Arrumando o túmulo

Por Ricardo Pereira

Caixão
Baralho Petit Lenormand
In: http://www.albideuter.de

24 de agosto de 2010. Foi nessa data que atendi uma amiga de longas datas com o meu velhinho Lenormand. Depois dessa consulta, aposentei o baralho e passei alguns meses sem nem sequer olhar ou tocar naquelas cartas, tão precisas em suas antevisões oraculares.

Nesse período de agosto, assim como em setembro, aqui em Fortaleza, os ventos tomam grande intensidade, deixando o nosso clima mais ameno, agradável.

Foi com esse clima, em uma consulta ao Lenormand, que tudo transcorreu.

Essa minha amiga em 2010 havia se submetido a uma bateria de exames por ter apresentado uma frequente irritação de garganta e  há tempos que uma feridinha localizada no palato duro de sua boca não sarava, causando-lhe incômodo e dor.

Era tabagista inveterada; fumava em média dois maços de cigarro Carlton por dia, além de ser adepta do whisky casual quase diário em happy hour.

Depois de ter passado por todos os procedimentos e exames recomendados pelos médicos os resultados não foram nada agradáveis: câncer de garganta e de boca.

Uns cinco meses antes da consulta ao Lenormand ela submeteu-se a uma cirurgia nos locais com incidência da enfermidade e, posteriormente, à sessões intensas de quimioterapia, as quais lhe fizeram ter problemas de dicção e queda contínua dos cabelos.

Santa Morte
Figura sagrada venerada no México
In: Google

Estava, durante a consulta ao Lenormand, de bom humor e exalando a alegria e a espirituosidade que sempre lhes foram peculiar, mesmo estando bem consciente da gravidade e dos riscos de sua situação, embora abatida pela doença. Acabara de superar mais uma das crises e considerava-se bem melhor.

Nossa conversa inicial, em seu apartamento de cobertura em um bairro chique da cidade,  deu-se em um clima bastante descontraído, alegre e demos muito boas risadas; ela ria inclusive de sua situação, refletindo sobre os últimos anos vividos antes da manifestação do câncer, sobre suas venturas e desventuras no amor, em suas  relações com os amigos, no trabalho, nos estudos ou na vida, comparando-as aos dias nos quais experienciava o processo tão sofrido de desenvolvimento dessa cruel doença, comentando sobre todos os esforços científicos já empreendidos durante o tratamento, até o fato de ter sido desenganada pelo corpo médico, considerando-se, sobretudo, resignada.

Como sou reikiano, pediu-me que lhe ministrasse energia Reiki, antes da consulta às cartas propriamente dita, pois acreditava que a energia lhe relaxava. Fiquei uns 20 minutos aplicando-lhe a Reiki, para depois acomodarmos-nos à mesa oracular por ela mesma preparada para consulta. Em cima, imagens de anjos, da mestra ascensa Kuan Yin, cristais e porta-incensos. Ela adorava esses badulaques, os quais mantinha em pontos estratégicos de seu apartamento.

Mesa de Cartomante
In Google

Óbvio que ela desejava saber do Lenormand se “ela partiria dessa para melhor, em breve”. Sim, não estranhe caro leitor, essa foi a sua pergunta ao oráculo.

Geralmente, as pessoas enfermas e conscientes do que poderá ocorrer como consequência de determinadas doenças, procuram os oráculos, esperançosas, para saberem se serão curadas. Ela não! De fato, queria saber se a sua morte estava próxima!

Deusa Egípcia Hekt
Símbolo da Ressurreição
In: www. requisite_danger.bluecastle.us

Na hora dessa expressão de tamanha coragem, pensei: “somos amigos íntimos, então deverei me comportar, diante tal fato, de forma natural, tanto quanto a  minha consulente e amiga, não poupando-lhe, inclusive, das possíveis, duras e pragmáticas previsões e mensagens do Lenormand nesse contexto; deverei controlar, sobretudo, minhas emoções …”.

Esse é um tipo de decisão difícil, delicada e o sentimento do oraculista é de desconforto, insegurança e medo do que pode emergir como mensagem do oráculo, mesmo quando se tem a devida autorização e decreto do consulente no sentido de se afirmar com objetividade cada antevisão prenunciada pelas cartas. Isso sem contar o sentimento de grande pesar e dó que toma conta da gente, de nosso coração, ao saber, no fundo e no fundo, que uma pessoa nossa, tão querida, poderia estar partindo. Não vou lhes mentir: por um momento tive vontade de desistir, de não empreender essa consulta.

Segui em frente com o processo cartomântico, utilizando-me do meu Método Brasileiro e do método “Salto de Hekt” para a condução de leitura do Lenormand e obtenção de respostas.

Vale salientar, que o método Salto de Hekt foi estruturado para lembrar a figura de um sapo, animal que no antigo egito simbolizava e representava a deusa da ressurreição, Hekt. Possui a finalidade de responder a temas gerais em diferentes âmbitos, no passado recente, presente e futuro próximo, destacando possíveis auxílios e obstáculos em dados contextos e situações.

