A cobiça à luz dos arcanos: algumas possibilidades de interpretação

Por Ricardo Pereira

A Espada de Dâmocles (1812)
Richard Westall (1765-1836)
In Ackland Museum, USA

A cobiça é um sentimento de longo e amplo alcance, tanto teórico, quanto prático, o qual pode gerar inúmeros impactos, consequências e resultados de várias ordens.

Do conflito entre o ser e o ter nasceu a cobiça. Ela possui forte relação com a ambição, possuindo um elo firme com a ganância e com a avareza, não deixando de fazer algum tipo de vínculo com muitos outros sentimentos de sua mesma natureza ou que a ela são similares, seja por seus aspectos positivos ou negativos.

Conceitualmente, a cobiça pode ser entendida como o desejo ávido de possuir algo ou alguma coisa, em sentido amplo, abrangendo aspectos objetivos e subjetivos, materiais e imateriais, tangíveis ou intangíveis da vida mundana. Conforme Paiva (2001) “[…] cobiça é o desejo em geral, enquanto a lei o qualifica como o desejo imoderado de se possuir uma coisa.”

Até os tempos que precedem a invenção do dinheiro, na Idade de Ouro, segundo hipótese do filósofo inglês John Locke (1632-1704), não havia esforço para a geração de riquezas materiais e ampliação da propriedade e tudo era voltado tão somente para a manutenção da subsistência, portanto quase não havia espaço para a cobiça. Sobre esse fato, destaca Jorge Filho (1992):

Sob o aspecto mais estritamente econômico, as comunidades dessa época [a da Idade do Ouro] se caracterizam pela igualdade de seus membros, cujas pequenas propriedades situam-se aquém do nível das conveniências. O dinheiro ai é desconhecido, e não há esforço  pela ampliação da propriedade além do necessário à subsistência; tampouco se deseja estender os territórios através de conquistas. Não há manifestação relevante da cobiça; e muito menos o luxo.

Nesse sentido, esse desejo de possuir, obter, conquistar, atrair, ter, conseguir é tão antigo na História quanto se imagina, estando diretamente relacionado a questão do dinheiro, sendo sempre direcionado ao que pertence ao outro, independetemente da natureza ou do valor do objeto desejado, o qual pode ser uma simples competência ou qualidade intrínsecos a alguém, os quais inexistem naquele que cobiça.

“A cobiça é insaciável; para o cobiçoso, tudo é pouco”, afirmou o profeta. A cobiça tanto pode trazer coisas positivas, construtivas, ou negativas, destrutivas, tudo vai depender do direcionamento e instrumentos utilizados para o alcance do desejo.

No Tarô, o arcano menor 4 de Ouros é um representante objetivo da cobiça em seu sentido abrangente. Nele, encerra-se todos os aspectos que envolvem esse sentimento em suas muitas perspectivas positivas ou negativas, aplicando-se, todos eles, a quaisquer contextos investigados. Ele é também o acúmulo como resultado da soma da cobiça mais a avareza.

Ao surgir numa consulta, por exemplo, na qual o Tarólogo se utiliza do método europeu, com um arcano maior combinado a um menor, pode-se observar os diversos e amplos sentidos expressos pela cobiça nos planos material, mental, emocional e espiritual, sendo denotados pelo 4 de Ouros em situações vividas pelo consulente e que devem ser analisadas sob esse prisma.

Nesse contexto, podemos abstrair das combinações dos 22 arcanos maiores com um 4 de Ouros, muitos alcances e significações em uma consulta sobre esse tema, em determinadas situações, amplas ou específicas, experienciadas pelo consulente, levando-se em consideração os diferentes caminhos previstos pelo Tarô, baseado em idéia de Naiff (2008), trilhados por cada um dos 22 trunfos, cujas vibrações são as que seguem:

CAMINHO DA VONTADE

1 –  O Mago

Quando um 4 de Ouros surge ao lado de O Mago, o cobiçoso deseja ansiosamente apropriar-se dos méritos ou dos louros oriundos da ampla inteligência, do poder de criação e da notória e efetiva capacidade de convencimento do outro.

