte na ação de mudança e, também, o esforço e a ação do outro nesse sentido, pois um relacionamento afetivo, evidentemente, não se faz apenas por uma das partes.

“Ora, isso que estou passando, essa crise afetiva, é apenas uma fase. Meu marido me ama e eu a ele. Se ele me trai com outra, é porque perdeu a cabeça, quando colocá-la de volta ao lugar certo, volta para me cobrir de amor, pois eu sim sou a mulher dele e nasci pra ele…”. Este é o pensamento da maioria das mulheres em crise conjugal e que buscam o Tarô com a esperança de verificar se existe uma luz no fim do túnel de sua decepção amorosa e que em seus prognósticos, às vezes, não acreditam.

Por que não acreditam? Pelo simples fato de não enxergarem que também possuem a sua parte de responsabilidade na situação que vivenciam de crise amorosa.

Desse modo, gostariam ansiosamente que o Tarô lhes mostrasse um futuro promissor no seu casamento desgastado ou na sua relação em crise, de preferência sem terem que mudar uma vírgula em seus comportamentos, visões da vida e dos outros com quem convivem.

Vê-se, claramente que o ego, nesses casos, fala mais alto, por isso não se dá “ouvidos” ao Tarô e as suas orientações. “Ora como assim, eu não sou uma mulher perfeita, dedicada dona de casa, mulher e mãe amorosa e cumpro direitinho com minhas obrigações matrimoniais?” Ai eu pergunto, será essa mesma a realidade? Penso que não, e o Tarô é bem claro quanto a isso em grande parte dessas consultas nessas comunidades orkutianas de Tarô. Será que não está faltando algo nessa relação e nessa mulher (ou vice-versa) que faz com que o amor de sua vida vá em busca do que lhe falta na rua ou em outra freguesia?

Um simples diálogo entre os conjuges ou o casal resolveria esse dilema ou conflito! Só que alguns não se permitem ao diálogo objetivo, para uma efetiva análise conjunta e compartilhada dos motivos ou das causas da crise da relação ou do comportamento inadequado do outro.

Muito pelo contrário, movidos pelo ciúmes e despeito, partem para o impaciente desrespeito ou desdém, um em relação ao outro, e algumas vezes para a traição propriamente dita.

Nesse contexto, o “amor-paixão mal resolvido” torna-se crônico, envolvido em um círculo vicioso de crises findadas com auxílio das juras de fidelidade, de amor eterno, do sexo casual, do usufruto carnal e do prazer sensual e iniciadas no próximo surto de desconfiança sobre o porquê de uma precipitada e impensada atitude do outro.

Observa-se, portanto, que esses exemplos são de experiências afetivas intensas e muitas delas trazem resquícios de relações muito antigas, dependentes, bem aos estilo daquelas relações sob a égide do arcano maior “O Diabo”, cujo “amor-paixão” não se esgotou totalmente.

Nesse enredo de crises, idas e vindas e muita dor de cotovelo, há sempre uma emergente crença de que, em um tempo provável, a crise será suplantada e tudo será superado em nome de fazer prevalecer o infinito desejo de vivência em uma história real de amor plenamente recíproco.

Nesse âmbito, expõe Furtado (2008):

Esse mito do amor recíproco, intenso, fiel, mas não consumado como união carnal, age ainda, com uma intensidade ora explícita, ora velada, mas sempre presente nos sonhos de amor ocidentais. Amar é, acima de tudo, experimentar a impossibilidade de uma união total, de um apagamento da alteridade e, mesmo sabendo dessa impossibilidade, amar o sofrimento da paixão não realizada.É exatamente esse apego ao sofrimento do amor-paixão não realizado que impede o protagonista de uma relação afetiva em crise, por algum tempo, de olhar para dentro de si mesmo e para fora também.

Uma fixação idealista, às vezes doentia, no outro faz com que um indivíduo perca a chance de deixar as suas pendências afetivas definitivamente resolvidas, pondo-lhes um fim. Ou de modo diferente, acabe deixando passar a oportunidade de viver a sua relação sob uma nova ótica e perspectiva mais positiva, após um acordo e com ambos cooperando para o sucesso do relacionamento. De outro modo, pelo fato, às vezes, de não estar nutrindo-se de amor-próprio, acabe ainda perdendo algumas oportunidades de novos relacionamentos.

