Diálogos e respostas do tarô ao enclausurado

Por Ricardo Pereira
 
Morte
© Ricardo Pereira, 2013.

“Toda Arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que procuram ver por baixo da superfície, fazem-no por conta e risco. O mesmo acontece aos que tentam penetrar o símbolo. É o espectador e não a vida que a Arte realmente reflete”. (Oscar  Wilde).

Ontem, dia 03 de agosto de 2013, atendi um consulente que, para não revelar a sua verdadeira identidade, autodenominou-se “Enclausurado”. A seguir, reproduzo o diálogo, ipsis litteris, por nós dois empreendido, assim como o desempenho e a evolução do tarô de Crowley durante toda a consulta.

Eu – Olá, boa noite, com quem falo?

Enclausurado – Oi boa noite! Preciso mesmo me identificar, é obrigatório? hahahahaha (Gargalhada).

Eu – Não, o senhor não precisa se identificar. Mas, gostaria de ser chamado como?

Enclausurado – Pode me chamar de “enclausurado”. hahahahaha (Gargalhada).

Eu – Ok! Como for melhor para o senhor.

Enclausurado – Não precisa me chamar de senhor. Pode me chamar de você ou “enclausurado”!

Eu – Ok! Portando o arcano maior Morte, indaguei-lhe: quais mudanças, perdas ou sentimentos que vem desejando eliminar, que lhe incomodam e lhe trouxeram até o meu o tarô?

Morte
Tarô de Crowley
© U.S. Games Systems

Enclausurado – Por que você está dizendo que perdi alguém? Por que, que você acha que eu tô sofrendo? Acha mesmo que lhe procurei porque quero acabar com alguma coisa?

Eu – Não sou eu quem está dizendo, amigo enclausurado, é o tarô! Enquanto íamos conversando, retirei um arcano para o seu caso e acabei puxando o arcano Morte e ele me diz que algo vem lhe incomodando muito; e que você quer muito se livrar dessa “coisa” que lhe incomoda, que vem lhe maltratando.

Enclausurado – Você começou bem! Não vou lhe mentir! Procurei-lhe, porque inicialmente desejei me divertir com essa coisa de “cartomante”, de “vidente”, falta do que fazer nessa noite de sábado. Você sabe, já são quase doze horas da noite e eu aqui enclausurado, sem mulher, sem filhos, sem amigos e você me pisa bem em cima do meu calcanhar. Nem me conhece e já vem me abrindo feridas. (Fez-se um silêncio, de mais ou menos uns 20 segundos, que me pareceu uma eternidade).

Eu – Enclausurado, enclausurado, enclausurado!!!???

Enclausurado – Oi, oi, tô aqui!!! Estava pensando aqui!

Eu – Bem, vamos começar a sua consulta ao tarô? O que deseja saber? (Nesse ponto da consulta, eu já portava na mão os arcanos Eremita, 5 de Copas -“Desapontamento” e a Rainha de Espadas).

Enclausurado – Pegue as suas cartas e vá falando meu amigo, não tenho o que perguntar!

Eu – Ok, tá certo! Bem, você anda desapontado, desiludido, pra baixo porque foi abandonado, já há algum tempo, por uma mulher que você tem muita estima. Parece-me que você andou traindo essa mulher e ela, cansada de ser traída, resolveu dar um basta na relação, finalizar o convívio entre vocês. (Aqui, mais uma vez se fez um silêncio, para mim, angustiante).

Eremita, 5 de Copas, Rainha de Espadas
Tarô de Crowley
© U.S. Games Systems

Enclausurado – Eu não trai ninguém! Fui traído por aquela cretina! Depois de 11 anos de casados, ela me abandonou, há dois anos atrás. Sou advogado e ela também. Ela me traiu durante uns três anos com um desembargador, amigo meu de longas datas. Aquele judas! Hoje ela vive com o “judas” e os nossos dois filhos, Samuel Filho, hoje com 13 anos e Marquinhos, com 10 anos.

Eu – (Com o maior O Pendurado na mão, mais o 8 de Copas – “Indolência” e um Cavaleiro de Paus, disse-lhe): e esse fato paralisou a sua vida. Você, simplesmente, abandonou os seus compromissos, a sua rotina, o seu trabalho. Tem andado meio depressivo, sentindo uma tristeza dilacerante, sem forças para seguir em frente. Mas, há um homem que vem segurando essa sua barra, não tem? Que vem lhe dando ajuda, inclusive, financeira, não é mesmo?