Ele não quer ser inteligente, por exemplo, como o outro, mas, deseja avidamente ser reconhecido, tornar-se célebre, seja lá pelo o que for, assim como uma outra pessoa, íntima sua ou não, foi, ou é. A inveja, aqui, pode ser um inicial fator motivador da própria cobiça.

2 – A Papisa

Nessa união de arcanos é destacado que possivelmente o desejo de cobiça é direcionado ao conhecimento e a sabedoria, em âmbitos específicos,  adquiridos pelo outro no decorrer de sua vida.

Informações privilegiadas e sigilosas podem também ser objetos de cobiça, as quais poderão ser perseguidas insistentemente pelo ambicioso, custe o que custar.

3 –  A Imperatriz

Aqui,  deseja-se possuir o que é esteticamente belo, fecundo do ponto de vista da materialização das coisas, valoroso, suntuoso, esplêndido e rico aos olhos do cobiçoso.

Nesse arcano maior, inicia-se as expressões arcânicas daquelas cobiças motivadas por fatores exclusivamente materiais,  por aspectos físicos ou corpóreos ou, ainda, pelos desejos da carne.

Tudo o que é relativo à matéria e aos bens terrenos nessa combinação de arcanos, denota os possíveis objetos de cobiça ou de desejo daquele que quer possuir avidamente algo.

4 – O Imperador

Caminho da Vontade
4 de Ouros (Radiant Waite Tarô)
O Mago; A Papisa; A Imperatriz; O Imperador e o Papa
(Tarô Dourado de Botticelli)
In http://www.albideuter.de

No âmbito desse maior, em conjunção a esse menor, expressa-se a vontade imoderada de poder, assim como o desejo explícito de se possuir impreterivelmente aquilo que é de propriedade alheia.

Todos os tipos de poder, posição, status, posses, bens materiais são desejados em instâncias humanas, individuais, coletivas e sociais. 

Desse modo, dependendo da fome de poder, assim como a paz, a guerra, ambos, em seus múltiplos alcances e sentidos, também podem ser o resultado da cobiça.

O apego ao desejo é marcante nessa combinação de arcanos ao ponto de o cobiçoso planejar cada passo a ser investido, utilizando-se de diferenciados meios, estratégias, políticas, nobres ou vís, rumo à conquista do objeto cobiçado.

5 – O Papa

Observa-se, na emergência desses dois arcanos, que o objeto da cobiça está exatamente naquilo que determinadas estruturas humanas e sociais reunem de competências e recursos a fim de atingirem metas e objetivos materiais em prol do social e do coletivo.

As conquistas, a visibilidade e o reconhecimento, os quais detêm certas instituições religiosas, jurídicas, governamentais, políticas, empresariais, educacionais e familiares, assim como os de seu líderes são os focos reais de cobiça quando surgem esses maior e menor 4 de Ouros numa consulta.

O emprego ou posição (cargo/função) do outro dentro de uma instituição ou empresa pode ser alvo da cobiça de alguém.

CAMINHO DO LIVRE-ARBÍTRIO

6 – Os Enamorados

Nessa combinação com o 4 de Ouros, o maior Os Enamorados remetem aos primeiros indícios arcânicos sobre a cobiça em sua forma de concupiscência, envolvendo, além do desejo material de todas as ordens, aos aspectos instrínsecos e que estão presentes nas relações interpessoais em geral: a luxúria, os prazeres sensuais e sexuais que levam aos desejos libidinosos e à cobiça em relação àqueles que fazem parte do círculo de relacionamentos de quem se cobiça algo ou alguém.

O prazer é buscado através do outro, o qual mantinha algum tipo de relacionamento com alguém conhecido do cobiçoso, um irmão, um amigo, um parente, um colega de trabalho etc. É possível, no entanto, que após materializar a sua conquista, dela abre mão, desistindo, muitas vezes, de aprofundar o relacionamento.