A disposição das casas para leitura seguem na figura abaixo:

Método Salto de Hekt

In: O livro de Thoth: tarô de Etteilla. São Paulo: Madras, 2010.

As casas possuem os seguintes enunciados:

I – O hoje
O hoje, na cabeça do sapo (I), é chamada a “Casa do Pensa­mento” e refere-se à maneira como o Consulente vê a situação sobre a qual ele quer falar.

II – O ontem

O ontem, nas costas do sapo (II), é chamada de “Casa do Fardo”, ou os problemas que o Consu­lente carrega consigo.

III – O amanhã

O amanhã, na face (III), é chamada de “Casa da Direção”; isto é, ambições, desejos e situações que podem surgir independentemente do desejo do Consulente. É a última casa a ser aberta e lida pelo oraculista.

IV – A favor

O A favor, nas patas traseiras (IV), é chamada de “Casa do Avanço”; isto é, a força para agir ou ajuda externa.

V – Contras

Os contras, nas patas dianteiras (V), é chamada de “Casa do Controle”; isto é, como o Consulente se reprime ou como ele é reprimido por outros.

Como já enfatizei, usei para facilitar a obtenção da resposta, o meu Método Brasileiro, que caracteriza-se por ter as suas casas ocupadas por três cartas, com a leitura iniciada pela carta da direita, lendo-se em seguida a  do centro  e finalizada pela carta posicionada à esquerda.

Para efetivar a interpretação, adaptei o Método Brasileiro à característica do baralho Lenormand de não apresentar, como no tarô, arcanos maiores e menores, mas, cartas como nos baralhos convencionais.

Consulta cartomântica com o baralho Petit Lenormand
amparada  pelos métodos Brasileiro e Salto de Hekt

Imagem do Autor

Essa factível aplicabilidade do Método Brasileiro não comprometeu, de nenhum modo, a fluência e eficácia do ato de se dar sentido as mensagens transmitidas pelas cartas, pois nesse método existem peculiaridades de interpretação para cada casa as quais sustentam efetivamente as análises durante a ação cartomântica, garantindo, por assim dizer, a sua efetividade.

Nesse contexto, o Lenormand emitiu suas mensagens a minha consulente da seguinte forma, levando-se em conta a pergunta por ela formulada: “irei morrer em breve?”

I – O hoje

Da direita à esquerda
(Torre, Ratos, Trevo)

Nessa casa, surgiu à direita, Torre (19 – 6 de Espadas), denotando a fase de isolamento, medos, resignação e mergulho interior da consulente diante a sua experiência com o câncer, assim como a sua ansiedade e incerteza quanto ao futuro, aspectos esses confirmados na posição central desta casa pela carta Ratos (23 – 7 de Paus), afirmando a sua plena consciência, mesmo sendo submetida à quimioterapia e a todos os cuidados médicos disponíveis, sobre o desgaste de sua força ou energia vital e perda gradativa de sua saúde, fatores esses que no futuro, conforme a carta Trevo (6 de Ouros), na posição à esquerda desta casa, tenderiam, segundo a sua percepção sobre tal vivência, a se agravar, tomando dimensões mais preocupantes, de difícil superação.

II – O ontem

Da direita à esquerda
(Criança, Mulher, Pássaros)

Diante tal contexto, tal casa veio a confirmar as causas que levariam a consulente a desenvolver o câncer, denotadas na posição à direita dessa casa pela carta Criança (13 – Valete de Espadas), reconfirmando como causas o fato de ela ter iniciado o hábito de fumar quando ainda era criança, aos doze anos de idade, por influência de uma mulher, como denotado pela carta do centro Mulher (29 – Ás de Espadas), a qual lhe mandava  acender cigarros e levá-los até ela. Tal mulher era a sua tia, irmã de sua mãe. De tanto repetir esse hábito, viciou-se e tornou-se dependente química, desenvolvendo com o tempo, como destacado pela carta dos Pássaros (12 – Rei de Paus) situada na posição esquerda desta casa, graves problemas de garganta, os quais se transformariam em câncer no local e no palato duro de sua boca.

IV – A favor

Da direita à esquerda
(Homem, Cão, Chicote)

A seu favor a consulente contava com a figura de um médico, o qual ela chamava carinhosamente de “anjo da guarda”, conforme destacado na posição à direita desta casa pela carta Homem (28 – Ás de Copas), denotando que todos os cuidados para o seu caso estavam sendo efetivados por ele com maestria, conforme procedimentos médicos pertinentes ao tratamento do caso, e que ela também contava com o apoio de amigos e familiares, como sublinhado ao centro pela carta  Cão (18 – Dez de Copas), embora sem a sua retroação ao equilíbrio ou o seu retorno à saúde, como indicado pela carta da posição à esquerda Chicote (11 – Valete de Paus).