Pendurado, 8 de Copas, Cavaleiro de Paus
Tarô de Crowley
© U.S. Games Systems

Enclausurado – Sim, meu pai! Como você sabe?

Eu – Porque surgiu aqui um Cavaleiro de Paus, que afirma e confirma a existência nesse seu caso, de algum tipo de apoio de alguém muito próximo.

Enclausurado – Não entendo nada dessa estória de “Cavaleiro de Paus” hahaha (rindo muito), mas é meu pai, sim. Ele é, hoje em dia, a minha força. O restinho de ânimo que ainda tenho está nele e é ele quem me dá. Ele tem 76 anos. Um dia desses ele veio aqui e mandou arrombarem a porta do apartamento, porque ele tocou a campainha por uns quinze minutos e eu não atendi.

Eu – (Com um 10 de Espadas – “Ruínas”, com a Torre e Amantes não mão, afirmei-lhe): e ele te encontrou deitado na tua cama num sono profundo, não foi? Você tentou se suicidar, rapaz?!

Enclausurado – Como assim? As cartas estão mostrando isso? hahahaha (gargalhando e abismado).

Eu – Sim, estão mostrando, sim! E você saiu dessa, escapou por um triz da morte. Qual é a sua idade, você pode me dizer, por gentileza?

Enclausurado – 52 anos. Sou de novembro, do dia 11. É importante você saber disso?

Eu – Não, apenas curiosidade!

10 de Espadas, Torre e Amantes
Tarô de Crowley
© U.S. Games Systems

Enclausurado – Pois é, depois que fui traído e  abandonado pela mulher, que deixei de conviver com os meus filhos, minha vida mudou muito e para pior. Entrei em decadência total. Tinha escritório de advocacia, era bem sucedido aqui no Rio e tudo mais. Hoje, não passo de um “lixo humano”, de um “sem futuro”, exatamente como ela um dia disse que eu ia ser. Ela, quando ainda vivíamos sob o mesmo teto no apartamento do Leblon, chamou-me de acomodado, que eu tinha potencial para o fracasso. Tudo porque não fui trabalhar um dia desses qualquer. Porque resolvi ficar dormindo, em casa. Amo demais essa mulher, porque ela foi me deixar? (Aqui senti e ouvi que ele estava querendo chorar).

Eu – (Portando na mão o Sol, mais o 3 de Ouros – “Trabalho” e o Ás de Copas, afirmei-lhe): Bem, uma nova perspectiva de vida vem se abrindo para você, relacionada a sua profissão, ao seu trabalho. Parece-me que uma nova oportunidade de trabalho ou um retorno seu as suas atividades profissionais como advogado vem despontando. Com chances de sucesso, de prosperidade. (Outra vez, fez-se um silêncio, de mais ou menos uns 30 segundos, incomodante. Pensei até que o Skype tinha se desconectado).

Sol, 3 de Ouros e Ás de Copas

Enclausurado – Rapaz, você tá de brincadeira comigo! Não estou acreditandoooo Ricardo! Rapaz, recebi uma proposta de sociedade antes de ontem. Um amigo meu advogado, da época da faculdade me propôs trabalharmos juntos, de abrirmos um escritório em Laranjeiras. Quer dizer “bicho” que tem chance de dar certo, é? Não sei, tô com medo, não sei mais trabalhar, perdi o pique!

Eu – Tem sim! Pode investir nisso, sem medo! E o seu retorno ao trabalho ainda vai lhe garantir um bom período de prosperidade, de significativas realizações.

Enclausurado – Cara, você me deu um alento. Fiquei entusiasmado! hahahaha (risos alegres, de satisfação).

Eu – Pois aproveite o momento, ele é bastante positivo e vai dar tudo certo! (Ouvi o celular dele tocando e ele atendeu).

Enclausurado – Ih, cara, vou ter que encerrar aqui, meu pai está no elevador, vindo para cá, dormir aqui comigo. Depois agendo outra consulta. Vou querer saber algumas coisas ainda de minha ex-mulher, ok?  obrigado! Tchau!

Eu – Ok! Eu que lhe agradeço! Sucessos nessa nova etapa! Um abraço!

Enclausurado – Abraço, tchau!

Depois de toda essa conversa, encerrei meus afazeres taromânticos e fui dormir feliz, com a certeza do dever cumprido.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Porto Alegre: L&PM, 2011.