Caminho do Livre-arbítrio
Os Enamorados (Old English Tarô)
4 de Ouros (Morgan-Greer Tarô)
In http://www.albideuter.de

Por outro lado, poderá acontecer, também, de o cobiçoso conseguir, além de materializar o seu desejo, causar um conflito entre um casal, entre amigos ou um grupo e, consequentemente, uma ruptura, podendo aprofundar um relacionamento com àquele que outrora se constituia em seu objeto de cobiça, em alguns casos até  formando e formalizando parceria, em sentido amplo.

Em uma outras perspectiva, a dúvida em investir na pessoa cobiçada poderá o perseguir, ainda, por um bom tempo, depois dos “estragos” feitos nas vidas dos envolvidos. Todos, sem excessão, munidos do livre-arbítrio que lhes é peculiar, certamente, farão as suas devidas escolhas, seguindo, cada um, o seu caminho.

A cobiça “da” mulher ou “do” homem compromissado(a) com outra pessoa, poder ser um bom exemplo dessa combinação arcânica, ao expressar simbolicamente, numa consulta,  a possibilidade de concupiscência carnal.

CAMINHO DO PRAZER

7 – O Carro

Com esse maior, a cobiça, expressa pelo 4 de Ouros, é tão somente pelo êxito e popularidade do outro.

Todos os prazeres mundanos propiciados pelo êxito de alguém, são, aos olhos do cobiçoso, somente a extensão ou as consequências das capacidades e recursos pertencentes ao outro, os quais facilitaram-lhe a conquista do reconhecimento, da simpatia e da sua glória, portanto não lhe possuem atrativos algum, não importando, desse modo, como conseguirá essas  glória e sucesso emanentes do outro.

Nesse sentido, o cobiçoso, certamente se determinará e se empenhará para conseguir, tão somente, os mesmos recursos ou bens materiais que deseja do outro, pois neles está a fonte de prazer que alimentará a sua cobiça.

8 – A Justiça

O objeto de cobiça manifesto por essa  reunião arcânica é simplesmente a ordem e o equilíbrio, em vários domínios, que fazem-se presentes na vida do outro ou das instituições.

Como essa ordem e esse equilíbrio são os impulsionadores, dentre outros, de conquista de poder, de prosperidade e de projeção, passam a ser cobiçados veementemente, levando, dependendo de quem os deseja possui-los, a mais ordem e equilíbrio ou ao caos ou à destruição.

Devido a relação desse arcano maior com aspectos de ordem cármica, ele sugere, – não importando o resultado, fruto da cobiça -, as  necessidades de ajuste de contas, do reequilibrio dos carmas e da retomada da ordem.

Desse modo, não importando os contextos analisados,  a justiça,  no âmbito humano ou divino, prevalecerá, pois, deverá ser, necessária e  efetivamente, aplicada para que haja a justa reparação.

9 – O Eremita

Caminho do Prazer
4 de Ouros (Old English Tarô)
O Carro; A Justiça; O Eremita; A Roda da Fortuna e A Força
(Pictorial Key Tarô)
 In http://www.albideuter.de

A paz interior do eremita, a sabedoria advinda das suas experiências não só mundanas, mas, com o mesmo peso e medidas, das suas vivências  espirituais, mágico-iniciáticas, assim como a sua postura sem pressa e tranquilla diante as “verdades” do mundo do qual faz parte, são os fatores que alimentam a cobiça daqueles que  se aventuram na busca do autoconhecimento ou dos que almejam chegar ao topo das conquistas materiais por vias, equivocadamente, consideradas mais fáceis.

Ora, se o outro afirma que se autoconhece, eu também quero e vou me autoconhecer. Se desse modo, com o uso desses conhecimentos de si mesmo ele conquistou riquezas, eu também posso e vou conquistá-las fazendo, obviamente, o uso dos seus mesmos recursos.

Desse modo, o 4 de ouros significativamente reporta-se ao apego àquela cobiça, a de se adentrar nos muitos símbolos contidos no bojo desse arcano maior, de se explorar os seus incomensuráveis atributos no sentido de se obter, de seu mesmo modo, o que o outro já conquistou.

