Arcanos de ilusão: por mais consciência e menos ignorância em 2011

“Ilusão de Ótica 1”
In Imagens Google, 2010
Por Ricardo Pereira

E o que eu percebo do outro em relação a  mim faz sentido, é real? Ou, tudo não passa de uma coisa idealizada, sonhada e tão profundamente desejada? E quanto a mim ou sobre a minha pessoa, o que percebo e conheço são realmente reais ou não estaria, eu, alimentando-me com a ilusão de uma imagem idealizada de mim mesmo?

Alguns procuram o Tarô no sentido de conseguirem distinguir e de se certificarem se o que estão percebendo e vivenciando é real ou não passa de ilusão.

Geralmente, trata-se de consultas de cunho afetivo, em sua maioria, mas, também surgem casos de relações entre chefes e subordinados, principalmente referentes às formas ou modos comportamentais do chefe em relação ao subordinado, os quais chegam a confundir o segundo, propiciando-lhe o engano, o equívoco de interpretação, a precipitação de julgamentos e o consequente erro de avaliação, coisas do tipo: “ora, meu chefe é poderoso, além disso é apaixonado por mim, sabe de minhas virtudes, competência, logo logo irá me promover…” Mas, quais são as mais autênticas intenções do outro em relação a mim? Por que fulano deseja tanto algo ou alguém que prezo ou amo? Por que que fulano, que é tão a fim de mim, não se declara?

A idéia de ilusão é datada do século XV e surgiu do latim, “illusio”, a fim de denotar situações de “ironia, objeto de zombaria; engano”. Geralmente o termo era utilizado ou aplicado no plano do discurso, destacando-se o esforço de se passar um outro entendimento daquilo que era escrito ou falado por alguém.

O âmbito da ilusão se caracteriza exatamente pelo fenômeno da confusão dos sentidos, da distorção da razão daquilo que é percebido, sentido, desejado, vivenciado, sendo isso na taromancia efetivamente denunciado por alguns arcanos.

No Tarô, arcanos maiores como o A Lua e O Diabo tratam de forma ampla e, às vezes, focada o tema da ilusão.

A Lua e o Diabo, do Da Vinci Tarot, de Ghiuselev Iassen e Atanas A. Atanassov, 2006
7 de Copas, do Paris Tarot, de J. Phillip Thomas, 2000-09

O arcano menor 7 de Copas, trata essencialmente do assunto, da ilusão causada por aquilo que observamos ou por aqueles com quem convivemos, prognosticando para um futuro vivências simplesmente baseadas no autoengano, em ilusões autoimpostas, as quais acabam se tornanando o combustível que faz algumas pessoas seguirem em frente, por trajetórias compostas, às vezes, de regiões pantanosas ou de areias movediças.

7 de Copas
Pictorial Key Tarot
Davide Corsi, 2007

Todos esses arcanos atuam, dentre outras formas, fortemente desnudando os valores e as crenças, as quais constituem-se em verdadeiras fontes disponibilizadoras dos recursos utilizados pela mente humana para a manifestação e estruturação de realidades subjetivas enganosas ou para os mais diversos tipos de ilusões que alimentam o mundo dos desejos e das aparências.

Para quem possui apreço em viver de sonhos e a se iludir, a emergências desses arcanos é pontual na taromancia, cada um destacando energias diferenciadas de impacto sobre as pessoas e os seus devidos contextos vividos.

Nesse sentido, esses três arcanos sugerem a necessidade do uso do discernimento e do pragmatismo como instrumentos de esquiva daquilo que não é real, concreto do ponto de vista da razão.

Importante observar que, geralmente, a ilusão vem acompanhada da decepção. De uma decepção causada quando o crédulo depara-se com a mais nua realidade, observando, desse modo, os seus desejos despedaçarem-se ao simples choque contra ela.

O maior O Diabo é o “pai das ilusões”, o A Lua é a “mãe” e o arcano menor “7 de Copas” é o “filho” ou o produto aquoso desse par de arcanos maiores complementares. Pode-se resumir o conjunto desses três arcanos com uma simples frase: “as coisas ou as pessoas não são sempre o que parecem ser”.

De acordo com Morano (2003) o preço que se paga com a ilusão que se experencia é o da insinceridade e quando ela é durrubada é o da desilusão.

“Ilusão de Ótica 2”
In Google Imagens, 2010

Tudo isso porque o investimento na ilusão é pregado em nome da busca de prazeres e da satisfação de desejos que não levam em consideração os limites da realidade, ou seja, das intenções e motivações concretas. Certamente, diria Kant (apud Ferrater-Mora, 2001)” […] a verdade ou a ilusão não estão no objeto mas no juízo que se faz sobre ele”.

É deveras salutar, alguns pensarão, refletir nesse final de ano sobre cada uma dessas frases, até mesmo porque chegou o final de 2010, e nada como lançar mão de uma análise eremítica de cada parte de nossos desejos e ações (não-realizados e realizados) nesse ano, ingerindo-os, assimilando-os, introjetando-os, tornando-os conscientes, empreendendo uma viagem objetiva em busca de uma percepção bem mais realista do mundo e dos semelhantes com quem, indireta ou diretamente, interage-se no sentido de se chegar em 2001 com a consciência daquilo que é ou não prioritário, ou do que vale ou não à pena investir.

Feliz 2011, com mais consciência, menos ignorância e menos ilusão!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORANO, Carlos Domingues. Crer depois de Freud. Rio de Janeiro: Loyola, 2003.

FERRATER-MORA, José. Dicionário de filosofia. São Paulo: loyola, 2001. V. 2.

2 comments

  1. Cris de Sales Lobato says:

    Maravilhoso texto, Ricardo! Adorei a "familia ilusionista" papai, mamãe e filhinho! 🙂
    Talvez a maior causa de conflitos nos relacionamentos seja o não ver o outro como ele realmente é ou, viver na enorme ilusão de que o outro mude e seja como a gente gostaria que fosse. Nunca acontecerá!
    Tentar ver o outro sem máscaras é um grande desafio de aprender a relacionar-se de forma mais madura.
    O Tarô atraves dessas cartas pode dar uma orientação maravilhosa, sem dúvida. O problema é que muitas vezes o tarô sinaliza – e de forma repetitiva – mas ainda assim, a pessoa não quer ver!

    Beijinhos, amigo.

  2. Ricardo Pereira says:

    Oi Cris,

    Bom tê-la mais uma vez comentando um artigo de minha autoria.

    É isso mesmo, o Tarô sempre destaca situações que vão muito além do que os nossos olhos se permitem a ver.

    O problema realmente é como vemos e percebemos as coisas: sempre ao nosso modo, ao modo que idealizamos …

    Um beijo bem grandão e grato por opinar,

    Ricardo

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