O conto do soldado inglês e a glória das cartas de jogar

Por Ricardo Pereira
Associações variadas, desde muito antes dos tempos de Court de Gebelin (1719-1784), são direcionadas ao controverso baralho ou cartas de jogar.

“Militares Britânicos do Século XIX”
By Henrique Meyer
Em pleno século XIX tal atividade de associar as cartas do baralho a significados ocultos é reforçada, dentre outros fatores motivadores, pela conto ou história popular de Inglaterra denominado de “O almanaque do soldado, a bíblia ou o livro de orações”.

Reza a história que um soldado chamado Richard Middleton, em uma igreja cristã católica em Glasgow, Escócia, durante a missa, ao invés de ler um livro de orações ou a bíblia, como os demais soldados, abrira a sua frente um conjunto de cartas de jogar, sendo esse procedimento, pelo padre e pelo sargento, considerado uma grave ofensa, sendo, naquele momento, por seu superior advertido para que saisse da igreja e dele se livrasse.

Como Middleton fez “ouvidos de mercador”, desobedecendo-o foi preso e levado para o principal magistrado da cidade para ser rigorosamente punido, pois tal ato fora considerado grave ofensa à igreja e aos crentes, ou seja, um crime mais no âmbito civil, do que no militar.

Chegando ao encontro com o magistrado ou juiz, fora indagado-lhe, por essa autoridade do lugar,  o porquê de tão irreverente e escandalosa atitude, sendo-lhe exigido, segundo Castilho e Cordeiro (1864) uma justificativa cabível e convincente sob pena de ser-lhe aplicadas sentença e punição rigorosas.

“Os 4 ases de um baralho padrão catalão”
By Heraclio Fournier
Vitoria, Espanha, 1868

O soldado retirou de sua pequena algibeira o baralho, afirmando categoricamente que o objeto era a sua “bíblia”, e lançou-se na seguinte defesa, mostrando-lhe inicialmente a carta do Às:

Senhor juiz, quando olho para esse Às lembro-me de que existe um só Deus; quando vejo o duque ou o terno, lembro-me das figuras do Pai e do Filho, ou melhor, do Pai, do Filho e do Espírito Santo; os quatro fazem-me pensar nos quatro santos evangelistas, São Marcos, São Lucas, São Matheus, e São João; quando olho para os cinco, penso nas cinco virgens sábias, que ministravam o óleo à santa lâmpada; os seis dizem-me que em seis dias Deus criou o mundo e os sete, que no sétimo dia Ele descansou; os oito fazem-me recordar que foram oito as pessoas virtuosas que se salvaram do dilúvio: Noé e a sua mulher, os seus três filhos e as suas esposas; os nove, os nove leprosos purificados pelo nosso Salvador; quando vejo os dez, recordo-me dos dez mandamentos da Lei de Deus; a dama, faz-me referência à Rainha de Sabá, que emergiu das extremidades da terra para admirar a sabedoria de Salomão; o rei recorda-me o Rei do Céu, mas também o nosso monarca Jorge III. Por outro lado, quando conto o número de pontos que há nas cartas acho 365, tantos como os dias do ano; quando conto o número de cartas encontro o número 52 e 52 é o número de semanas do ano; quando conto as figuras encontro 12 e é este justamente o número de meses. Desse modo, um baralho de cartas é ao mesmo tempo pra mim uma bíblia, uma almanaque e um livro de orações.

Depois de toda essa exposição e associações das cartas de jogar aos personagens da bíblia, o juiz intrigado e já satisfeito e, ainda, não menos curioso, quis saber o porquê de o soldado ter deixado de fazer a associação do valete a alguma outra personagem ou passagem do Livro Sagrado.


O soldado então foi lhe imperativo: “Se o senhor prometer comigo não se zangar, darei-lhe a explicação dessa carta tão justa como o fiz com as outras.” “Pois bem, fale-me, que não me zangarei”, prometeu-lhe o magistrado. Disse-lhe então Richard Middleton: “os valetes são todos uns tratantes e o mais tratante deles foi esse sargento que me trouxe até a vossa presença.”

Cartas da Corte
Rei (R); Dama (D); Valete (V)
Baralho Francês, padrão parisiense do Século XIX
Inspirou o Baralho padrão Anglo-americano
By Camoin (1960?)

A versão original desse conto destaca que o soldado glorificador das cartas de jogar foi absolvido, outras vão além, afirmando que Middleton além de absolvido fora promovido a sargento, substituindo o seu ex-comandante.


Na versão desse conto exibida pela emissora de televisão The History Channel, “Decifrando o Passado: O Segredo das Cartas de Baralho”, de 2008, observa-se   a cena na qual o ator que faz o soldado do conto popular está em  uma igreja católica  européia diante de um padre abismado, explicando-lhe o porquê de considerar as cartas de um baralho a sua bíblia.Vejam abaixo o vídeo da The History Channel.

Às de Espadas
do Baralho Catalão
usado no documentário

Nesse documentário ele faz a mesma abordagem com algumas associações das cartas aqui já descritas, ou seja, do mesmo modo como ele as fez, conforme está descrito no conto, com exceção das dos números 8, 9 e 10, da Dama e, claro, do valete, os quais não são mencionados.


Nesse documentário da The History Channel é visível o erro cometido quanto a escolha do baralho a ser utilizado pelo ator, o qual fez a personagem do soldado. Na cena ele usa um baralho de padrão catalão, descendente direto do baralho espanhol criado pelo fabricante Pere Rotxoxo no século XVII, o qual traz a representação dos cavaleiros no grupo de cartas da corte.

Baralho Francês
padrão do século XIX
Cambrai, norte da França
1950(?)

É importante destacar, que o baralho utilizado por esse soldado inglês do século XIX, neste conto possivelmente original, não continha a figura do cavaleiro; como a Inglaterra não possuia um baralho de fabricação própria, podia ser um baralho francês ou de um seu descendente como o anglo-americano, com Valetes (V-J), Damas ou Rainhas (D-Q) e Reis (R-K).


Vale salientar, que tais modelos foram adotados no Ocidente a partir do século XIX, exatamente na época em que o conto ou  a história do “soldado jogador” foi escrita, disseminando-se em forma de lenda pela Europa moderna, tornando-se então, as cartas anglo-americanas, o baralho padrão utilizado pelos jogadores que apostam nas mesas de carteado e, também, dos utilizados pelos cartomantes na cartomancia popular,  os quais fazem uso desse tipo de deck, até os dias de hoje, em quase todo o mundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTILHO, Alexandre Magno de; CORDEIRO, Antonio Xavier Rodrigues. Almanach de lembranças luso-brazileiro. Lisboa: Typographia da Sociedade Typographica Franco-portugueza, 1864.

THE HISTORY CHANNEL. Decifrando o passado: o segredo das cartas de baralho. USA, New York: A & E Home Video, 2008. (Documentário. Color, DVD, NTSC).

Licença Creative Commons
A obra O conto do soldado inglês e a glória das cartas de jogar, de Ricardo Pereira, foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Brasil.
Com base na obra disponível em www.substractumtarot.com.

4 comments

  1. Ricardo Pereira says:

    Oi Emanuel,

    Grato por sua participação!

    Tomara mesmo que os meus textos, não só esse, sejam espécies de ferramentas motivadoras de novos artigos e pesquisas sérias em Tarô e em cartomancia. Tenho certeza que os estudantes irão curtir muito e agradecer …

    Grande abraço,

    Ricardo

Comments are closed.