Tal pretensão, pode levar o indivíduo imprudente, – sedento por uma verdade, um conhecimento ou um saber cujo acesso não lhe foi permitido -, rumo a um caminho encantado e dominado por quimeras (muitas delas perigosas) pertencentes a alguns planos, os quais ele nem conhece e, por isso, não poderá dominá-los.

10 – A Roda da Fortuna

Aos olhos do cobiçoso a sorte, no sentido mais positivo do termo, do outro é o objeto do seu desejo.

“A sorte destinada a você será cobiçada pelo próximo”, afirmou Hermanubis certa vez, a um peregrino,  bem do alto de sua Roda da Fortuna …

A ascensão  e a supremacia inesperados do outro, em qualquer âmbito, também podem ser os objetos da cobiça; tanto que é possível ouvirmos determinadas pessoas expressarem, em susurros, a seguinte frase: “Ah, como eu gostaria de possuir essa mesma sorte!”

Por outro lado, quando o cobiçoso está sob os auspícios dessa combinação arcânica, aquilo ou aquele que é o alvo de sua cobiça poderá, às vezes, tornar-se o mais poderoso objeto de atração à sua má sorte ou para o seu mau destino, o qual é materializado na prática sob as mais variadas formas de azar ou, ainda, de situações conflitantes, constrangedoras e, sobretudo, drásticas.

11 – A Força

Nessa vinculação desse maior com o menor 4 de Ouros, fica bem clara que ao cobiçoso interessa a tomada e a posse da força de caráter do outro, da sua magnanimidade, paciência, generosidade, inteligência emocional e determinação, pois ele entende que  estas são a sua fortaleza, as bases que mantêm não só as suas emoções controladas, mas, também que propiciam as suas conquistas,  relacionamentos, posses e riquezas.

Vale salientar, que na mente desorientada daquele que cobiça tais qualidades do outro é, sempre, percebido que essas são as impulsionadoras de sua firmeza de propósitos; que são essas características os elementos que fornecem a energia para a sua  perseverança ou determinação em alcançar, em matéria ampla e  evolutiva, o que lhe é, apenas, prioritário e que, por consequência, irão permitir-lhe o triunfo e a manutenção do domínio sobre tudo e sobre todos.

Em um enfoque material e, também, afetivo-sexual, tudo que está em pleno domínio ou controle do outro, ou aquele que de sua vida faz parte, poderá se tornar o alvo do desejo e da ganância do cobiçoso, que busca sentir prazer através da apropriação indevida daquilo que sem escrúpulo algo tentará usurpar daquele que detém os seus alvos de cobiça.

CAMINHO DA DOR


12 – O Pendurado

No contexto do O Pendurado, a cobiça penetra a seara do campo da espiritualidade, ou seja, o que se quer do outro é a força de sua fé, de sua resignação diante à vida, do seu poder de renúncia de abrir mão, sem lamentos, dos aspectos materiais conquistados no sentido de vencer os desafios que ela apresenta, para a partir de uma nova visão traçar os novos rumos de sua própria trajetória mundana.

Desse modo, temos nessa combinação arcânica, o apego ao ego gerando a imobilidade e, por consequência, a cobiça.

Como o cobiçoso é apegado por demais à materialidade e aos seus desdobramentos, sofre por não conseguir alcançar o propósito de renunciar certas coisas, pessoas e aos aspectos que lhes são cômodos por uma simples questão de egoísmo e falta de fé na vida e nas novas oportunidades que ela pode proporcionar.

E, no entanto, vendo isso no outro, todo esse poder de renúncia e de fé na vida e os frutos que dele são gerados no outro, por exemplo, de contentamento, de alegria, da plenitude e da satisfação por ter feito a melhor escolha, passa a cobiçá-lo, de certa forma, em vão, pois não consegue travar uma luta contra si mesmo, contra o que considera valioso e que, de fato, não vislumbra abrir mão, temendo, de certo modo, acabar por se perder ou deixar de existir para o mundo e para os outros, em meio ao desaparecimento de seu próprio ego.