V – Contras

A leitura dessa casa foi efetivada a partir dos significados “adversos ou opostos” das cartas.

Da direita à esquerda
(Lua, Sol, Lírios)

Nesse contexto, para responder à pergunta surgiu na posição à direita desta casa a carta Lua (32 – 8 de Copas), denotando o estado de depressão profunda que insistia em se instalar na consulente, o qual ela vinha buscando, com o restinho de forças mental e emeocional que ainda tinha, controlar a qualquer custo, como destacado pela carta na posição  central dessa casa Sol (31 – Ás de Ouros), mas sem sucesso, como ressaltado pela carta Lírios (30 – Rei de Espadas) na posição à esquerda dessa casa V.

III – O amanhã

Esta foi a última casa a ser analisada.

Percebi durante a consulta certa ansiedade da consulente pela abertura e análise dessa casa, pois entendeu, à época, perfeitamente, que era nas mensagens das cartas dessa posição que estaria a previsão, a definição sobre o seu futuro, sobre o que lhe aguardava daquela data em diante.

Impressionada com a precisão das mensanges que emergiram das cartas do Lenormand nas casas anteriores, a consulente pacientemente e sem tecer comentários ouvia cada uma de minhas interpretações sobre o seu futuro, como segue:

Da direita à esquerda
(Foice, Jardim, Caixão)

Nessa casa, em sua posição à direita surgiu a carta A Foice (10 – Valete de Ouros), denotando o momento crítico, de final de um ciclo de dor e sofrimento, definitivo certamente, pelo qual passaria a consulente; passível, esta nova etapa, de amplas transformações, rompimentos e cortes necessários de aspectos do passado, os quais não teriam volta, devendo ela, conforme expressado pela carta na posição central dessa casa, O Jardim (20 – 8 de Espadas), preparar-se para novas crises de saúde e internamentos, com a certeza de sua  passagem ou viagem de retorno, muito em breve, a sua forma original, ao seu reencontro com a mãe terra, com o seu estado físico natural, aspecto esse confirmado pela carta posicionada à esquerda desta casa, O Caixão (8 – 9 de Ouros).

Garanto-lhes que não foi fácil transmitir-lhe mensagens tão funestas, principalmente por se tratar de uma amiga tão querida. Mas, era exatamente isso, a verdade, como ela insistira e me afirmara à época, que desejava ouvir.

No dia 20 de outubro de 2010, ela deu entrada no hospital em estado grave, vindo a falecer no dia 26 desse mesmo mês.

No dia 27 de outubro foi o seu sepultamento. Em uma conversa minha, no velório, com uma de suas irmãs mais próxima, soube que depois que deixei o apartamento de minha consulente naquele dia no qual lhe atendi com o Lenormand, ela passara a visitar, em sua companhia, quase que constantemente, o cemitério com o intuito de cuidar do jardim em volta do túmulo de seus familiares, o qual há tempos estava “abandonado”.

Segundo a sua irmã, ela começara essa sua jornada ceifando as ervas daninhas que proliferavam em volta do túmulo. Comprara algumas roseiras e graminhas rasteiras e as plantara no local, ansiando pelo desenvolvimento de um lindo jardim.

Uma semana antes de sua passagem, regara as plantas que circundavam o túmulo e no jazigo suntuoso do século XVIII, de mármore negro, com as próprias mãos, fez uma limpeza geral e profunda. Após ter arrumado o próprio túmulo, entrou em crise, sendo internada pela irmã no hospital, vindo, em poucas horas, a falecer.

No dia do sepultamento, quando desciam o seu caixão ao jazigo, vi, como em uma rápida passagem de cenas de um filme, as cartas Foice, Jardim e Caixão saltitarem aos meus olhos, como se quisessem me assegurar que a minha missão com a minha amiga, até ali, tinha sido efetivamente cumprida.

Da direita à esquerda
(Foice, Jardim, Caixão)

Somente em maio desse ano de 2011, resolvi comprar outro Lenormand, reiniciando, aos poucos, os meus estudos desse oráculo significativamente objetivo, dinâmico e tão preciso em sua linguagem, em suas mensagens.

Tenho também atendido algumas consultas demandadas por amigos mais íntimos, com o Lenormand sempre causando, em todos nós, alguns arrepios, tamanha a exatidão de seus presságios.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 SALTO de Hekt. In: O livro de Thoth: tarô de Etteilla. São Paulo: Madras, 2010.

2 IMAGENS das cartas do baralho Petit Lenormand. Disponível em: http://www.albideuter.de

3 comments

  1. Emanuel says:

    Ricardo, sempre saio mais rico depois de ler teus textos. Isso, em metáfora ao senhor dos mundos subterrâneos, cujo epíteto é "rico".
    Vou às profundezas do que conheço e descubro que as profundezas tem porão…
    Tua precisão é fantástica e digna de toda a admiração.
    Forte abraço!

Comments are closed.