Decerto que o “amor-paixão” deve ser vivido, explorado e amplamente gasto em todas as suas etapas, com todos os ingredientes que o fazem ser como ele é.

Se esse tipo de amor não é realmente gasto, até o seu esgotamento amplo e total, fica assim mesmo, mal resolvido, com um arsenal imenso de motivos para um sem números de tomadas de atitudes, muitas inclusive, para os envolvidos, sem explicações objetivas. São muitas idas e vindas, até que se esgote totalmente.

Até que esse tipo de amor realmente venha a exaurir-se, pondo um fim no relacionamento, lágrimas muitas são derramadas, deixando, para todos, tanto para os que chegam a dar um bem resolvido ponto final na relação, quanto para os que se permitem a uma nova chance, pelo menos o consolo de acesso a um vasto acervo de experiências e lições aprendidas.

De todo modo, o Tarô faz emergir as causas e desafios dos relacionamentos problemáticos, assim como orienta ao consulente a livrar-se de determinados prognósticos que não lhes são favoráveis.

Importante destacar, que essa coisa de resultados desfavoráveis indicados pelo Tarô podem e são muitas vezes, equivocademente, não levados em conta por quem consulta os arcanos, deles de forma lamentável desacreditando. Como desacreditam do Tarô por ele não lhes fornecer uma resposta que venha de encontro aos seus desejos egoícos, acabam lhe consultando para uma mesma questão com perguntas reformuladas incontáveis vezes.

Claro, o Tarô pode, com o uso de um outro método que vem a substituir aquele que inicialmente não “serviu”, até mudar os arcanos para responder a um mesmo problema, de um mesmo contexto, cuja pergunta também fora substituida ou reformulada pelo consulente com o intuito de ele destacar (o que não acontece) uma resposta mais positiva, mas contradizer-se, jamais! O Tarô, de fato, nunca se contradiz! Assim, só resta a decepção do consulente, que não enxerga que a causa do problema vivido ou está nele ou no outro, ou em ambos. E quando ele enxerga esse aspecto com a ajuda do tarô, nada quer fazer para tratá-la e eliminá-la. E, às vezes, já é tarde demais!

Salvar uma relação afetiva definitivamente o Tarô não salva! Ele pode até fornecer os indicativos de como isso poderá ser feito, mas só quem convive numa espécie de amizade-colorida, namoro, noivado, casamento do tipo amor-paixão em crise é quem tem o poder de salvá-lo e isso, caro leitor, é deixado muito claro, para o consulente atento, pelos arcanos do Tarô.

Se o consulente quer uma mudança, deseja evoluir de uma espécie de amor-paixão para um amor ideal e recíproco, se quer sair e superar a crise afetiva que lhe envolve, é preciso que lute com garra e ferozmente para efetivar as transformações necessárias e alcançar os objetivos amorosos-afetivos que tanto deseja.

Nesse âmbito, o Tarô aponta à necessidade de mudanças e de implementação de ações com esse fim e o tarólogo busca traduzir isso da melhor forma possível, buscando orientar e ajudar o consulente por meio de cada mensagem emitida pelos arcanos.

Por outro lado, durante a consulta ao Tarô é notória a falta de motivação para uma atuação efetiva do consulente e de seu parceiro no sentido de apararem todas as arestas da relação e de entrarem em um acordo. A cada fala ou discurso do consulente, mais fica evidente esse fato. E quanto mais isso é afirmado pelo tarólogo, mais o consulente fortalece o seu pensamento de que tudo não se passa de um equívoco de interpretação das mensagens simbólicas, sugerindo e implorando por repetitivas consultas ao Tarô.