13 – A Morte

O alvo da cobiça nesse maior em companhia de um 4 de Ouros é o poder do outro de desapego, de atrair o novo em seu sentido positivo, de sempre estar aberto e se sentir merecedor de viver novas experiências sejam elas afetivas, intelectuais, profissionais ou espirituais.

A capacidade do outro em transformar as coisas e situações, na alegria ou na dor, em algo construtivo, de valor passa a corroer as idéias do cobiçoso, que a considera incrível, e a quer para si também, essa qualidade que o outro possui de colocar as coisas, situações e pessoas nos lugares certos.

O poder que o outro tem de tornar claras as sua  prioridades de vida, galgando com sucesso cada passo planejado passa a ser objeto de cobiça daqueles que não sabem ou estabelecem os seus próprios caminhos ou dos que se sentem incapazes de promover as mudanças necessárias a saída de suas faltas de progresso, de transformar os marasmos de suas existências em  algo de valor, de viverem novas experiências livrando-se de seus apegos ou conquistas.

O martírio do cobiçoso, nesse caso, é o de sempre achar difícil se apoderar daquilo que cobiça no outro, pois como tem sempre a ânsia de acumular conquistas, pode ser terrível pra ele ter que abrir mão de algo ou de alguém em nome de algum tipo de transformação advinda daquilo que cobiça. Que nada! O cobiçoso vai correr atrás do reconhecimento que precisa de que também possui as mesmas qualidades do outro, fria e implacavelmente cortando, decepando tudo o que encontra pelo caminho para, assim, conseguir o que quer, para obter o que, do outro, cobiça…

O interessante nessa combinação de maior e menor é que contemplamos o conflito arcânico entre o desapego denotado no arcano maior A Morte e o do puro apego, refletido no menor 4 de Ouros, o qual transmite a imagem do acúmulo, o qual também é resultado da própria cobiça. Desapego e apego em confronto em pleno campo de batalha. Que ensinamento e aprendizado se poderá tirar dessa experiência?

14 – A Temperança

Caminho da Dor
4 de Ouros (Fenestra Tarô)
O Pendurado; A Morte; A Temperança; O Diabo e A Torre
(Golden Dawn Tarô)
In http://www.albideuter.de

A harmonia e a paz do outro é o desejo do cobiçoso.

Uma postura harmoniosa e pacificadora de fato não condiz com o perfil daquele que cobiça. Este para conseguir o que quer precisa passar por situações de turbulências, por tumultos, diferentemente daqueles que conseguem tudo na medida certa, uma vida realizada por meio de atitudes ponderadas.

Dosar bem as coisas realmente não é atributo de quem é movido pela cobiça.

O apego faz do cobiçoso um ser parcimonioso, econômico, um poupador “temperante” mas isso é refletido de forma negativa. É o apego pelo apego. É o desejo de acúmulo falando mais alto, atingindo a avareza patológica transmitida no 4 de Ouros.

Ele enxerga no outro um quê de harmonia e paz que atraem o sucesso, a prosperidade, a riqueza e os bons relacionamentos e é essa harmonia que ele quer, é essa paz transmitida pelo outro o objeto de sua cobiça.

De outro modo, ele pode também desejar a harmonia e paz daquele que sem riqueza material, sem grandes patrimônios e nem sendo detentor de grande posições consegue viver uma vida em equilíbrio, mantendo relações saudáveis, sendo tais conquistas a manifestação de seus sucessos, de seu poder e tudo isso ele, o cobiçoso, também deseja para si.

Dessa forma, ele quer entender o mecanismo dessa realidade no outro. O tempo que ele leva para alcançar os seus objetivos. Ora, como se pode ter sucesso e riquezas sem desequilíbrios ou conflitos, isso é possível? Como é possível ser rico, próspero e se estar em paz consigo mesmo? Como é possível se ter harmonia e paz sem dinheiro e poder? Como é possível temperar PODER, com paz e harmonia? “Preciso saber, ser e ter isso também!” Esse é o pensamento do cobiçoso, ou o alimento para a sua próxima conquista.

