Cartas temidas

Por Ricardo Pereira

Em cartomancia as cartas nem são boas e não são ruins. Circunda as cartas o conceito de polaridade, ou seja, entende-se que o conjunto simbólico inerente a uma carta qualquer irá apresentar atributos positivos ou negativos que devem ser alinhados e interpretados conforme dado contexto, objeto de leitura oracular.

Ouroboros_1

Ouroboros – O Dragão a Provar a Polaridade da Própria Alma
De Lapide PhilosophicoTriga Chemicum, (Praga, 1599)
Compilado por Nicolas Barnaud

Geralmente, o primeiro olhar do consultante, que procura pela primeira vez um tarólogo, para a carta da Morte do tarô é desconcertante e quase sempre seguido pela questão “o que significa isso?” Ora,  o arcano A Morte traduz ou denota nada mais que um ciclo de transformação.

Morte - Escapini

A Morte
Escapini Tarot,  Luigi Scapini, 1946
by U.S. Games Systems, Inc.

Mas, o que chamou de fato a atenção do consultante foi a figura esquelética com uma foice a ceifar vidas, que tradicionalmente compõe a imagética da carta, fazendo-lhe pensar na morte, no fim da vida. Ora, mas o que é mesmo a vida se não o princípio da morte? Essa carta leva o consultante a pensar que algo muito ruim ou está prestes a acontecer, ou a ser revelado. Decerto, que o processo de transformação previsto em uma consulta oracular pode ser, dependendo da perspectiva e dos atores envolvidos na trama, positivo ou negativo.

A pessoa que olha pela primeira vez para a carta Misfortune ou  Desgraça do Sibilla Della Zingara quase sempre a associa à destruição de alguma coisa, a iminência de algum acidente. O prédio em chamas, o bombeiro a apagar o fogo e uma pessoa se jogando para escapar do incêndio faz algumas vezes o consultante se arrepiar.

Misfortune Della Zingara

Misfortune
Sibilla Dellla Zingara
By Lo Scarabeo, 2006

E a carta realmente denota a vulnerabilidade de algo ou de alguém, da aproximação de um tempo difícil, no qual o maior desafio será a necessária ruptura com o que, de fato, já não tem mais valor algum. Ora, romper com o que mesmo? Bem, será que pode ser com os caprichos do nosso maior vilão, o  ego? Ou, que tal isolar o egoísmo e acabar com a arrogância? Talvez romper com uma convivência, seja a solução! Ou, quem sabe, detonar com alguma prática, costume ou hábito? Ou deixar para trás alguma ideia fixa em alguém ou em algo? … Ah, tanta coisa desagregadora pode ser abandonada! Confrontar a própria sombra para se libertar, muitas vezes é preciso!

O Baralho da Vovó Cigana traz uma carta denominada de Grade. Quem olha para ela pela primeira vez  em uma consulta oracular de cara pergunta logo, “isso é uma prisão?” Por si mesma essa carta fala sim de prisão, em sentido amplo. É o se estar preso a algo, a uma circunstância ou a alguém, mas também pode alertar para algum tipo de problema com a lei ou uma prisão propriamente dita, daquelas que cerceiam a liberdade ou o direito individual da pessoa de ir e vir.

Grade

Grade
Baralho da Vovó Cigana
Tamina Thor
Pallas Ed, 2004

Perguntei a esse baralho agora há pouco sobre o futuro, daqui a seis meses, de um determinado indivíduo de projeção em nossa política e me vieram  na casa do passado a carta 4, Criança, na do presente, a carta 3, Pombal e na do futuro, a carta 24, Grande. As duas primeiras cartas, dentre outros temas,  falam de liberdade, mas esta última aponta para um problema grave com a lei e consequente prisão.

Vovó

Criança, Pombal e Grade
Baralho da Vovó Cigana
Tamina Thor
Pallas Ed, 2004

A carta dos Ratos do Petit Lenormand é outra que geralmente deixa o consultante com uma “pulga atrás da orelha” e com certo medo. A figura do rato, por si mesma, é percebida culturalmente – e não poderia deixar de ser também pelo consultante -, com certa repugnância.

Ratos

Ratos
Patit Lenormand: Cartomancia Francesa
Lo Scarabeo, 2006

Essa carta denota sujeira, falta de higiene, fedor, detrito, doença e, às vezes, roubo. Ao consultante, vem-lhe logo à cabeça que ele pode estar prestes a passar por algum tipo de problema muito sério ou por um momento de privação. Pensamento esse que não deixa de fazer sentido, pois a carta alerta para tais possibilidades.

O Sibilla di Nostradamus possui uma carta denominada de Le Spine ou Os Espinhos ou O Arbusto Espinhoso que aos olhos do observador é uma carta expressiva e temerosa por destacar em sua imagética vários galhos, com folhas secas, cobertos de espinhos a sugerir um por vir de infortúnios e sofrimentos consequentes de problemas de todas as ordens, que aparentemente não vislumbram solução, abalando a paz de espírito do analisado pelas cartas, embora a estrela da esperança esteja também na carta a denotar que para depois será possível um alento.

Os Espinhos

Le Spine, 3
Sibilla Di Nostradamus
Lo Scarabeo, 2006

Bem, não se pode negar que há inúmeros oráculos de cartas que possuem, sim, as suas cartas temidas. Esse temor ocorre porque as suas imagens ampliam o contexto da elaboração simbólica, que é um processo mental transcendente ao contexto verbal, deixando evidente como as imagens são impactantes à mente humana e reveladoras na seara material. Sobre esse aspecto Chevalier e Gueerbrant (2005) afirmam que o símbolo como algo dinâmico, repleto de movimento e de significações  afeta e é afetado pelas estruturas mentais humanas. Por outro lado, o oraculista experiente, entendedor da dinâmica simbólica e imagética dos baralhos cartomânticos e bom conhecedor do oráculo que utiliza, sabe muito bem associar as mensagens oraculares provenientes de cada símbolo e de cada imagem aos contextos vividos e anunciados por seus consultantes. Como diria Ricouer, 1978, “[…] o símbolo necessita da mediação da interpretação […]”, ou seja, depende do cartomante para dar o seu recado.

Não é difícil uma carta temida trazer ventura e boas novas ao consultante. Quem já não passou por um desafio pressagiado por qualquer carta temível e, no fim, obteve um grande aprendizado e uma verdadeira libertação? Como os oráculos são dinâmicos e da mesma forma as suas respostas, o que pode  parecer se configurar em uma imensa catástrofe, pode ser na verdade um período de grandes aventuras e de abençoada ventura, que podem muito bem ser anunciadas por qualquer oraculista mais atento.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CHEVALIER, Jean; GUEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações. Rio de Janeiro: Imago, 1978.

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