Autoleitura de Tarô: o ato efetivo e eficaz de se praticar a taromancia para si mesmo

Por Ricardo Pereira
Tenho recebido muitos “e-mails” de tarólogos, alunos e de leitores de meu Blog  solicitando-me técnicas ou dicas  de como se praticar leituras de Tarô eficazes para si mesmos.

“Leitura de Si Mesmo”
Autor Desconhecido
In: Google.com [s. d].

Geralmente, as pessoas que me procuram trazem consigo questionamentos do tipo, “por que sei ler o Tarô para as minhas amigas, meu marido, meu clientes etc e não sei para mim?” “Por que não fico tão envolvido psicologicamente no contexto e influenciado por ele quando tiro as cartas pra mim mesmo?”


Conheço profissionais do Tarô que concordam com essa prática de se ler o Tarô e outros oráculos para si mesmo, e outros quem nem de longe enveredam por essa atividade. Os motivos? São bem variados, vão desde um sentimento de incapacidade de se entender as mensagens arcânicas para si mesmos ou do apego à crença de que o Tarô só dá respostas efetivas a terceiros ou aos consulentes que procuram o tarólogo.

De fato, é possível observar o quanto pode ser complicado se buscar formas objetivas de interpretação dos arcanos para si mesmo, principalmente quando o tarólogo ou estudante envereda pela efetivação de análises taromânticas de problemáticas ou experiências pessoais, assim como de determinados comportamentos, valores, visões da vida e do mundo habituais tendo que se preocupar com um fator importantíssimo da autoleitura de Tarô: o uso de imparcialidade.

A imparcialidade é o “mago negro” da leitura de Tarô para si mesmo. É ela quem faz o autoleitor se guiar por vários tipos de ilusões e cair em diversos tipos de armadilhas.

“Tarólogo em Autoleitura”
Autor Desconhecido
In:  http://www.123rf.com [s. d].

Por outro lado, parece-me, que analisar taromanticamente a vida de outras pessoas, nesse âmbito, pode ser bem mais fácil, prático, objetivo e por isso a maioria prefere ler o Tarô para os outros e quando necessário investem em uma consulta a um tarólogo ou insistem por uma troca de consultas, pois é mais em conta.

Isentar-se de uma autoanálise desinteressada durante o processo de leitura do Tarô para si mesmo  demanda o providencial desligamento do próprio ego. É muito difícil para determinadas pessoas abrirem mão dos autojulgamentos, alguns imaginários, do tipo: “eu sou isso!”, “eu sou aquilo!”, “eu sou o máximo!” etc, principalmente quando o Tarô aponta para uma visão contrária à tal realidade.

Florence Lee [cartomante? americana?]
fazendo sua autoleitura com o “baralho comum”
In: Biblioteca do Congresso dos EUA, [s. d].

Na autoleitura do Tarô temos também uma espécie de psicoterapia, que demanda certos olhares para si mesmo, ação essa que denota a necessidade de se tomar como último objeto de reflexão a trajetória  de si no mundo e com isso objetivar a si mesmo como agente ativo ou passivo para compreender-se a partir de conceitos, valores e visões de mundo bem próprios. Será que a visão que se tem de si mesmo condiz com o que se é de fato?

De uma forma mais simples, a autoleitura de Tarô requer no mínimo do autoleitor dos arcanos uma percepção clara, realista de si, do outro e da experiência vivida, deixando o Tarô, nesse contexto, fazer a sua parte, ou seja, retificar as falsas impressões, dirimir dúvidas, ratificar a verdade e orientar-lhe os passos por um caminho de autoconhecimento e de transformação.

Sobre esse assunto discorre a taróloga americana Mary K. Greer em seu livro “Tarot for Your Self : A Workbook for Personal Transformation”, publicado em 2002 pelo editora New Page Books. Greer (2002, p. 20), enfatiza que a dificuldade apresentada durante a leitura de Tarô para si mesmo se reporta à necessidade de se atribuir objetividade para os próprios problemas, de se fazer uma leitura concreta dos próprios desejos e medos, podendo, tais imprescindibilidades, desencorajar uma autoleitura de Tarô ou a leitura para si mesmo. Ela ainda destaca que não é comum a literatura em Tarô oferecer métodos de tiragens ou procedimentos ensinando as pessoas a fazerem leituras para si mesmas, deixando-as significativamente desasistidas nesse sentido.

Gypsy Fortune Teller
By Enzie Shahmiri.
In: http://www.kweeper.com [s. d].

Realmente, é bem possível a literatura em Tarô mundial dispor de poucos autores tratando da dinâmica da autoleitura, do ensino de alguma técnica efetiva e eficaz sobre esse tipo de ação taromântica.

Há tempos que efetuo essa prática de ler o Tarô para mim mesmo, com a finalidade, sobretudo, de autoconhecimento. E, devo-lhes salientar, com bastante sucesso, ou melhor, eficácia.