15 – O Diabo

O “diabo da cobiça” ou a “cobiça do diabo”. Qual a diferença? Na Bíblia, em Tiago cap. 1, vers. 14 é afirmado “[…] cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz.”

O “diabo da cobiça” é o que leva o cobiçoso a desejar tudo o que o outro possui. É a máxima da concupiscência em termos materiais e do apetite sexual.

Se apoderar das riquezas, em todos os sentidos, do outro, sejam essas físicas, mentais, afetivas ou sexuais, pode levar o cobiçoso a cometer desvarios a fim de conseguir o que quer ou deseja do outro, para depois submetê-lo aos seus caprichos, fazendo dele um ser servil, quase um escravo para o seu deleite.

Riqueza espiritual, nesse maior com esse 4 de Ouros, também pode ser objeto de cobiça, embora a conotação sexual da cobiça nessa combinação arcânica seja bem mais forte.

Aspectos espirituais e das crenças de cada um em nível religioso são bem marcantes nessa combinação arcanânica, pois remete ao mundo das tentações insufladas pela “cobiça do diabo”, a qual alimenta no ser humano a sua ambição por poder, por reter, controlar e usar (no sentido negativo da palavra)  e que faz o cobiçoso lançar mão até da magia negra para conseguir o seu intento.

Resistir, no caminho da dor,  às tentações, à força perniciosa das paixões, do desejo é o desafio! É também o conselho dessa dupla de arcanos.

16 – A Torre

O impulso para uma Nova Consciência. O poder de superação e reconstrução do outro é aqui o objeto de cobiça.

O simples fato do outro quebar paradigmas, inovar, renovar em cima dos destroços de suas próprias torres, torna-se algo maravilhoso, fantástico aos olhos do cobiçoso.

“Poxa, fulano superou à perda de seu patrimônio e já está construindo tudo de novo! Queria eu ser assim também, ter esse poder e força interior que ele possui!”

É com esse pensamento que o cobiçoso irá planejar os seus próximos passos para tirar do outro as suas novas estruturas e possivelmente conseguirá, caso o outro não se atente que por baixo dos escombros de uma torre, podem surgir certamente alguns perigos, dentre eles certos delírios, ilusões e enganos tão comuns aos recomeços.

CAMINHO DA ESPERANÇA

17 – A Estrela

Aqui, o objeto de cobiça é  a maior força do outro: a Esperança.

Interessante, é que o fator desejo tanto se encontra na esperança, quanto na cobiça mas, de modos bem diferentes, principalmente nessa combinação entre o arcano maior A Estrela mais o menor 4 de Ouros.

Caminho da Esperança
4 de Ouros (Tarô Dourado de Botticelli)
A Estrela (Ancient Italien Tarô)
In http://www.albideuter.de

No primeiro, o objeto é direcionado para o bem, para uma visão de conquista futura que só será conseguida por meio de uma construção árdua e não através de algo presente conquistado com facilidade. A esperança sempe traz em si a necessidade de se fazer por onde algo possa ser conquistado, sugerindo esforço.

Na segunda, o cobiçoso possui foco no objeto presente, resguardando-se, fortalecendo-se e utilizando-se do irascível para conquistá-lo.

O que agora ou hoje pertence ao outro, em comparação ao que o cobiçoso possui, poderá e deverá, a qualquer custo, ser um objeto seu também no futuro,  pois, aos seus olhos, parece ser muito melhor, muito maior porque foi fruto de um esforço mental ou físico que ele não tem condições de empreender.

Desse modo, o cobiçoso parte para a conquista, de preferência sem ter algum trabalho ou dispêndio de esforço, daquilo que o esperançoso vislumbra no futuro, para o seu futuro e que será certamente o resultado de seu trabalho árduo, dificultoso. O prazer do dever cumprido, de uma nova conquista do outro por seu próprio mérito será também um dos objetos da avidez do cobiçoso.

