O tarô esotérico, Gébelin e o Livro de Thoth

Por Ricardo Pereira

Os Pendurados
Detalhe de “O Juízo Final” de Giotto
(1304-1306)
In: http://www.giottodibondone.org

A data e o local de origem do tarô  não encontram um consenso, destacando-se, até hoje, as mais variadas hipóteses existentes na literatura mundial escritas sobre o tema.

Entre os séculos XVIII e  XIX muito se especulou sobre a origem do baralho, incluindo-se o tarô. Hoje, tal procedimento conta com uma soma das mais diversas teses que buscam legitimar historicamente uma procedência das cartas, mas tudo continua não passando de meras inferências em meio a um oceano amplamente misterioso, de águas bastante turvas.

Ao pesquisarmos alguns tarôs antigos, datados historicamente, em boa parte, em períodos medievos que perpassam o século XV[?], observa-se que eles eram desenhados e pintados à mão, verdadeiras obras de arte artesanais confeccionados, talvez inicialmente, com fins lúdicos e, posteriormente, oraculares e adivinhatórios, contendo um espécie de repositório simbólico atemporal abrangendo um vasto acervo sobre ciência, história, filosofia, linguística, religião e todo um legado de experiências representado em seu conjunto simbólico.

A partir de uma simbólica decodificável, as lâminas do tarô estão sempre prontas para se comunicarem,  transmitindo mensagens que podem e dever ser utilizadas em prol do autoconhecimento, equilíbrio e  evolução humana neste planeta.

Nesse sentido, com o passar dos tempos, a partir do empreendimento de uns poucos estudos teórico-empíricos na seara ocultista sobre cartomancia, assim como dos diversos usos empregados ao oráculo, uma concepção esotérica do tarô passou a dar os seus primeiros sinais de manifestação em pleno século XVIII na efervescência do iluminismo e nascimento do movimento romântico na Europa.

Antoine Court de Gébelin
(1719[?]-1784)
Bulletin de la Société de l’histoire
du protestantisme français,
Paris Agence centrale de la Société, 1853

Foi a partir da idéia, em 1781, de sua origem egípcia, defendida pelo pastor protestante e filólogo francês, Antoine Court de Gébelin (1719[?], Nîmes, França – 1784, Paris, França),  em sua obra,  “Monde primitif: analysé et comparé avec le monde moderne”, que o tarô passou a ser observado por meio de uma aura de mistério, magia e misticismo.

Nesse âmbito, enfatiza Kaplan (1979) sobre essa obra do pai do tarô esotérico:

Gébelin foi um apaixonado estudioso da mitologia antiga. Envolvendo-se no estudo das religiões do ponto de vista da linguistica, ele procurou resdescobrir a lingua primitiva cuja escrita hieroglífica explicaria as várias mitologias conhecidas, que supostamente refletem, em símbolos, as mesmas verdades reveladas.

Tal obra da literatura francesa foi escrita em 9 (nove) volumes durante os anos de 1775 a 1784, a qual se caracteriza como uma espécie de tratado especulativo e de reconstrução de uma teoria sobre uma “civilização primitiva” analisada e comparada, à epoca,  ao mundo moderno, tendo, em sentido amplo, como pano de fundo,  as seguintes abordagens:

Court de Gébelin, Antoine (1719-1784)
Monde primitif analysé et comparé
avec le monde moderne
(Folha de Rosto).
In: http://www.tarotpedia.com

1 – linguística – sobre esse tema Gébelin discorre sobre as origens da linguagem, de uma língua primitiva falada e escrita, apresentando ainda dicionários de etimologia, atribuindo a esses seus estudos o status de “gramática universal”;

2 – mitológica – nesse âmbito ele percorre as nuanças da mitologia, das antigas religiões pagãs e sobre alguns aspectos da cultura egípcia e de seu rico cabedal mitológico; e

3 – simbológica – é nessa esfera que a sua obra abrange um profundo estudos sobre as origens da alegoria na Antiguidade, associando-a, sobretudo, ao acervo simbólico contido nas escritas hieroglíficas primitivas, principalmente as egípcias, assim como faz suposições que as imagens iconográficas dos arcanos maiores do tarô foram elaboradas a partir das abordagens contidas sobre o seu cabedal simbólico no antigo livro egípcio, o qual nunca fora visto ou tocado por qualquer ser humano, denominado de “Livro de Thoth”, obra que supostamente escapa da destruição da biblioteca de Alexandria e que ele inferiu ser tal obra o próprio jogo de cartas. Em seu Monde Primitif, Gébelin (1781)  afirma sobre o Livro de Thoth: “Ele contém ensinos perfeitamente conservados sobre os assuntos mais interessantes. Esse livro do antigo Egito é o jogo de cartas – nós o temos nas cartas do baralho”.