Nesse contexto, utilizo-me, efetiva e rotineiramente, de um mesmo procedimento, o qual poderá lhes servir como uma espécie de modelo ou sugestão que poderá ser colocado em prática. A ação funciona conforme o passa-a-passo a seguir:

  • 1 – Sento-me em minha mesa em meu escritório e ligo o meu microcomputador ou notebook;
  • 2 – Abro a minha planilha padrão criada no excel com a finalidade de registrar as minhas autoleituras de Tarô;
  •  3 – Em campo específico da planilha registro a data e a finalidade de minha consulta pessoal aos arcanos;
  •  4 – Em outro campo descrevo o meu contexto ou vivências com o máximo de detalhes possível, observando:
“O Tarô e o Tempo”
Autor Desconhecido
In: http://cdn3.iofferphoto.com [s . d].
  • o tempo ou período em que venho passando por determinada coisa;
  •  os envolvidos no assunto (pessoas, instituições, lugares etc);
  • os recursos que disponho ou não para a realização de algo, se necessário;
  • o tempo que estabeleço para a transformação de dadas situações ou para alcance de certos objetivos;
  • os possíveis aprendizados.
  • 5 – No campo da questão, elaboro uma pergunta objetiva, direta, sem ambiguidades, sem o uso de conjunções, identificando em um campo próprio o(s) plano(os) da existência humana (material, mental, sentimental, espiritual) envolvidos na iminente autoleitura, atentando-me para:
  • a forma inteligível como elaboro a pergunta, a fim de facilitar ao Tarô respostas diretas, que não causem confusões interpretativas durante a minha análise. O cuidado dispensado aqui é fator crítico de sucesso da autoleitura de Tarô;
  • a minha ciência do contexto e do plano o qual ele se encontra inserido. Aqui pode haver mescla de planos, sem problemas;
  • buscar respostas para perguntas do tipo das que sugiro, abaixo:
  • Qual o meu verdadeiro dom ou vocação?
  • Quais são as minhas melhores qualidades?
  • Quais são os meus piores defeitos?
  • O que devo melhorar em mim?
  • O que devo melhorar em mim do ponto de vista comportamental?
  • Por que encontro-me nessa situação?
  • O que posso fazer para sair de determinado conflito?
  • O que devo melhorar em mim no que diz respeito aos meus relacionamentos?
  • O que devo mudar em mim no que diz respeito aos meus relacionamentos?
  • Como devo me comportar em relação a dada situação, problema, pessoa ou instituição?
  • Quais impedimentos existem para a minha evolução pessoal, profissional ou afetiva?
  • O que devo melhorar em mim no que diz respeito a minha profissão?
  • O que devo mudar em mim no que diz respeito a minha profissão?
  • Em que devo investir para melhorar a minha prática profissional?
  • Quais competências preciso desenvolver para atuar com eficiência em minha profissão?
  • Qual decisão devo tomar em relação à determinada problemática vivida?
  • Qual decisão devo tomar em relação à problemática vivida com certa pessoa?
  • O que posso aprender com determinada pessoa?
  • O que posso aprender com esse problema?
  • 6 – Dentre os vários métodos de tiragens existentes que poderei optar, procedo da seguinte forma:
“Um Método de Tiragem Qualquer”
Imagens de um clone do Tarô Egípcio
Autor Desconhecido
In: Google.com [s. d].
  • escolho algum que esteja em conformidade a minha necessidade de autoleitura, levando em consideração que a escolha do método de tiragem precisa ser acertada;
  • caso o contexto esteja inserido em mais de um plano é importante que o método escolhido contemple em sua finalidade e casas esse tipo de análise taromântica;
  • respeito todas as regras do método em consideração ao seu autor;
  • crio um método, caso não consiga um que atenda a minha necessidade de autoleitura de Tarô;
  • 7 – Depois de ter observado cuidadosamente cada um desses detalhes do procedimento, efetivo a autoleitura propriamente dita, tomando o cuidado para:
  • escolher um Tarô que eu me identifique, do qual domino a linguagem simbólica e  o seu conjunto de atributos. Por exemplo, se uso o Tarô de Crowley, deverei efetivar a autoleitura levando em conta a forma primordial de interpretação dos arcanos com esse baralho,  ou seja, conforme  o pensamento crowleiano;
  • registrar cada percepção mental ao dirigir o olhar para os arcanos;
  • analisar a impressão que um símbolo pode trazer;
  • atentar-me para os sentimentos que podem vir à tona com o emergir de cada figura arcânica;
  • relacionar  ou associar, com total e ampla isenção ou imparcialidade, cada percepção, impressão e sentimentos à necessidade básica pela qual lancei mão da autoleitura;
  • buscar aliar o uso da intuição à objetividade simbólica dos arcanos e aos seus atributos. Observa-se, nesse processo, que é possível, de pouquinho em pouquinho, uma percepção de mensagens arcânicas lógicas que não foram levadas em conta inicialmente e que são bem próximas ou que estão de acordo com a realidade ou vivência;
  • evitar a transcendência ou “viagem” interpretativa, ou seja, agregar atributos aos arcanos que não são deles, mesmo que as suas mensagens não estejam de acordo com o que andei ansiando como resultado. Cuidado! A atenção cuidadosa nesse fator se deve a importante necessidade de se manter a integridade do símbolo, a qual pode ser conservada a partir da não efetivação de rearranjos simbólicos. Um novo atributo pode ser agregado ao símbolo, respeitando-se, claro, a sua essência e a finalidade do que lhe é pertinente comunicar a fim de proporcionar uma nova compreensão de um contexto ou questão;
  • registrar tudo na planilha sobre as leituras de Tarô para si mesmo(a), retomando, quando achar necessário, a verificação dos resultados a fim de monitorar o contexto, as transformações que possivelmente poderão ocorrer ou ser implementadas a partir da primeira autoleitura e da efetivação das orientações arcânicas;
  • anotar, diariamente, cada mudança ou intervenção efetivada dentro do contexto, em si ou para mim mesmo(a), destacando os resultados positivos, os não de acordo com o que se esperava e as possíveis oportunidades de melhorias ou correções de rotas;
  • não esquecer de salvar a planilha no micrcomputador ou notebook sempre que intruzir algum novo registro ou for corrigir alguma informação;
  • fazer o monitoramento contínuo de cada um desse passos até ratificar, a partir do acompanhamento da atuação dinâmica dos arcanos emergidos na autoleitura, que os objetivos estabelecidos foram, ou não, ou poderão, ou não, ainda ser alcançados ou que foi suprida ou não a necessidade principal que levou à prática  da leitura de Tarô para si mesmo, ou melhor, para mim mesmo.