Quando as novas conquistas do outro já estiverem em suas mãos, como o cobiçoso não quer fazer esforço algum, como fez o outro, para obtê-las, ele dará o seu jeito sorrateiro de pelos menos delas tirar algum proveito. E o curioso é que o outro sempre sabe, é consciente dessa possibilidade latente em alguns que estão a sua volta.

CAMINHO DA EVOLUÇÃO

18 – A Lua

O poder de criar, de fecundar e de materializar as coisas, de atingir os objetivos até o alcance da prosperidade é o objeto, aqui, de cobiça.

A estratégia do cobiçoso nessa combinação de arcanos, A Lua mais o 4 de Ouros, é a de se ocultar a cobiça através da fraude, levando o outro ao engano até se conseguir o que é dele.

Nesse contexto, a manipulação de informações pelo cobiçoso faz o outro geralmente cair em ciladas, implementadas por ele em nome da satisfação de seus desejos desmesurados de possuir o que pertence ao outro.

Se você vive uma paixão, ele vai desejá-la; se alguém o ama, ele também vai cobiçar esse amor; se você está rico, ele cobiçará a sua riqueza; se você possui o poder de ter conseguido tudo isso, ele fará tudo para ter esse seu mesmo poder e assim por diante.

De modo algum se pode confiar em alguém sob a influência desses dois arcanos, principalmente se esse alguém é de fato aquela pessoa que você sabe que deseja exageradamente aquilo que é seu, ou seja, cobiça o seu marido, a sua esposa, o seu namorado, a sua namorada, a sua amante, o seu amante, a sua casa, o seu carro, a sua empregada, o seu dinheiro, o seu emprego, a sua empresa, os seus filhos, os seus amigos, a sua vida.

Ele quer o que é seu e ainda ofuscar o seu brilho, podendo, também, utilizar-se de magia na ânsia de se apoderar daquilo que lhe pertence ou que é objeto de sua cobiça.  É correto afirmar que, na verdade, o que ele quer mesmo é se aproveitar de suas fraquezas para tomar o que é seu.

19 – O Sol

A combinação do 4 de Ouros com esse maior O Sol denota que a vitalidade, disposição, inteligência, visão prática, clara, estratégica e focada no alcance de resultados que levam ao sucesso pleno e à fama são os objetos de cobiça.

O sucesso do outro, por menor que seja, em qualquer área ou aspecto passa a ser cobiçado ao ponto de cegar aquele que cobiça, que não mede esforços e nem consequência para usurpar as conquistas ou o mérito daquele que possui o objeto de sua cobiça.

Aqui, fica muito claro, perceptível que alguém cobiça o sucesso dos outros e que isso lhe incomoda profundamente a ponto de lhe fazer mal, apegando-se à estratagemas que lhes queimam o cérebro no sentido de se apoderar daquilo que pode ter levado à glória alheia.

De fato, deseja as coisas que estão além de suas posses ou de seu controle ou de sua competência.

Na verdade, o cobiçoso, nessa combinção arcânica, procura adquirir fama e reconhecimento, apagando ou anulando o sucesso do outro, para satisfazer seus orgulho e vaidade.

20 – O Julgamento

Caminho da Evolução
4 de Ouros (Medieval Tarô)
A Lua; O Sol; O Julgamento; O Mundo e O Louco
(Ancient Italien Tarô)
In http://www.albideuter.de

O foco da cobiça na combinação do 4 de Ouros com esse maior é exatamente aquilo que foi resgatado,  renovou-se, que está sendo tratado sob uma nova abordagem pelo outro e que, por isso, vem dando certo.

O poder do outro de reconstruir-se é avaliado pelo cobiçoso como algo de muito valor, um recurso de muita vantagem do outro sobre ele. Nele, tal disposição não se manifesta e ele sofre, não aceitando no outro a sua capacidade de recomeçar do zero a cada novo desafio e ainda por cima conseguir bons resultados através de suas mudanças de rotas e de atitudes.

