Causos e oráculos

Por Ricardo Pereira

Ela teria um encontro de negócios com aquele homem que supostamente para a sua pessoa, profissional íntegra, de moral ilibada, estaria se insinuando, com aquele enxerimento do típico macho nordestino. 

Por sua fala, logo se percebia o seu esforço em se autopromover, em se colocar predicados. Como queria fechar um negócio importante, não poderia vacilar ou cometer erros quando estivesse frente a frente com o seu importante interlocutor. Claro, estava insegura e desejosa de saber os verdadeiros interesses do tal homem de negócios “galanteador”.
Saquei de meu Sibilla Della Zingara e puxei uma primeira carta para ver as reais intenções dele, vindo-me a carta “Literato”.
Literato
Sibilla Della Zingara

Copyright by Lo Scarabeo, 2007

O Sibilla foi afiado feito uma navalha em sua predição, ou seja, destacou que a intenção dele era a de tratar de um  assunto meramente técnico, o de fazer ajustes na proposta de negócio que lhe fora enviada pela empresa na qual trabalha a minha consulente.

A moça irredutível e insistente em sua percepção das intenções dele em relação à ela, pediu-me para verificar nas cartas se ele não estaria mesmo a fim dela.

Dessa vez, saquei do meu tarô de Waite-Smith e me surgiu o 7 de Copas.

7 de Copas
Waite-Smith Tarô
Copyright by U.S. Games Systems, Inc., 1983

Não me fiz de rogado e lhe afirmei que tudo não passava de impressões equivocadas dela. Autoengano consequente de ilusão. Disse-lhe, que ele não lhe tinha interesse afetivo algum, que ela estaria criando em sua cabeça uma situação incondizente com a realidade, não valendo à pena insistir nesse desvario.

Alguns dias após a consulta ela me procurou e confirmou-me as predições das cartas do Sibilla Della Zingara e do tarô Waite-Smith. Ao se encontrarem em uma reunião, discutiram aspectos técnicos da proposta de negócio. Após ajustes fecharam um contrato e cada um foi para o seu canto, sem perspectivas de reencontros.

Tão curioso quanto o causo anterior, embora tenha consciência de que cada causo é um causo, por esses dias atendi uma mulher de São Paulo desejosa em saber se em algum dia de sua vida ela iria conseguir a “graça” de ser plenamente feliz. Ora, mas que pergunta!  O que é ser feliz plenamente se não mais que qualquer coisa ou um momentâneo estado elevado de espírito, principalmente, quando se vive oscilando entre superar ou não, com medo, cada um dos desafios que a gente ou a vida nos impõe? Como diria Clarice Lispector: “Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem”.

Até ai tudo bem! Para esse causo, pensei em um método de tiragem oracular que me facilitasse a vencer tal desafio, que me sustentasse diante tamanha responsabilidade, a de ser objetivo, sem gerar desgosto à consulente, quando decodificasse o emaranhado simbólico que esse tipo de questão atrai, com os tipos de respostas perigosamente desatentas que poderiam sair da minha boca enquanto oraculista entusiasmado em deixar, pelo menos, a consulente satisfeita com o eventual presságio das cartas.

Depois de ouvir todo o causo de uma consulente de 75 anos  ansiosa por felicidade, resolvi puxar o meu Lenormand para analisar somente os seus dias atuais e futuros, pois como ela mesma decidiu que não fosse analisado nadica de nada do seu passado, embasada no chavão de “quem vive de passado é museu”, fui em frente.

Na casa do momento atual surgiram as cartas: A Cruz, A Montanha e A Criança. Observa-se claramente que essa senhora vive uma vida de sofrimento, dificuldades e desgostos relacionados a alguém muito próximo, de sua relação, ou seja, passa por problemas e desafios possivelmente associados a um filho. Evidentemente que a carta da Cruz remeteu-me ao passado dessa senhora, indicando-me que todo o infortúnio por ela vivido possuía as suas causas em tempos remotos.

A Cruz, A Montanha e A Criança
Cartomancia Francesa
Copyright by Lo Scarabeo, 2006.

No decorrer da consulta, ela me confirmou que, realmente, tem um filho que lhe dá muito trabalho. Ele é casado, mas não mora com a esposa e os filhos, pois passa mais tempo residindo com a minha consulente. Esse senhor é objeto de preocupações e desgostos quase constantes.

Após a morte do seu marido, que era alcoólico, violento e mulherengo, a consulente dedicou-se exclusivamente, a controlar e manter a vida desse filho problemático, que não se estabelece em emprego algum porque possui envolvimento com drogas, tendo inclusive sido enquadrado pela polícia como traficante há pouco mais de seis meses atrás. A mulher dele e os seus filhos se afastaram por medo de se verem envolvidos no meio perigoso tão comum ao tráfico de drogas.

Depois de muita conversa, parti para analisar o seu futuro, a fim de observar nas cartas os indícios de possibilidades dessa tal felicidade tão desejada pela minha consultante.

Na casa do futuro surgiram as cartas: A Mulher, O Sol e O Caixão. Objetivamente o Lenormand destacou que SIM, que antes de sua morte a mulher caminharia rumo à felicidade tão ansiada.

A Mulher, O Sol e O Caixão
Cartomancia Francesa
Copyright by Lo Scarabeo, 2006.

O que mais me intrigou nessa sequência de cartas foi a posição da carta do Caixão, a última do jogo, situada depois da carta do Sol, como se anunciasse – de forma tão direta, contundente – que, com o passar do tempo, a consulente após tantos anos de desolação iria vencer, para poder morrer feliz.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. São Paulo: Nova Fronteira, 1978.