O Pendurado“,  Marseille Tarot,
by Nicolas Conver, 1760
Prudência“, Gébelin Tarot, 1781

O “Tarô de Gébelin”, baseado no Tarô de Marselha, impresso no oitavo volume dessa obra Monde Primitif,  mostra-nos uma iconografia curiosa para o arcano maior O Pendurado, o qual é associado simbolicamente à virtude da Prudência.

Na iconografia da lâmina é observada a figura de um homem, não pendurado, mas, sim com o pé esquerdo amarrado por uma corda a um pedaço de madeira fixo ao chão, com a perna direita cruzando a esquerda por trás, formando o símbolo de um número quatro, significando a necessidade de o ser humano buscar não se comportar de forma presunçosa, deixando de lado a vaidade e, sobretudo,  não agindo por  impulso, devendo, certamente, ponderar bem todas as coisas antes de empreender qualquer ação.

Oitenta anos depois de Gébelin ter publicado o seu Monde Primitif, o jornal londrino “The Art-Journal”, em 1861, publicou, de autoria de dr. William Bell, o quinto capítulo de uma série de artigos abordando sobre diversos tipos de baralhos conhecidos àquela época. Nesse capítulo, intitulado por esse autor de “The origin and nomenclature of playing cards”, ele destacou, na parte em  que aborda sobre as cartas do tarô, demonstrando as imagens de alguns arcanos do Tarô de Marselha, a mudança empreendida por Gébelin na iconografia e alegoria do arcano maior O Pendurado, assim como a associação simbólica que ele fez, dessa lâmina, à virtude da Prudência.

BELL, William. The origin and nomenclature of playing cards. 
The Art-Journal, London, 1861. Vol. VII, p. 360.
Observe a imagem do arcano “O Pendurado” do Tarô de
Marselha e a do “Prudência”, do Tarô de Gébelin, à direita

Esses são, portanto, alguns dos componentes da história do tarô para a tese, dentre outras, de que  esse baralho e oráculo possuiria origem no antigo Egito, a qual fora refutada, posteriormente, por historiadores e egiptólogos em todo o mundo pela falta de evidências, provas ou por inexistência de fontes fidedignas cujos registros servissem para a sustentação de tal hipótese.

Realmente, é tão somente a partir dessa abordagem gebeliana de fins de século XVIII que observamos o emergir de um conceito de tarô esotérico e também da consequente adoção do tarô, por místicos, esotéricos e ocultistas e, como não poderia deixar de citar, por parte de personagens famosos do mundo do tarô pertecentes às antigas escolas de mistérios ou sociedades secretas de portes, como por exemplo, da Maçonaria e da Golden Dawn.

O Pendurado“,  Leonardo da Vinci Tarot
By A. Atanassov & I. Ghiusele, 2005
O Pendurado” do Flemish Tarot, by  Vandenborre, 1983
Desespero“, by Giotto, 1302-1305

Tal crença de que o tarô e o Livro de Thoth são um só disseminou-se por toda Europa, estabeleceu-se e se firmou na prática ocultista universal até o seu apogeu em plena metade do século XIX europeu, tendo as figuras de Etteilla (Paris, França, c. 1724/1738[?] – 1792), primeiro cartomante profissional francês do qual se tem algum registro sobre a atuação no século XVIII, em solo europeu; e, no século XIX, de Eliphas Lévi (1810-1875), considerado o pai  do “tarô moderno”,  como veementes defensores de tal ideia, agregando a ela outras tantas teorias curiosas sobre a origem do tarô, as quais deverão ser abordadas, em futuros artigos meus, nesse meu blog Substractum Tarot.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BELL, William. The origin and nomenclature of playing cards.  The Art-Journal, London, 1861. Vol. VII.

GÉBELIN, Antoine Court de. Monde primitif: analysé et comparé avec le monde moderne. Paris, França: L’auteur e outras, 1781. Tomo VIII.

KAPLAN, Stuart R. Tarô clássico. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 1979.

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