É importante, nesse âmbito, o leitor desse artigo atentar-se para o fato de que sempre é possível a efetivação de algum tipo de redirecionamento de estratégias visando o alcance de um objetivo previsto pelo Tarô como algo inviável ou que não poderá ser materializado. O Tarô prevê os fatos, mas não os determina.

A ação positiva do autoleitor de Tarô pode fazer a diferença nesse tipo de previsão, pois somente ele poderá decidir, por meio do uso de sua liberdade, do seu livre arbítrio, como serão os próximos passos de sua trajetória naquele contexto analisado taromanticamente para si mesmo.

“Autoleitura de Tarô II”
Autor Desconhecido
In: Google.com [s. d].

Por outro lado, mesmo que estejamos envolvidos mental e emocionalmente com um contexto e os seus atores também é importante a aceitação de que existem coisas, pessoas ou situações que talvez só com a intervenção divina, segundo prevê o Tarô, poderão ser transformadas ou conquistadas e que, nessa esfera de ação, existe a possibilidade de que qualquer forçação de mudança do estado situacional do objeto de autoleitura taromântica, conforme conveniência,  venha a tornar-se um esforço ineficaz ou em vão, o qual resultará, provavelmente em mais frustração e pesares. Desse modo, convém aceitar e aplicar a orientação do oráculo, pois muito provavelmente será a melhor saída.

Como vê-se prezados leitores, a prática da taromancia para si mesmo é algo simples, mais que requer além de conhecimento técnico do Tarô, certa consciência de si mesmo e a de que é sempre a primeira autoleitura dos arcanos que prevalece.

Boa sorte e sucesso nessa maravilhosa aventura!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


GREER, Mary K.  Tarot for your self: a workbook for personal transformation. 2. ed. Franklin Lakes, New Jersey: New Page Books, 2002.

Licença Creative Commons
A obra Autoleitura de Tarô: o ato efetivo e eficaz de se praticar a taromancia para si mesmo, de Ricardo Pereira, foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Brasil.
Com base na obra disponível em www.substractumtarot.com.

5 comments

  1. Arierom says:

    Ricardo,

    quando comecei a estudar, fui minha maior cobaia. Pude cometer todos os desenganos que um estudante solitário pode e deve fazer, mas ao analisar os fatos com o passar do tempo sobre a ótica das jogadas/perguntas desenvolvi uma postura mais imparcial ou "impessoalidade", como costumo dizer, com os meus erros e acertos em todos os sentidos.

    Isto foi extremadamente útil tanto para os futuros atendimentos que se seguiram, e principalmente para o "conheça-te a ti mesmo", fui (e ainda vou) aparando minhas arestas de vaidade e orgulho de ser humano e tarólogo/taromante.

    Abraços e parabéns por mais este artigo joiado!

  2. Ricardo Pereira says:

    Oi João,

    Até hoje, nessa aventura do aprendizado e do autoconhecimento continuo sendo cobaia de mim mesmo.

    Isso é tão rico e às vezes assustador, principlamente quando o Tarô me diz: "não vais por esse caminho que tu podes se dar muito mal!" E é verdade, se não mudo a rota, quebro a cara!

    Mas é isso que torna relevantemente útil à vida humana a autoleiterua de Tarô. Isso é que deixa o Tarô com esse ar interessante, atrativo sempre!

    Abraços e grato por participar!

    Ricardo

  3. Senhor da Vida says:

    Acho que esse texto vai trazer luz a muita gente sobre o jogar para si, eu costumo dizer aos meus amigos, que o Tarot deveria ser um instrumento de bolso, para todas as pessoas. Tenho tido muita alegria em jogar para mim, embora o Tarot puxe muito a minha orelha em certos assuntos, e é o que eu espero.

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