Os triunfos conseguidos a partir da capacidade do outro de alterar planos e de inovar processos, modos de fazer, de agir e de reorganizar projetos profissionais e de vida , nessa combinação arcânica, passam a ser também  objetos de sua cobiça.

21 – O Mundo

Aqui é a cobiça sem limites! É a soma das várias formas do como se pode cobiçar o que é dos outros.

Todas as formas de cobiça e dos elementos envolvidos nos demais arcanos se aglutinam nessa combinação arcânica do 4 de Ouros mais o arcano maior O Mundo.

Nesse sentido, tudo o que é acúmulo do outro é cobiçado de forma indiscreta e excessiva. O mundo do outro e os seus domínios são os objetos do desmedido desejo, da cobiça do ambicioso.

Como o outro obteve sucesso, vive uma vida plena, harmoniosa, equilibrada, digna e feliz com familiares e amigos, possui reconhecimento de suas conquistas, fama e dinheiro como consequência da conclusão de seus empreendimentos, o cobiçoso passa a querer se apropriar, desesperadamente, de tudo isso que ele enxerga no outro e, que sabe, é incapaz de conseguir.

Nesse contexto, o cobiçoso, mesmo que tenha acumulado já muitas riquezas materiais na vida, não mede as consequências para atingir o  objetivo de usurpar aquilo que é foco do seu desejo de ainda possuir, o qual, nessa combinação arcânica, nunca é o bastante, pois aquele que cobiça irá sempre querer mais e mais, dependendo disso tudo no sentido de alimentar e manter a sua autoestima, segurança e desejo de acúmulo, sua voracidade por uma liberdade e prazer que só o poder de reter o que é do outro, segundo os seus pensamentos, poderá lhe garantir.

22 – O Louco

Essa combinação de arcanos surge quando  a cobiça é dirigida ao estado de regozijo de alguém.

A satisfação do outro, a sua alegria e contentamento diante da vida, tornam-se o alvo do desejo daquele que a tudo isso cobiça, podendo, este, sem escrúpulo algum, e sem medir as consequências, tirar do outro a fonte de sua satisfação, a causa de sua alegria.

Em um sentido mais positivo, pode fazer algo que aos olhos dos outros denotem que possui, também,  uma alegria ou satisfação comum àqueles que são alvo de sua cobiça.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tio Patinhas
In http://www.dreamule.org

A partir do caminho da vontade, chegando até o caminho da evolução é observado que os 22 arcanos maiores do Tarô, combinados ao arcano menor 4 de Ouros, vibram de modos diferenciados, emanando suas simbólicas e expressando as suas falas sobre a cobiça de formas significativamente profunda, exprimindo algumas evidências comportamentais marcantes nos seres humanos, hedonistas ou não, que permitem que os desejos, muitas vezes “proibidos”, os dominem e os contaminem no sentido de empreenderem uma ansiosa e ardente procura desmedida por satisfação e prazer. Seria natural isso no ser humano?

Nesse cenário, surge uma outra questão: quem algum dia, não cobiçou nadar numa piscina de dinheiro como o Tio Patinhas?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Trad. de Padre Antônio Pereira de Figueredo. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica, 1980. Edição Ecumênica.

JORGE FILHO, Edgard José. Moral e história em John Locke. São Paulo: Loyola, 1992.

NAIFF, Nei. Curso completo de Tarô. Rio de Janeiro: Nova Era , 2008.

PAIVA, Geraldo José de. Entre necessidade e desejo. São Paulo: Loyola, 2001.

2 comments

  1. Senhor da Vida says:

    Um excelente texto, de fato se a gente avaliar cada passagem muito bem detalhada, veremos que pra cobiçar o proximo é muito facil, basta que deixemos de nos olhar como ser capaz de ser, ter, e conhecer qualquer coisa por meritos proprios, entendendo que cada um possui ferramentas uteis no contexto geral.Parabens e bom fim de semana!

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