E como o tempo passa e nada na complicação afetiva se soluciona ou se resolve, conforme fora projetado pelas mensagens arcânicas, o consulente retorna ao tarólogo porque uma das partes, acabou se cansando e decidindo, para o inconformismo e desespero da outra parte, por uma ruptura da tão antiga e desgastada relação, fechando-se mais uma vez um ciclo encarnado no arcano maior “A Roda da Fortuna”, podendo esse ciclo vicioso se repetir quantas vezes for necessário para o amadurecimento do casal e transmutação equilibradora da má energia que envolve a relação.

Por outro lado, quando o consulente resolve acreditar no Tarô, começa a empreender esforços no sentido de fazer com que o que está mal resolvido se resolva, fazendo retornar o equilíbrio do diálogo tão essencial à convivência, negociação e acordos harmoniosos entre o casal.

Dessa forma, materializa-se uma espécie de libertação e dependendo dos interesses em voga, ou o casal decide, em um clima de sintonia, por uma nova chance, ou opta, sem mágoas, pela oportunidade de cada um seguir o seu próprio caminho em busca de novas experiências e da oportunidade de se viver, segundo as suas crenças e esperança, sem a repetição dos padrões de mal-estar já superados, uma grande e verdadeira história de amor.

Não importando os atores e atrizes e o fim de uma história como essas, o Tarô sempre cumpre a sua parte, aberto sempre às outras tantas novas histórias, desvendando cada cena, nesse grande teatro que congrega e apresenta sem cessar essa grande comédia humana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FURTADO, José Luiz. Amor. Rio de Janeiro: Globo, 2008.

4 comments

  1. Lucia says:

    Oi Ricardo!

    Parabéns amigo, esse assunto é de suma importância e até corriqueiro nas comunidades de tarô.

    Procurar no tarô, por intermédio de várias consultas para a mesma questão e em curto espaço de tempo (dias) as respostas ideais, não se dando conta que sua felicidade não está nas mãos do outro e sim nas suas próprias.
    A consulente, chega ao cumulo de se colocar no papel da amante, abrindo o tarô, para saber como ela (a amante) esta perante essa situação com seu amor platônico.

    Chega a ser preocupante, o estado emocional e psicológico de pessoas assim.

    Bjs.

  2. Ricardo Pereira says:

    É Lúcia,

    Isso é uma grande verdade!

    Por outro lado, sabemos que o Tarô pode ajudar a essas pessoas, primeiro de tudo, a enxergar a si mesmas, a elevarem a estima, para depois sairem da dependência emocional do outro ou do padrão negativo comportamental que impacta na falência de seus relacionamentos.

    De duas formas, nesses casos, o consulente tem como conseguir a salvação do relacionamento com a ajuda do Tarô:

    1) pulando fora da "barca furada" da relação; ou
    2) mudando o paradigma, em comum acordo com o seu companheiro ou companheira, buscando harmonizarem os muitos aspectos que fazem uma relação afetiva, baseada no amor, equilibrada.

    Essa opção nº 2 é a mais desafiadora de todas, pois ambos precisam abrir mão de muita coisa para conseguirem salvar o casamento. Quem tem coragem, enfrenta o desafio!

    Grato pela participação,

    Bjos,

    Ricardo

  3. ESTRATÉGIA & AÇÃO says:

    Ricardo, ótimo artigo! Como faço leitura apenas para amigas e parentes, são inúmeras as consultas desse tipo que me fazem. Tem gente que quer que eu tire as cartas toda semana, mesmo quando a primeira análise é feita para três meses. Tenho que, pacientemente, explicar que não vai mudar em nada os prognósticos fazer uma segunda tiragem. Na única vez em que aceitei fazer uma segunda leitura, a mulher chorou tanto com o resultado que me arrependi de ter aceitado a proposta (vc viu lá na comunidade…)

    Vejo que muitas consulentes não aceitam que se tire um par de aconselhamento. A reação mais comum é não acreditar nas cartas ou, então, deixar o barco correr. Isso é triste, pois um aconselhamento poderia dar um diagnóstico das mudanças necessárias ou, pelo menos, mostrar que se deve parar de insistir no erro.

    Concordo, portanto, inteiramente na sua visão que, muitas mulheres não aceitam sua parcela de culpa na falência de seus relacionamentos.

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